Porque em certo lugar disse assim do dia sétimo: E repousou Deus de todas as suas obras no sétimo dia. E outra vez neste lugar: Não entrarão no meu repouso. Visto, pois, que resta que alguns entrem nele, e que aqueles a quem primeiro foram pregadas as boas novas não entraram por causa da desobediência, Determina outra vez um certo dia, Hoje, dizendo por Davi, muito tempo depois, como está dito: Hoje, se ouvirdes a sua voz, Não endureçais os vossos corações. Porque, se Josué lhes houvesse dado repouso, não falaria depois disso de outro dia. Portanto, resta ainda um repouso para o povo de Deus. Porque aquele que entrou no seu repouso, ele próprio repousou de suas obras, como Deus das suas.

Hebreus 4:4-10

Qual é a relação que o livro de Hebreus traça entre o Sábado e o descanso que entramos pela fé no Senhor Jesus? Alguns ensinam que, uma vez que pela fé colocamos nossos fardos sobre Jesus por meio da fé e encontramos descanso espiritual (Mateus 11:28-30), o Sábado é hoje desnecessário ao cristão. Será isso mesmo? Richard B. Gaffin, ministro da Igreja Presbiteriana Ortodoxa e ex-professor de Teologia Sistemática no Westminster Theological Seminary em Filadélfia (Estados Unidos), aponta a relação entre a guarda do dia do Senhor e o descanso eterno que ainda nos aguarda em Jesus:

“Sem dúvida no livro de Hebreus, por exemplo, Deus deixa claro que quer que apreciemos a profunda ligação entre o escopo abrangente da religião cristã, que acabou de ser delineada, e a nossa guarda semanal do Dia do Senhor. Na longa passagem de Hebreus 3:7-4:13, ele está tentando dar aos cristãos do Novo Testamento um senso de sua identidade básica: eles são viajantes; a igreja é um povo peregrino. Ele estabelece o seu ponto, ao comentar o Salmos 95:7-11, comparando a igreja ao Israel no deserto. Essa analogia tem dois lados. Por um lado, assim como Israel tinha sido liberto da escravidão no Egito, assim os crentes já foram libertos da culpa e poder do pecado. Mas, por outro lado, assim como Israel no Sinal ainda não tinha entrada na terra de Canaã, assim ainda não alcançamos nossa salvação em sua plenitude final. Uma experiência segura e incontestável (mas não incerta!) de salvação ainda é futura para a igreja."

Esse é o porquê existem tantas exortações pronunciadas a perseverar, não somente nessa passagem, mas por todo o livro de Hebreus. Deus chama essa possessão futura de salvação de ‘descanso’ ou ‘meu descanso’, tomado de Salmos 95 (veja Hebreus 3:11 18; Hebreus 4:1 3, 5, 10, 11). Além do mais, ele explicitamente associa o Sábado com esse descanso. Isso acontece de duas formas. Primeiro, em Hebreus 4:4 ele conecta esse descanso com Gênesis 2:2 (‘E, havendo Deus terminado no dia sétimo a sua obra, que fizera, descansou nesse dia de toda a sua obra que tinha feito’). Esse é o único lugar onde o Novo Testamento cita esse versículo. É também significativo que existem apenas dois lugares onde o Antigo Testamento cita esse versículo, e nessas duas ocorrências com o propósito de apoiar o mandamento semanal do Sábado (Êxodo 20:11; Êxodo 31:17).

Segundo, em Hebreus 4:9 ele deliberadamente chama o descanso de ‘um repouso do Sábado’ (ou ‘guarda do Sábado’). O intento desse comentário inspirado sobre o Antigo Testamento deveria ser claro o suficiente. Deus quer que vejamos o descanso final – a ordem de consumação guardada para os filhos redimidos de Deus – como um grande e infindável descanso sabático. Isso sugere que o dia de Sábado é um sinal escatológico. Em outras palavras, nosso repouso semanal do Sábado é um sinal que aponta para o fim da história e para o cumprimento último de todos os propósitos de Deus para a Sua criação. ... O próprio descanso – cessar tanto quanto possível de todas aquelas atividades que são apropriadas nos outros seis dias da semana – tem significado positivo. O Dia do Senhor é sobre adoração, pois é em primeiro lugar sobre o evangelho. É um sinal, um testemunho tanto para a igreja como para o mundo espectador, que ‘não sois de vós mesmos’ (1 Coríntios 6:19).

Somos dependentes de Deus, e não de nós mesmos, para a nossa provisão. Isso é um sinal que não confiamos em nós mesmos e em nossos esforços como filhos e filhas caídas de Adão. Confiamos na justiça perfeita de Cristo, o último Adão. Confiamos na fidelidade de Deus às suas promessas pactuais de fazer por nós aquilo que somos incapazes de fazer por nós mesmos. Nós obscurecemos o significado do Dia do Senhor se o desvinculamos dos outros seis dias da semana. O ciclo semanal – que estrutura a existência humana em quase toda época e lugar – fornece um tipo de ‘filosofia da história’. O padrão de seis dias de atividade interrompida por um dia de descanso é uma lembrança contínua que os seres humanos não estão imersos numa sequência de dias sem significado, um após o outro sem fim.

A história tem um princípio e um fim. Dirigimo-nos para o julgamento final e a consumação de todas as coisas. Todas as vezes que lembramos o dia de Sábado para santificá-lo, isso nos encoraja a ‘pensar mais alto’. Lembramos que somos filhos redimidos de Deus. O Sábado semanal é um sinal dado por Deus, para que nossas vidas não sejam sem sentido ou propósito.”

(Publicado no periódico New Horizons, Março/2003; traduzido por Felipe Sabino de Araújo Neto)

Frederic W. Farrar, na obra “Cambridge Greek Testament for Schools and Colleges: Hebrews”, página 88, assim se expressou sobre o texto de Hebreus 4:9:

“A palavra usada como ‘repouso’ aqui [no verso 9] é diferente da que tem sido empregada em toda a primeira parte do comentário (katapausis). ... A palavra significa ‘o repouso de um sábado’, e fornece um importante elo de ligação no argumento, indicando o fato de que ‘o repouso’ que o autor tem em vista é o repouso de Deus, uma concepção muito mais alta de repouso do que qualquer espécie de descanso que Canaã pudesse tipificar de modo adequado. O sábado, que em II Macabeus 15:1 é chamado o ‘dia de repouso’, é o tipo mais aproximado do céu do que Canaã.”

E finalizamos com as palavras do pastor Jerry N. Page, em artigo no periódico Ministry, junho 1978, pág. 13, que declarou sobre o repouso de Hebreus:

“Embora o sábado seja mencionado apenas incidentemente em um contexto que enfatiza a disponibilidade do repouso da salvação para o homem, o repouso de Deus, no sétimo dia da semana da Criação, revela que o sábado é um símbolo, é uma amostra do repouso da graça. Da mesma forma que o homem comunga com Deus pela fé e desse modo obtém o repouso, assim aconteceu no domínio do tempo, de modo que esta comunhão encontra sua suprema expressão na simbólica dádiva divina do sábado. Quando nosso autor introduz o conceito do repouso divino, não é por coincidência que ele faz um trocadilho pela introdução da palavra sabbatismós. A relação entre o repouso divino como experiência e o sábado como seu símbolo é de maneira conveniente explicada por E. J. Waggoner: ‘O repouso no Éden era repouso sabático. O sábado é um pedaço do Éden que nos resta, até que o Éden seja novamente restaurado; aquele que guarda o sábado como Deus o fez, como Deus o concedeu para ser guardado, goza do repouso que o Senhor Jesus Cristo tem no céu. Mas como pode alguém guardá-lo? Pela fé!’”

Desfrutemos então semanalmente, a exemplo de Deus (Gênesis 2:1-3), o descanso físico que nos aponta para o descanso eterno que teremos em um mundo restaurado, o qual o Senhor nos trará segundo a Sua promessa (2 Pedro 3:13).

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