O décimo segundo capítulo de Apocalipse aparentemente apresenta um resumo de toda a era do evangelho. O capítulo começa com o nascimento iminente de um filho do sexo masculino, geralmente reconhecido como Cristo, devido ao seu destino de governar o mundo com um cetro de ferro (v. 5; cf. Salmos 2:9). Um dragão, identificado como Satanás (v. 9), é visto antecipando o nascimento, com a intenção de destruir a criança (v. 3-4). O fracasso do dragão em alcançar seu objetivo e a ascensão da criança ao trono de Deus (v. 5) resultam em uma batalha entre os “irmãos” de Cristo e o dragão (v. 11, 17), que pode representar a guerra espiritual de longa data entre a igreja e as forças das trevas.

A primeira personagem a aparecer, e a permanecer proeminente ao longo da história, é uma mulher grávida (v. 1-2). Ela dá à luz (v. 5), depois é perseguida pelo dragão (v. 13), foge para o deserto (v. 6, 14) e dá à luz filhos adicionais (v. 17). Embora exista um consenso geral entre os comentaristas sobre a identificação do filho do sexo masculino, não existe consenso na identificação da mulher misteriosa. Ela já foi identificada de várias formas com Israel, com a igreja, com o remanescente crente do fim dos tempos e com a Virgem Maria.

A última dessas teorias é amplamente aceita entre os católicos romanos. Sua primeira aparição é encontrada nas especulações de Epifânio, no final do século IV. [1] Não é a única visão adotada pela Igreja Romana, mas foi endossada por dois papas (Pio X e Paulo VI) [2] e é provavelmente a visão mais amplamente adotada, em nível popular, entre os católicos romanos. Tendo adotado a identificação dessa mulher com a Virgem Maria como primeira premissa, acredita-se que várias doutrinas católicas romanas sejam justificadas:

  • A equiparação de Maria à “nova arca da aliança”, devido à proximidade dessa visão com o aparecimento da arca no céu (11:19);
  • A exaltação de Maria como luminária celestial, uma vez que a mulher está vestida com o sol, posicionada sob a lua e coroada de estrelas (Ap 12:1);
  • A idéia de que Maria é a “mãe”, não apenas de Jesus, mas também de todos os cristãos, uma vez que são referidos como “o restante de sua descendência” (Apocalipse 12:17);
  • A partir do último ponto, extrapolou-se que Maria, sendo “a mãe de todos os viventes” (Gênesis 3:20), deve ser reconhecida como a “nova Eva”, cujo papel na redenção é paralelo ao papel de Eva na introdução do pecado e condenação.

A maioria dos protestantes não atribui a Maria o status implícito nessas afirmações. No entanto, em diálogo com os católicos romanos, esses pontos costumam ser levantados em apoio às doutrinas marianas, como se a identidade dessa mulher com Maria fosse um ponto de partida inquestionável para a discussão.

Além da questão de a mulher ser ou não uma referência à Virgem Maria, deve-se salientar que a proximidade, no capítulo 11, da arca da aliança não fornece base para a identificação da mulher com aquele objeto. Nenhuma sugestão de tal conexão pode ser extraída de qualquer declaração no texto. Assim, não haveria razão exegética para ver a mãe de Cristo como uma “nova arca”, mesmo que a mulher na visão a seguir pudesse se referir a ela.

A evidência que aponta para a identificação da mulher com Maria (por exemplo, que ela, na visão, dá à luz a Cristo) é inconclusiva. Afinal, em Apocalipse, a imagem de uma mulher não precisa ser tomada como um indivíduo literal. Há outra “mulher” retratada no décimo sétimo capítulo, que recebe o nome de “Mistério Babilônia, a Grande” (v. 5). Muita discordância sobre a identidade dessa “Babilônia” caracterizou as exposições, mas uma coisa em que todos concordam é que “Babilônia” não é uma mulher literal. O mesmo pode ser dito para a “noiva” descrita em Apocalipse 21:2 Apocalipse 21:9-10. Esse uso de imagens femininas para representar entidades corporativas no Apocalipse deve informar nossa interpretação da mulher que deu à luz o filho masculino.

Uma pista importante para sua identidade, além de dar à luz a Cristo, é encontrada nas imagens do sol, da lua e das doze estrelas (Ap 12:1), que remetem claramente ao sonho de José em Gênesis 37:9. O pai de José, Jacó, reconheceu essas imagens como representando sua própria família (ou seja, Israel). Por esse motivo, os intérpretes mais antigos interpretaram a mulher em relação a Israel - geralmente como o remanescente fiel ou Israel “espiritual”. O antigo comentário de Victorinus (século III) afirmou: “A mulher vestida com o sol, com a lua debaixo dos pés e vestindo uma coroa de doze estrelas na cabeça e sofrendo dores é a antiga igreja dos pais e profetas, santos e apóstolos, que tiveram os gemidos e tormentos de seu desejo até que viram ... Cristo, o fruto de seu povo segundo a carne.” [3] A Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos concorda com Victorinus: “A mulher adornada com o sol, a lua e as estrelas ... simboliza o povo de Deus no Antigo e no Novo Testamento. O antigo Israel deu à luz o Messias (Apocalipse 12:5) e depois se tornou o novo Israel, a igreja.” [4]

No entanto, a Igreja Romana adotou uma dupla identificação da mulher como representando, em um nível, a igreja e, em outro nível, a Virgem Maria: “Existe uma longa tradição de interpretação na Igreja que vê essa mulher de duas perspectivas: como representante do povo de Deus e como mãe de nosso Senhor.” [5] Um respeitado comentário católico explica: “Por essa mulher, os intérpretes geralmente entendem a Igreja. Também pode, por alusão, ser aplicada a nossa abençoada Senhora.” [6]

Embora os protestantes possam intuir que tal identificação dupla parece improvável - e até teologicamente oportunista - ambas as idéias têm plausibilidade prima facie. Mesmo que a mulher represente o povo de Deus, como parecem sugerir as tradições mais antigas, ainda é possível ver Maria como o membro individual do fiel remanescente que trouxe à luz o Messias. Por outro lado, se for reconhecido que a mulher (como as outras “mulheres” em Apocalipse) representa uma entidade corporativa, não parece necessário adicionar outra camada de interpretação, identificando-a com a igreja corporativa e com a mãe individual de Cristo.

Embora o nascimento de Cristo possa ser um fator que poderia apontar para Maria, a descrição subsequente das circunstâncias da mulher parece descartar qualquer referência a Maria. A mulher é vista como vítima de uma perseguição pós-ressurreição especial do dragão (Apocalipse 12:13), mas nada no Livro de Atos, onde Maria é vista pela última vez (Atos dos Apóstolos 1:14), indica que ela foi escolhida da comunidade cristã em geral como um alvo de perseguição.

Como resultado dessa perseguição, a mulher da visão foge e encontra refúgio no deserto (Apocalipse 12:6 Apocalipse 12:14). Maria realmente fez essa fuga? Nenhuma informação histórica sugeriria que ela o fizesse. No entanto, o fiel remanescente judeu (a Igreja da Judéia), que em outros aspectos parece um bom candidato à identificação com a mulher, fugiu para o deserto antes do cerco de Jerusalém em 70 d.C., e assim encontrou refúgio da invasão romana àquela cidade. Eusébio, escrevendo em 325 d.C., relata: “O povo da igreja em Jerusalém havia sido ordenado por uma revelação, concedida a homens aprovados antes da guerra, para deixar a cidade e morar em uma certa cidade de Peréia chamada Pela”. [7]

Em Apocalipse 12:17 diz-se que a mulher teve outros “filhos” que sofreram perseguição com ela. Embora pareça provável que Maria e José tenham tido mais filhos após o nascimento de Jesus (por exemplo, Mateus 13:55-56), não lemos sobre esses filhos sofrendo perseguição especial no deserto. Por outro lado, se a mulher for vista como a igreja judaica, os cristãos gentios, “que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus Cristo”, seriam aqueles referidos como “o restante de seus descendentes”. A mulher, então, é ela que é “a mãe de todos nós” - uma dignidade atribuída em outros lugares a “Jerusalém que está em cima” (Gálatas 4:26), que é a igreja (Hebreus 12:22-23).

Embora o fato de dar à luz a Cristo pareça qualificar a mulher de Apocalipse 12 a ser identificada com Maria, não há mais nada no capítulo que se correlacione com ela e, como observamos, há uma tendência em Apocalipse de usar as mulheres como figuras para algumas entidades corporativas e não para pessoas individuais.

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A identificação que melhor se encaixaria em todos os fatos conhecidos dentro e fora da passagem seria a do remanescente judeu fiel, por meio de quem Deus trouxe o Messias ao mundo e o seguiu como Seus primeiros discípulos. O remanescente da Judéia tornou-se assim a igreja da Judéia. O Livro de Atos documenta o início da perseguição da mulher pelo dragão, e a história da igreja (Eusébio) registra sua fuga para o deserto.

Essa identificação acomoda facilmente a referência ao “restante de seus descendentes”, uma vez que essa é uma maneira muito apropriada de falar das igrejas gentílicas, que foram geradas pelos trabalhos dos santos da Judéia.

Quanto à idéia de uma “nova Eva”, isso não seria aplicável a Maria, pois Adão é um tipo de Cristo (Romanos 5:14), e Eva era a esposa de Adão, não sua mãe. O casamento de Adão e Eva parece ser identificado por Paulo como um tipo de Cristo e Sua noiva, a igreja (Efésios 5:31-32), que tornaria novamente a igreja, e não Maria, a “nova Eva” e a “mãe de todos os viventes”.

Assim, a identificação da mulher com a Virgem Maria é hermeneuticamente tênue, tornando inútil este capítulo do Apocalipse na defesa de quaisquer doutrinas marianas específicas. 

 

Notas

[1] J.N.D. Kelly, Early Christian Doctrines, ed. rev. (San Francisco: HarperCollins, 1978), 495.

[2] Citado por Fr. John Echert, “Catholic Q and A,” Global Catholic Network, http://www.ewtn.com/vexperts/showmessage.asp?number=385115.

[3] Victorinus, Commentary on the Apocalypse (versão online), http://www.newadvent.org/fathers/0712.htm.

[4] “Revelation, Chapter 12,” United States Conference of Catholic Bishops, http://www.usccb.org/bible/revelation/12:7.

[5] Fr. Echert, “Catholic Q and A.”

[6] Haydock’s Catholic Bible Commentary, edição 1859 (in situ), http://haydock1859.tripod.com/id298.html.

[7] Eusébio, História Eclesiástica, Livro 3, Cap. 5, em Philip Schaff e Henry Wace, eds., Nicene and Post-Nicene Fathers, Vol. 1 (Second Series) (Peabody, MA: Hendrickson, 1994), 138.

 

Traduzido por Fabricio Luís Lovato a partir de: <https://www.equip.org/article/woman-revelation-12-mary>.

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