Texto de Estudo

Efésios 6:1:

1 VÓS, filhos, sede obedientes a vossos pais no Senhor, porque isto é justo.

Efésios 6:4:

4 E vós, pais, não provoqueis à ira a vossos filhos, mas criai-os na doutrina e admoestação do Senhor.

 

INTRODUÇÃO

Vimos, na lição passada, como a família, sendo um projeto criado por Deus, depara-se com vários desafios. Para nós, não basta saber que os desafios existem; é preciso lidar com o fato de que eles são inevitáveis. A razão que contribui para a inevitabilidade desses conflitos é a relação entre o individual e o coletivo. 

Quando Deus nos traz ao mundo, já encontramos uma estrutura de vida pronta. Somos inseridos num contexto com valores, normas e costumes em plena execução! E começa o processo de socialização. Não existe ‘laboratório’ mais fantástico para perceber a dinâmica disso do que a família. Dentro de casa, cada um é cada um e, ao mesmo tempo, compartilha algo comum a todos. Isso é óbvio e complicado. É óbvio, pois, no dia a dia, descobrimos que viver num ambiente em que aceitação, identidade, proteção e serviço acarretam benefícios e vantagens valiosas. Porém, é complicado, porque a participação no ambiente familiar não se limita a receber benefícios, mas em promovê-los aos outros. É nesse exato ponto que nosso tema de estudo torna-se pertinente. Uma vez que o individual e o coletivo estão em relação inseparável, necessária e desafiadora, é fundamental entendermos os deveres de cada um.

 

O PAPEL DA BÍBLIA

Sem sombra de dúvida, a Bíblia não segue a tônica dos contos de fadas quando o assunto é a dinâmica da vida familiar. Os personagens são pintados em cores vivas, sem terem os defeitos escondidos ou camuflados. Apesar disso, a Bíblia não deixa de ser a base de orientação necessária e benéfica. E a razão disso é que o livro revela o caráter do Deus santo, de inteligência e sabedoria incomparáveis, movido pelo interesse de fazer o bem às famílias: “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor, pensamentos de paz e, não, de mal para vos dar o fim que desejais” (Jeremias 29:11). Portanto, o papel da Bíblia é o de revelar as intenções de Deus para que nossa vida em família vá bem. 

Pra que a influência do Senhor surta efeito, é preciso lê-la e aplicá-la. Por meio dela, temos acesso à pessoa e à obra de Deus. É fundamental alimentar a nossa consciência da certeza de que devemos conhecê-lo para ter intimidade e estabelecer uma relação com ele. Muitos afirmam conhecer a Bíblia de Deus, mas não conhecem o Deus da Bíblia! 

E, nessa matéria, podemos convocar o pensamento de Paulo como ponto de partida. É verdade que o texto bíblico não fala especificamente sobre vários temas de interesse das pessoas de hoje. Por isso, não leremos aqui Paulo falando sobre a idade que devo deixar meus filhos saírem da casa, métodos de educação, até onde devo ceder para não perder o carinho dos filhos etc. Houve muitas dimensões da vida em família que ficaram de fora. Mesmo assim, nosso estudo não ficará empobrecido, pois isso não nos impede de fazermos um comparativo com a conduta das famílias atuais. Só teremos a ganhar ao abrir um diálogo entre Paulo e a dinâmica familiar contemporânea. 

 

 

O DEVER BÁSICO DOS MARIDOS

Ao lermos os textos de Efésios 5:22 até 6:4 e Colossenses 3:18-21, percebemos uma espécie de padrão de exortação usado por Paulo. De forma enxuta, o que o apóstolo esperava dos maridos era amor; das mulheres, submissão; dos filhos, obediência; e dos pais, que não provocassem a ira dos filhos. A diferença entre os dois textos é que o de Efésios é mais extenso. 

Vamos inverter a ordem das personagens e começar pelos maridos. Todavia, antes de tudo, é interessante mencionar as responsabilidades dos homens dentro da civilização da qual Paulo fazia parte. O marido, ou o pater familias (pai de família), tinha amplas responsabilidades no contexto greco-romano. O foco dos “cabeças” de família estava mais voltado ao ambiente doméstico (domus) que abarcava um número de componentes além de mulheres e filhos. Também estavam inclusos a parentela, os servos, os escravos e outros agregados. Além de prover alimento e segurança para todos do círculo doméstico, o homem devia cuidar do patrimônio da família, pensando nas gerações futuras. A outra atividade estava relacionada à vida pública, pois deveriam assumir papel de juízes, patrocinar festivais, jogos e prestar alguns serviços ao senado romano . 

É preciso deixar claro que essa estrutura de vida não se aplicava a todas as famílias. As informações citadas foram acrescentadas para que tivéssemos uma noção do mundo de Paulo. É bem possível que poucas famílias tivessem um status conforme o descrito , tanto nas cidades mais importantes do Império Romano como nas províncias de menor projeção. Entretanto, devemos levar em consideração que, apesar de famílias cristãs ou judaico-cristãs não representarem a maioria naquela sociedade, ainda sim estavam ambientadas àqueles padrões de direitos e deveres.

O fato é que Paulo preferiu resumir os deveres dos maridos ao livre exercício do amor. E por quê? Dessa forma, canalizaria os leitores para o essencial. Veja como Paulo pinta a relação familiar com cores espirituais. Assim como Cristo amou a Igreja, os maridos devem amar as esposas. Tal amor deveria ser traduzido em gestos concretos relacionados a cuidado, dedicação e zelo (veja como Paulo usa o exemplo do cuidado que temos com o próprio corpo, v. 28 e 29). 

O marido é um líder, mas não um líder qualquer. Dessa forma, creio que fica fácil falar de um tema incômodo para alguns. Ou seja, abordar a liderança masculina no seio familiar é como tratar de um tabu que precisa ser quebrado. Porém, à luz do principio bíblico destacado por Paulo, vejo que não há um fator que mais enalteça o homem e privilegie sua família que um líder semelhante a Jesus! Se Jesus guia a Igreja na verdade, os maridos devem guiar as esposas e os filhos na verdade. Se Cristo conforta sua Igreja, os maridos devem confortar esposas e filhos. Se Cristo intercede pela Igreja, os maridos devem orar pelas esposas e filhos. Se Cristo mantém suas promessas à Igreja, os maridos devem manter suas promessas às esposas e aos filhos. Se Cristo carregou nossos fardos, os maridos devem carregar os fardos das esposas e dos filhos. Se Cristo corrige sua Igreja em amor, os maridos devem corrigir (caso seja necessário) suas esposas e filhos em amor. Se Cristo não esperou perfeição da Igreja na Terra, os maridos não devem esperar perfeição das esposas e filhos aqui. 

Hoje em dia, esse tipo de posicionamento, ou de liderança, ainda se faz necessário. A imagem de Cristo mais imediata que as esposas e os filhos terão de Jesus é a que o marido demonstra (Quanta responsabilidade!). Os maridos não têm apenas uma responsabilidade social e cultural, mas também espiritual, acima de tudo. Infelizmente, um problema vem se manifestando... Em muitos lares, a liderança, ou mentoria espiritual, é terceirizada às escolas, aos pastores ou para os professores de escola bíblica. 

Apesar de os ensinamentos paulinos serem uma referência à família cristã, o fato é que os debates e as discussões estão longe de acabar. As mudanças ocorridas na vida em sociedade, ao longo dos anos, alimentou mais ainda o debate. Pense, por exemplo, naquele padrão em que o marido era o provedor, quem decidia os rumos dos membros da família e contava com mais liberdade para fazer o que quisesse e onde pretendesse. A mulher ficava em casa, cuidando dos filhos e servindo o esposo . Segundo alguns estudiosos, isso ocorreu por muito tempo, pois a família de linha tradicional era alimentada pelo patriarcalismo  (ou mesmo, o machismo). Alguns alegam que o fator religião exerce forte influência no assunto. Uma religião como o Cristianismo, por exemplo, sempre defendeu e apresentou papéis diferentes para homens e mulheres. Ao trazer a doutrina de que o homem foi criado primeiramente, já se coloca o homem em posição de proeminência. Um conceito como esse, afirmam estudiosos, nutre uma visão de família e de sociedade centrada na figura masculina (portanto, uma visão patriarcalista). 

Hoje são notórias as mudanças desses padrões. O espaço conquistado pelas mulheres, no mercado de trabalho, deu nova configuração aos papéis de cada um na sociedade e no lar. E não é só no trabalho que as mudanças vêm surgindo. O parecer de que a mulher deve ter os mesmo direitos que os homens está presente em assuntos como sexualidade, casamento e divórcio, criação de filhos e poder de decisão. No meio de toda a polêmica, está situada a família cristã. E, para deixar o diálogo cada vez mais longe de um consenso, dentro do próprio Cristianismo há divergências sobre o assunto. Quando se ouvem os cristãos atuais, é comum constatar posicionamentos que vão desde os conservadores, passando pelos moderados, até os liberais. O que fazer? Examinar as Escritura e aplicá-la ao nosso contexto. Rogar à sabedoria que vem do alto, pautados sempre pela temperança e amor. A atual configuração de vida das pessoas não deve nos tornar cegos e surdos, precisa ser vista como um campo no qual a semente da Palavra de Deus deve ser semeada. 

 

O DEVER BÁSICO DAS MULHERES

No que diz respeito aos deveres das mulheres, Paulo disse: “sejam submissas ao seu marido” (Efésios 5:22). A questão que vem causando polêmica é a palavra submissão. Ser submissa é estar na condição de ter de obedecer, sujeitar-se, estar subordinada. O sabor que o termo traz à opinião pública, e até mesmo à consciência das pessoas, é amargo. O Brasil já tem sua história manchada com os anos de escravidão, repressão ao direito das mulheres... Logo, parece estar no consciente e no subconsciente coletivo que qualquer posição de subordinação é ruim. 

Todavia, vale lembrar que a submissão nunca foi uma responsabilidade exclusiva da mulher. Os filhos devem ser submissos, assim como os maridos devem se submeter às leis da boa convivência social e a Deus. Lembremo-nos que o próprio Jesus viveu submisso à vontade do Pai. Isso não deprecia as pessoas; o que rebaixa são os abusos. E, quanto a isso, é bom citar as sábias palavras do apóstolo Paulo: “Sabemos, porém, que a lei é boa, se alguém dela se utiliza de modo legítimo” (1 Timóteo 1:8). Ou seja, as leis da convivência entre os seres humanos podem ser benéficas ou maléficas. O fator determinante é a forma como as pessoas vão usá-las. 

No ambiente familiar, Deus concedeu à mulher um papel honroso: “No Senhor, todavia, nem a mulher é independente do homem, nem o homem, independente da mulher. Porque, como provém a mulher do homem, assim também o homem é nascido da mulher, e tudo vem de Deus” (1 Coríntios 11:11 e 12). Sendo assim, as mulheres cristãs não precisam dar desculpas sobre seu dever em família como alguém submissa ao esposo. Ela não deve temer a submissão uma vez que esta tem como padrão a mesma submissão que a Igreja deve ter a Cristo. 

 

O DEVER BÁSICO DOS FILHOS.

O dever básico dos filhos é a obediência. E por que é assim? Foi o Senhor Deus que concedeu a autoridade aos pais e, para resguardá-la, oficializou-a na Lei: “Honra teu pai e tua mãe...” (Êx 20:12). 

O Novo Testamento também reitera esse mandamento, em Efésios 6:1 e em Colossenses 3:20. Quando os textos bíblicos sobre a relação de pais e filhos são colocados juntos, não é difícil perceber que a intenção divina é a de que os filhos aprendam a obedecer a Deus quando obedecem aos pais. Mas isso é aplicável em todas as situações? Não, pois sabemos que, apesar de ser uma autoridade constituída por Deus, os pais poderão ir contra a vontade de Deus. E, nesse caso, importa antes obedecer a Deus. Obviamente, isso jamais deve implicar em agressões e ofensas. A parte disso, podemos dizer que temos um exemplo de filho por excelência – Jesus. A despeito de ser o Messias prometido, obedecia a José e a Maria

A obediência requerida dos filhos pode ser manifestada em tarefas domésticas, vida social, lazer, estudos, trabalho e atenção aos pais em suas mais variadas necessidades. Na época de Paulo, as crianças ou os filhos abaixo da maioridade não tinham tanta relevância na vida doméstica e na social. Porém, não quer dizer que os pais não os amavam! Pode ser que a forma de demonstrar tal amor fosse diferente do nosso contexto. Contudo, vejam como Paulo posicionou-se de forma saudável; ele pediu aos pais que não provocassem a ira dos filhos. Isso quer dizer que, se aqueles esperam respeito destes, antes devem respeitá-los. O autoritarismo é sempre um mal que tende a distorcer o caráter e o papel de quem está na liderança. Ou seja, a quem muito é dado muito será pedido.

A autoridade concedida aos pais acarretará ao compromisso de instruir, apoiar, comunicar-se, orar pelos filhos e com os filhos. De forma geral, deve ser um exemplo. A respeito do dever dos filhos, a Bíblia contém algumas histórias muito pertinentes sobre a maneira como devem se comportar em relação aos pais.

Muitas histórias são baseadas em fatos; outras, manifestadas por parábolas. Pense, por exemplo, nas atitudes de José e do filho pródigo. As situações mostram que a relação entre pais e filhos pode não ser fácil, mas é um projeto que os filhos jamais devem abandonar. Note também que o “honrar pai e mãe”’ pode variar de acordo os momentos da vida. Uma coisa é honrar quando se é criança, jovem, morando com os pais. Outra é a forma de demonstrar o “honrar” quando se é adulto, não mais dependente financeiramente dos pais, casado, tendo filhos ou não, morando fora da casa dos pais. O que isso quer dizer? Simples! Respeitar os pais é um processo de amadurecimento. O respeito e o amor não devem acabar quando se sai de casa e constitui-se outra família. 

Ademais, se falhamos quando éramos mais jovens, podemos e temos a oportunidade de fazer diferente. O grande desafio que se levanta diante dos filhos, atualmente, é a maneira como se lida com os ideais de liberdade e igualdade. Esses são ideais bons; no entanto, se não passarem por uma reflexão profunda, poderão trazer prejuízos. 

Hoje em dia, o tema da obediência acaba se tornando tenso quando os seguintes assuntos, ou questões, surgem: sair com os amigos; namorar (Com que idade? Com quem? Com quantos? Quando ter a primeira relação sexual? Com quem me informo sobre sexo e relacionamento?); carreira profissional e sua busca de informações (Qual escolher: a minha, a dos meus pais? Posso ficar dentro de casa com os meus pais para sempre ?); formação espiritual, etc.

As experiências ruins de uns tendem a lançar uma sombra negativa sobre lares alheios. É nesse ponto que os filhos acabam reconhecendo a voz de outros jovens como autoridade incontestável. Na era da internet, eles têm seguido de perto o conselho da “voz jovem” - canais no YouTube, por exemplo, surpreendem com o número de acessos e de seguidores. Boa parte destes é formada por filhos que não veem mais nos pais uma referência e autoridade. Isso não significa que os bons conselhos estão reservados aos mais velhos. Ser jovem nem sempre é sinônimo de descentrado e irresponsável, pois muito do que os filhos dizem faz sentido. O que os pais precisam refletir é onde estão falhando para que os filhos não queiram mais os ouvir? Nem sempre é fácil admitir falhas, mas o caminho do bom êxito começa assim. Queridos filhos cristãos, a Bíblia pode ser antiga, mas não é ultrapassada, tampouco caduca. Ela diz: 

“Ouvi, filhos, (...) Retenha o teu coração às minhas palavras; guarda os meus mandamentos e vive; adquire a sabedoria, adquire o entendimento e não te esqueças das palavras da minha boca, nem delas te apartes. Não desampares a sabedoria, e ela guardar-te-á; ama-a, e ela proteger-te-á (...) Estima-a, e ela exaltar-te-á; se a abraçares, ela honrar-te-á (...) Ouve, filho meu, e aceita as minhas palavras, e irão se multiplicar os anos de vida” (Provérbios 4:4-5,10).

 

CONCLUSÃO

Os conflitos gerados nos lares brasileiros (e por que não dizer do mundo...) não serão resolvidos pela simples inversão de papéis. A questão não é o macho que domina, e a fêmea que se subordina juntamente de seus filhos. Não é uma questão de gênero; e, sim, de coração corrompido pelo pecado. Será que só os homens são dominadores, maléficos, opressores? E se Deus tivesse criado a mulher, primeiramente? A situação seria diferente? Certamente não. O mesmo aconteceria se Deus tivesse permitido que os filhos tivessem domínio sobre os pais. 

Enquanto a atitude das pessoas for a de ignorar os alertas e os princípios de Deus, ridicularizando-os, tornando-os periféricos, a relação entre os humanos perderá um importante aliado na causa do bem-estar familiar. Isso vale para os cristãos também! Em momento algum devemos nos excluir dessa exortação. Existe, sim, muito machismo, feminismo e rebeldia (por parte dos filhos), nos lares cristãos. Não é o título de nossa religião que nos torna melhores ou recomendáveis; mas, sim, o grau de compromisso que temos para com o Deus que amou o mundo de tal maneira que deu seu precioso Filho como pagamento de nossos pecados. Se realmente entregarmos nossas vidas para que Deus a conduza, não importará em que posição estivermos, ou a idade que teremos, pois nos tornaremos uma bênção! Quer seja como subordinados, quer seja como líderes, seremos uma bênção para nosso lar e ao mundo!   

 

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