Texto de Estudo

Então disse o SENHOR a Josué: Olha, tenho dado na tua mão a Jericó, ao seu rei e aos seus homens valorosos.   Josué 6:2

INTRODUÇÃO

Pela fé, ruíram as muralhas de Jericó, depois de rodeadas por sete dias”. (Hebreus 11:30) Assim afirmou o autor da carta aos Hebreus, em um capítulo que focaliza os que exerceram sua fé nos mais variados contextos. Ao compararmos sua leitura com a narrativa dessa vitória israelita pelos olhos do escritor do livro de Josué, percebemos que o elemento “fé” não foi subtraído de forma alguma. Isso demonstra que, apesar de ambos os autores estarem em momentos históricos diferentes, no que diz respeito ao curso das alianças (o autor de Josué dentro da Antiga Aliança, e o autor de Hebreus, dentro da Nova Aliança), nossa atenção deve repousar sobre o fato de que Deus está, indubitavelmente, à frente de seu povo.

Em nosso estudo de hoje, analisaremos com mais detalhes a primeira batalha rumo à conquista da Terra Prometida. Dentro de sua singularidade, o elemento sobrenatural se sobressaiu. Contudo, isso não isentou os soldados israelitas de sua responsabilidade: obediência.

 

ORIENTAÇÕES DIVINAS A JOSUÉ

O capítulo seis de Josué é uma sequência textual dos versículos anteriores, pertencentes ao capítulo cinco (versos 13 a 15). O intuito é amarrar as narrativas quanto ao personagem principal e o assunto que as conecta: o príncipe do exército do Senhor e as informações sobre a forma de vencer a batalha. Jericó era conhecida como “cidade das palmeiras”. (Deuteronômio 34:3 e Juízes 3:13) Eis um indicativo de que sua localização era privilegiada, uma vez que estava dentro de uma área verde e fértil.

A primeira informação que obtemos, no primeiro verso do capítulo seis, é sobre o estado de alerta em que se encontrava Jericó. Diz-se: Jericó estava rigorosamente fechada por causa dos filhos de Israel; ninguém saía, nem entrava”. Tal atitude do sistema de defesa cananeu era consequência do temor que o Senhor havia plantado no coração daqueles moradores, conforme registra o verso um do capítulo anterior. Ninguém saía, nem entrava. Essas informações remetem o leitor ao fato de que, antes de as tropas israelitas chegarem perto de Jericó, Deus já estava lá dentro! Reiteramos a tônica da lição anterior – ou seja, esses registros são mais do que relatórios de guerra; são testemunhos da ação divina no meio do povo. 

Do verso dois ao sete, temos a descrição da orientação do Senhor (ou pelo, príncipe do exército do Senhor) a Josué. Depois de afirmar, categoricamente, que Jericó já estava entregue aos israelitas, Deus descreveu-lhe como a batalha deveria ocorrer. Trata-se de uma parte muito interessante! Afinal, esperava-se a indicação de estratégias militares, mas o Senhor apresentou um plano mais parecido com uma marcha da vitória misturada à celebração religiosa que uma marcha de guerra. As buzinas, os sacerdotes vestidos de branco, o silêncio reverencial, tudo indicava que a guerra era muito mais religiosa que militar.

Caso o Senhor não estivesse com seu povo, e se não houvesse plantado o temor naqueles habitantes, dificilmente os hebreus conquistariam a vitória. Jericó era uma fortaleza. O exército de Israel ainda poderia contar com a má sorte de Jericó formar uma aliança com outros reis e exércitos cananeus (caso fosse preciso).

A queda súbita dos robustos muros de Jericó arrasou de vez com qualquer confiança ou plano de resistência traçado pelos adversários. Dadas as características naturais da cidade (comida e água) e a organização da liderança em si, provavelmente Jericó suportaria um longo período de cerco. Jericó venceria seus inimigos pelo cansaço e pela frustração. Mas nós já sabemos o final da história: Deus deu vitória ao seu povo!

Todavia, vale ressaltar que a participação humana não deve ser excluída pelo fato de Deus ter tomado a frente da batalha. Como se pode notar, os pelotões da frente e os sete sacerdotes da retaguarda tiveram papel importante na invasão. O cuidado que devemos tomar é apenas de não atribuir toda a glória aos feitos humanos. 

 

ORIENTAÇÕES DE JOSUÉ AO POVO

Depois que Josué recebeu as informações, repassou-as ao povo e preparou-os para um ataque a longo prazo. Antes de pisarem dentro de Jericó, os guerreiros hebreus deveriam, silenciosamente, rodear a cidade, antes do ato de invasão. Eles circulavam e retornavam à base (isto é, para o acampamento de Gilgal). Com relação a esses rodeios, é interessante notar que:

 

Jericó era uma cidade pequena, de uma área de uns três ou quatro hectares. Marchar ao redor das ruínas da cidade antiga não demora mais que 15 minutos. Porém, marchar ao redor de uma cidade desse tamanho, a uma distância fora do alcance de arqueiros, que se postavam sobre os muros, implicaria um tempo, aproximadamente, duas vezes o normal.

 

No verso 11, mais uma vez, o escritor bíblico revela a abordagem teológica de seu relato. Ele põe a Arca da Aliança em relevo e os filhos de Israel em segundo plano. O objetivo é demonstrar que a resposta esperada ou natural para aqueles que se guiam pelos planos de Deus é a obediência. Como foi salvaguardado no tópico anterior, o fato de Deus planejar e orientar não neutraliza nossa responsabilidade.

 

O SÉTIMO DIA E A DESTRUIÇÃO DE JERICÓ

O dia mais importante da batalha foi o sétimo. O exército israelita já havia completado seis voltas em torno de Jericó. Mas, no sétimo dia, fechando o ciclo, deveriam dar sete voltas, gerando um total de 13, ao todo.

O número sete carregava uma carga simbólica forte para a cultura hebraica. Representava plenitude, completude e perfeição. E, levando em consideração que a preparação para a invasão de Jericó havia ganho contornos ritualísticos devido à presença da Arca e dos sacerdotes, não fica difícil entender por que a repetição do sete aparece tantas vezes nessa narrativa.

Ao finalizar a sétima volta, o silêncio foi rompido por uma mistura de gritos dos soldados e o toque das trombetas. Para os que não acreditam no poder sobrenatural de Deus, a ressonância daqueles sons pode ter provocado a queda dos muros. Outros ainda recorrem a um possível terremoto, tendo em vista que o solo da região era composto por uma areia frouxa e sem tanta estabilidade (confira Paul Holff, p.41). Vale ressaltar que Deus pode usar meios naturais para realizar obras sobrenaturais.

A questão toda só se torna polêmica, porque a mente do homem contemporâneo tem a tendência de pôr em maior relevância e legitimidade o argumento científico. Se entendermos que fé e ciência não precisam ser inimigas, com certeza seremos enriquecidos com os frutos desse conhecimento todo.

Todavia, independentemente dessas questões, o fato é que os muros caíram, e Jericó foi invadida. Uma nova etapa das ordens/orientações de Deus deveriam ser cumpridas naquele momento. No verso 17, lê-se: “Porém, a cidade será condenada, ela e tudo quanto houver nela...”. Esse versículo levanta um ponto polêmico, ou desconfortável, para a geração atual de cristãos ou leitores da Bíblia. O século XX carrega uma mancha maléfica de duas grandes guerras mundiais. Isso não somente afeta a sensibilidade como gera um sentimento de inconformismo. Muitos céticos acusam a Bíblia de patrocinar guerras em nome da religião. Contudo, isso não é verdade. De fato, muito do que se tem dito a respeito dessa delicada questão é legítimo e compreensível. O fato de existirem passagens bíblicas como essas, necessariamente, não exige dos cristãos atuais que iniciem guerras em prol de conquistas de terra.

O que acontece nesse ponto deve ser examinado no contexto histórico dos filhos de Israel, sob a liderança de Josué. Aquele ato de destruição era uma espécie de rito culminante de uma guerra santa. A palavra traduzida por “condenada”, no verso 17, vem do hebraico: “cherem” ou “herem”. Ela quer dizer, literalmente, “devotada”. Como vimos, os contornos ritualísticos impregnam a narrativa da conquista de Jericó. Logo, nada mais lógico para o escritor apontar para a política de consagração. Israel não foi o único povo que praticou isso, pois se tratava de uma prática pela qual o inimigo derrotado e os espólios da vitória eram feitos invioláveis ao uso profano. Assim, eram dedicados, pela destruição total, à deidade que deu a vitória.

Situado em seu devido momento histórico, e entendendo que o plano de Deus ao longo da História é progressivo, muitos entraves podem ser contornados. Basta olharmos para a atitude de Jesus em não querer que o seu Reino viesse por meio da espada, quando repreendeu Pedro, no Getsêmani. Ainda assim, para muitos, isso não livra os cristãos de todas as questões éticas ali envolvidas. Por exemplo, “como pode um Deus de amor liderar e ordenar um massacre como aquele?”. Não temos a resposta final e satisfatória para esse gênero de pergunta.

Essas problemáticas são indigestas? Sim; elas são. Temos vontade de contorná-las para não ferir a sensibilidade da geração de hoje? Sim; isso é possível. Talvez quanto a isso não nos caibam respostas e, sim, continuar refletindo sobre as perguntas.

A ordem divina alertou também sobre ninguém tomar qualquer coisa da cidade para si. Seria natural para qualquer soldado pegar um objeto para si como uma recompensa. Mas tudo devia ser destruído. A única exceção eram ouro, prata, ferro e bronze que deveriam ser usados para o tesouro do Senhor. O capítulo sete revela as consequências de desobedecer a essa ordem.

 

O ACORDO COM RAABE É CUMPRIDO

No meio de toda a invasão, um acordo deveria ser cumprido. O capítulo dois relata-nos sobre a atitude de Raabe para com os espias enviados por Josué. Ela dera-lhes proteção e, como consequência, foi-lhe feita uma promessa: nem ela, nem aqueles que estivessem dentro de sua casa, quando Jericó fosse invadida, morreriam ao fio da espada. O sinal para se identificar a casa de Raabe era um cordão de cor vermelha. (ou escarlate, Josué 2:17-18) A nota final do verso 23 diz que Raabe e seus familiares foram colocados fora do arraial de Israel. A razão para isso era uma questão de pureza ritual. (Veja Deuteronômio 23:10-14) Como Raabe fazia parte de um povo considerado impuro e infiel a Deus, pelo menos num primeiro momento, eles não poderiam ser agregados. Apesar de o relato bíblico não nos dar detalhes, mais tarde (v.25), Raabe e sua família passaram por um ritual de purificação (Números 31:19) e foram agregados ao povo de Israel. Prova disso é que ela tornou-se uma das ancestrais de Jesus. (Ver Mateus 1:5; e também Hebreus 11:31 e Tiago 2:25.)

 

UMA MALDIÇÃO SOBRE A JERICÓ DESTRUÍDA

Terminada a batalhar e a pilhagem, Josué faz um juramento e incluiu o povo nesse juramento. Na realidade, ele proferiu uma maldição contra todo aquele que tentasse edificar Jericó novamente. E fez isso para que os filhos de Israel, e também os inimigos, soubessem que a destruição de Jericó fora um milagre do Senhor. A permanência dos escombros seria um memorial.

A maldição lançada por Josué também poderia servir de fator desmotivador para que qualquer tribo israelita não ficasse tentada a aproveitar o lugar e reabitá-lo. A proposta não era de toda absurda, uma vez que a tribo de Rubem e a meia tribo de Manassés haviam se assentado ao leste do rio Jordão. (1:10-18) De acordo com a Bíblia, a maldição acabou caindo sobre Hiel. (1 Reis 16:34) Antes disso, porém, o local manteve-se em ruínas por séculos, embora alguns textos bíblicos informem que a região não ficou de toda desocupada. (2 Samuel 10:5)

O último versículo do capítulo seis afirma: “Assim era o Senhor com Josué, e corria a sua fama por toda a terra. Mesmo sem toda a tecnologia de informação de que fazemos uso hoje, é impressionante ver como as notícias corriam naquela época. Sem sombra de dúvida, isso fazia parte da estratégia divina. A pilhagem de Jericó reforçou mais ainda o temor e a tensão sobre as demais cidades das terras cananeias que ainda seriam invadidas. O próximo ataque seria contra a cidade de Ai, mas será assunto para outra lição.

 

CONCLUSÃO

Vimos como foi a primeira batalha dos filhos de Israel na Terra Prometida. A lição para nós é que Deus sempre vai à frente de seu povo, protege-o e cumpre suas promessas.

O que o Senhor espera de nós, ainda hoje, não tem a ver com conquistas e assentamentos de terras. Aquela foi uma etapa crucial no plano da redenção; um momento histórico que requeria tais atitudes e posicionamentos. Atualmente, a geração que confia no Senhor respira sob uma Nova Aliança, na qual os sacrifícios humanos ou de animais não são mais necessários.

Nos primórdios da Era Cristã, outro príncipe do exército do Senhor apareceu para seu povo. Seu nome: Jesus de Nazaré! Fez-se carne, habitou entre nós. Travou sozinho a “batalha” que nenhum de nós poderia travar. Se a tivéssemos travado por nós mesmos, sairíamos derrotados com certeza. Ele fez-nos a promessa de novos céus e nova terra. Não desista de crer! Espere com confiança no Senhor. E sonhe com o dia em que você pisará a “terra santa por excelência”. Desta vez, sem armas ou sangue... mas com louvor e adoração! 

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Graça Maior - Pr. Wesley Batista de Albuquerque, . Disponível em: https://gracamaior.com.br/estudos/estudo-da-semana/962-jerico-e-destruida.html. Acesso em 19 Junho 2019.
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