Texto de Estudo

Disse mais o SENHOR a Josué: Hoje retirei de sobre vós o opróbrio do Egito; por isso o nome daquele lugar se chamou Gilgal, até ao dia de hoje.   Josué 5:9

INTRODUÇÃO

Neste ano, o Brasil foi palco de um dos eventos esportivos mais importantes do mundo e de todos os tempos: as olimpíadas. E, se há uma palavra indispensável para os atletas, ao pensarem e viverem uma olimpíada, sem sombra de dúvida, esta é preparação.

O povo de Israel, sob a liderança de Josué, não participaria de uma olimpíada, mas de uma verdadeira maratona de batalhas como parte do plano de Deus para que, enfim, tomasse posse da Terra Prometida. Se por uma coroa corruptível e uma fama que desvanece com o tempo, homens e mulheres esportistas devem ter um preparo impecável, imaginemos quanto mais o povo de Deus teve de se preparar em busca de um prêmio imarcescível!

O acampamento em Gilgal serviu de campo de concentração e preparação. Eventos importantes aconteceram ali; por isso, estudaremos tal passagem bíblica e deveremos reter lições para nossa vida. Três palavras vao nos ajudar na articulação do estudo de hoje: repercussão, consagração e orientação.

 

REPERCUSSÃO: O IMPACTO DE UMA NOTÍCIA

As primeiras informações que recebemos no verso um apontam para o impacto de uma notícia. Os povos que habitavam Canaã (a Terra Prometida) já sabiam o que Deus vinha fazendo pelos israelitas. É interessante notar que, em nossa narrativa, o temor instalado nos adversários de Israel não veio como mera consequência de estratégias de combate. Sem sombra de dúvida, a liderança e o povo das “cidades-estados” cananeias (Jericó era uma delas) estavam acostumados a guerras e estratégias militares. O grande diferencial é que um rio havia parado de correr para que os israelitas atravessassem. Um obstáculo da natureza e da geografia foi transposto por um poder sobrenatural! Digno de nota é que a Baal, divindade adorada pelos cananeus, atribuía-se o poder sobre terra, céu, chuva, fertilidade da terra e vegetação.

É curioso que povos acostumados a entrelaçar a vida natural com as atividades de suas divindades tenham tido o coração desmaiado, ficando sem alento! Está claro que a chave da narrativa é colocar o foco no Deus de Israel. Ele era (e é!) o Deus de toda a terra, do mar e de tudo o que neles há. Contudo, ainda não havia se revelado a todos os povos com prodígios e sinais.

E aqui reside uma diferença entre o relato bíblico e um puramente histórico. Os livros da Bíblia foram escritos pela perspectiva da fé, com a visão de pessoas históricas que foram receptáculos das orientações de Deus e, ao mesmo tempo, executores dessas orientações.

 

CONSAGRAÇÃO: A IMPORTÂNCIA DA CIRCUNCISÃO E DA PÁSCOA

Na sequência de nosso relato bíblico, somos informados que, no mesmo período em que os povos respiravam certo temor ao Deus dos filhos de Israel, o Senhor fala com Josué. (v.2) Deus havia prometido que seria com Josué, assim como fora com Moisés. Logo, Josué também obteve o privilégio de ouvir a voz de Deus. E o que o Senhor disse? Requisitou a prática de um antigo ritual do povo israelita – a circuncisão.

Por que isso se fazia necessário? A resposta está no próprio texto, nos versos quatro a sete. A geração sob o comando de Josué não carregava o sinal do pacto ou da aliança com Deus. Uma vez que aquelas pessoas estavam prestes a entrar na Terra Prometida, seria necessário aproveitar o momento para renovar o pacto feito com o Senhor.

De acordo com Deus, aquele rito serviria para remover o opróbrio do Egito”. (v.9) E o que significava tal opróbrio? Poderia ser um jogo de palavras que Josué fez com Gilgal, o local onde estavam acampados. O verbo “tirar” ou “remover” (galal), no hebraico, tem certa semelhança à palavra Gilgal. Podem também ser apontadas outras razões: O “opróbrio do Egito” poderia ser uma referência ao fato de aqueles israelitas serem incircuncisos como os egípcios, ou uma fala irônica da parte dos egípcios. (Êx 32:12) Ou que tal opróbrio foi a desobediência da geração anterior (a do Egito), a qual ocasionou o período de peregrinação e morte no deserto. Aquela geração não pôde herdar a terra.

O fato preponderante, no entanto, é que uma consagração de todo o povo fazia-se necessária. Uma nova etapa na vida daquelas pessoas estava para começar. Aquele rito seria uma espécie de “deixar para trás tudo o que passou”.

Além da circuncisão, outro ritual foi praticado por Josué e todo o povo: a Páscoa. Esse rito foi criado por Deus com o propósito de lembrar as gerações israelitas quanto à libertação da escravidão no Egito. Percebe-se, pois, que ela acontece num momento de transição: o povo estava rompendo com seu passado e partindo para um futuro com Deus. O rito da Páscoa, ao ser comemorado novamente, reveste-se de novos sentimentos; um sentimento novo por estarem em conexão com a Terra Prometida, por estarem às vésperas do cumprimento de uma promessa antiga!

Outro fator importante é pensar nessa Páscoa como momento celebrativo de ter comunhão com Deus. Se a circuncisão gerou dor, a Páscoa gerava comunhão mútua. Até hoje, na cultura do Oriente Médio, sentar à mesa para comer com alguém representa cumplicidade, honra e relação afetiva. Aquela geração sob o comando de Josué precisa ter essa experiência.

Algo muito curioso aconteceu após a celebração da Páscoa. Assim que comeram os produtos de cereais daquela terra, o maná cessou. Veja que impressionante! O milagre do maná abria espaço para as bênçãos naturais. Isso mostra que o sobrenatural e o natural estão sob a gestão do Deus Todo-Poderoso. Viver na Terra Prometida não se traduzia, necessariamente, em ver um milagre todos os dias. A fertilidade normal das terras seria evidência das bênçãos de Deus! O Senhor dissera que aquela terra emanava leite e mel. Ou seja, tratava-se de uma terra boa para produzir o sustento aos moradores.

 

ORIENTAÇÃO E LEGITIMAÇÃO: DESCALÇANDO AS SANDÁLIAS MAIS UMA VEZ

A próxima seção da narrativa, isto é, do verso 13 em diante, está mais encaixada na estrutura do capítulo 6 que na do 5. Uma vez que o relato coloca Josué “ao pé de Jericó” (v.13), nós, os leitores, somos impulsionados a outra etapa da história que vinha sendo contada. Passados os ritos de consagração e celebração (preparativos de cunho espiritual), o povo preparava-se para guerrear e assentar-se de vez na Terra Prometida.

Parece paradoxal para nós esta ideia: Israel ganhou uma herança, mas teria de lutar por ela. Em Deuteronômio 8 e 9, você pode encontrar mais informações sobre o motivo de Deus não ter eliminado de uma vez por todas os povos que moravam naquelas terras.

O ponto central desse trecho é o encontro de Josué com o “príncipe do exército do Senhor”. Possivelmente, Josué fazia uma patrulha de reconhecimento, antes de iniciar os ataques. De repente, deparou-se com alguém que não soube identificar: És tu dos nossos ou dos nossos adversários?”. (v.13) A figura enigmática tem sido interpretada pelos estudiosos como a manifestação física do próprio Deus. Outros a vêm como uma cristofania, isto é, uma manifestação física do Jesus no Antigo Testamento. Há ainda alguns intérpretes judeus que entendem que se tratava de Miguel, o príncipe especial de Israel. Contudo, se levarmos em consideração que o redator (ou escritor) do livro de Josué estava criando uma conexão com o chamado de Moisés (episódio da sarça ardente) e que, no capítulo 6:2-5, é a voz do Senhor quem orientou Josué, logo podemos dizer que a figura seria mesmo o Senhor. Com bem destacou, William Morton: “A fácil transição do anjo do Senhor para o próprio Senhor não é incomum no uso do Antigo Testamento. (cf. Gênesis 31:11-16; Êx 3:2-6; Juízes 6:11-18)”

A razão de Deus aparecer para Josué com uma espada desembainhada era reiterar que o Senhor é quem lutava à frente de seu povo. Ele era a garantia de que Deus estava comprometido com a conquista daquela terra.

O livro de Josué não é apenas uma biografia de um general israelita, muito menos um mero registro militar. A mensagem é teológica, mesmo que use os registros militares como veículo de informação. Depois que Josué tomou consciência de quem estava diante dele, adorou-o e disse: Que diz meu Senhor ao seu servo?”. (v.14) Contudo, só ficamos sabendo o que o príncipe do exército do Senhor disse a Josué no capitulo 6:2-5. O posicionamento de Josué é a marca esperada de um líder que quer servir ao Senhor.

Além de apontar para o fato de que o Senhor estava liderando aquela guerra, também somos colocados diante da confirmação de uma liderança legítima. Na sequência, o Senhor pediu para Josué descalçar as sandálias, pois estava em lugar santo. A conexão com o chamado de Moisés é claríssima e proposital. Por que isso? A oposição aos líderes que Deus escolheu nunca foi novidade (conf. Números 12); logo, ao correlacionar e apontar certa semelhança entre o chamado de Moisés e o comissionamento de Josué, o redator apontou para a legitimidade da liderança de Josué. O próprio Senhor havia prometido a Josué: “como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te desampararei”. (Josué 1:5)

 

FÉ PARA HOJE

Os preparativos do povo, antes de entrarem na Terra Prometida, oscilaram entre a organização militar e o preparo espiritual. A grande lição que isso nos transmite é que o andamento dos planos de Deus entrecruza céu e terra, ou seja, as coisas celestiais e as terrenas! É bem verdade que, no contexto em que vivemos no Brasil, a Igreja não se caracteriza por batalhas entre exércitos e conquista de territórios. O tempo e a configuração geopolítica do mundo passaram por significativas mudanças. Ainda assim, podemos tirar um ensinamento para nós.

Por exemplo, a relação mais forte que temos com essa narrativa de Josué é o fato de fazermos parte dos descendentes daquela promessa, que vinha acompanhada por uma teologia do descanso. Com os cuidados interpretativos devidos, devemos fazer uma transposição espiritual da promessa. Como fez o autor da carta aos Hebreus, o que fica de relevante é a temática do repouso: Ora, se Josué lhes houvesse dado descanso, não falaria, posteriormente, a respeito de outro dia. Portanto, resta um repouso para o povo de Deus”. (Hebreus 4:8-9) O sábado semanal para nós, atualmente, é como se fosse uma espécie de prestação antecipada do grande repousou/descanso reservado no futuro glorioso com Jesus! Nós ainda não entramos no descanso; porém, quando descansamos de nossas obras semanais, imitamos a Deus (Hebreus 4:10) e reiteramos a promessa feita a cada um.

 

CONCLUSÃO

A passagem bíblica de estudo não nos remete apenas a um futuro glorioso. Entendo que o nosso “presente” (o hoje) também pode ser regado com o orvalho das orientações divinas. Aprendemos a importante lição de que devemos sempre dar lugar à dedicação de nossa vida ou planos a Deus, antes de agirmos. Antes de darmos passos importantes, é necessário nos colocamos em posição de submissão. A oração, a leitura da Palavra e o conselho de irmãos em Cristo são ferramentas importantes para seguirmos os rumos que estão adiante de nós.

Contudo, é necessário deixar claro que nem sempre isso é matemática exata. Ou seja, não quer dizer que, assim que você orar, ler a Bíblia ou escutar conselhos de alguém, terá a resposta imediata de que precisa. Em boa parte das vezes, isso leva tempo. Trata-se de um prazo que nós não esperamos. Que nossa ‘espera’ não deixe de ser acompanhada pela fé de que Deus fará além daquilo que pedimos e pensamos!



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