Texto de Estudo

Gênesis 2:18:

18 E disse o SENHOR Deus: Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma ajudadora idônea para ele.

 

INTRODUÇÃO

Tanto no texto do Salmos 139:14-16 como no de Jeremias 1:5 o ser humano é colocado sob o ponto de vista arrebatadoramente significativo. Ponto de vista, aliás, que não costumamos olhar com frequência. O que há de tão arrebatador nestes textos é a ideia de que somos conhecidos antes de conhecer! Ou seja, antes mesmo de tomarmos ciência de que somos alguém e de que fazemos parte de contextos familiar e geográfico, já fazíamos sentido para outra pessoa. Fomos concebidos muito antes de nossos pais pensarem em nós; fomos concebidos por Deus, o Criador. 

Se assim compreendermos nossa origem e existência, logo entenderemos o propósito para o qual fomos criados. E saberemos que as complexas relações em que nos envolvemos, ao longo da vida, fazem parte de um todo maior. Um contexto que engloba passado, presente e futuro. Algo que, com certeza, não conseguimos dar conta, mas que deve nos induzir a uma atitude de humildade e de sede de conhecimento. Colocados sob esse pano de fundo, teremos a oportunidade de refletir, neste trimestre, sobre uma das matérias mais importantes para nós: a Família. É, pois, um assunto da mais alta importância, e não é difícil depararmo-nos com os mais variados subtemas que dele se originam. Todavia, atentaremos apenas para o conceito de que a família foi criada por Deus, tem um padrão e que, por isso, enfrenta desafios diante da sociedade que oferece certa resistência.  

 

UMA “PALAVRINHA” ANTES DE TUDO

Por um bom tempo, a ideia de família como criação de Deus gozou de prestígio, aceitabilidade e de defesa por parte das pessoas de uma forma geral. Mas, com as mudanças mais acentuadas que ocorrem desde 1960 até os nossos dias, esse conceito veio se apagando e tem sido combatido por aqueles que não simpatizam com a religião. Uma vez que a vida em sociedade passou a ser matéria de análises e estudos, muitas questões foram levantadas, como, por exemplo, a tensão gerada por nossas escolhas, seus limites e repercussões. O diálogo entre visão bíblica e o cenário da sociabilidade cotidiana torna-se cada vez mais tenso e, às vezes, mostra-se longe de caminhar de mãos dadas. A razão disso tudo é que a Bíblia vem sendo combatida. E há forte consenso de que ela deva ser banida do debate público, ou assumida por uma sociedade como regra de fé e prática. Porém, o alívio dessa tensão não depende da exclusão da Bíblia da arena pública! O grande gerador de conflito, no atual cenário da vida social, são as próprias pessoas que a compõem. Em cada uma há uma cabeça; e, em cada cabeça, uma sentença! Não são a visão cristã de família e a Bíblia como manual prático de fé os responsáveis pelos conflitos atuais. 

É preciso sempre afirmar que, se uma parte dos indivíduos de nossa sociedade assume uma visão bíblica de família, logo deve ser respeitado e ouvido como indivíduo livre que é. Assim, não deve ser tratado como um grupo que atrapalha o andar da carruagem. É preciso lembrar que os problemas familiares que, muitas vezes, saem do ambiente doméstico e refletem na sociedade, não têm como causa a perspectiva bíblica. Os princípios contidos na Bíblia, os quais visam e orientam um estilo de vida moderado, agregador e benéfico, estão lá. Mas nem todos os aplicam da mesma forma e intensidade . O fato de famílias cristãs estarem enquadradas em pesquisas que apontam para certos problemas da vida doméstica não desautoriza a Bíblia, ou põe por terra, sua mensagem. O que ela faz é mostrar o quanto o ser humano é frágil e precisa de ajuda. Antes de ser vista como inimiga, a Palavra de Deus deve ser encarada como importante aliada na causa das famílias, hoje em dia. 

 

POR QUE DEUS CRIOU A FAMÍLIA?

De acordo com nosso texto de estudo de hoje, Deus criou a família porque não era bom que Adão estivesse só. Mesmo vivendo em um momento existencial sem a presença, influência e frutos do pecado, o texto de Gênesis 2:20 aponta para algo de que Adão precisava. O contexto da narrativa informa que ele estava trabalhando; e seu ofício era nomear os animais que Deus trazia. É aí que entra o verso 20: “... todavia, não se achava uma auxiliadora que lhe fosse idônea”. 

Adão, possivelmente, refletiu sobre a maneira como aquelas várias espécies de animais estavam relacionadas e que havia o par. Logo percebeu que estava sozinho em relação à sua espécie. A necessidade de Adão era de alguém que fosse semelhante a ele e, ao mesmo tempo, diferente. O projeto inicial de Deus previa que aquele homem precisaria de uma parceira, de um par, pois está escrito: “Disse mais o Senhor Deus: Não é bom que o homem esteja só” (Gênesis 2:18).

O interessante desta narrativa é que, apesar de Deus já saber que não era bom que o homem estivesse só, ele deixou que Adão percebesse a falta de um par por si mesmo! O texto bíblico não apresenta uma fala de Adão, nem mesmo um suspiro de lamentação. Mas, se Deus considerava que a solidão não era boa, imagine o próprio Adão!  

Foi só por isso que Deus criou o casamento? Obviamente, não. Há também o fato da procriação, do engajamento no mandato cultural para tomar conta da terra que Deus havia criado (Gênesis 1:26-28) e o prazer sexual. Vale destacar que o casamento foi criado para que o ser humano pudesse desenvolver uma de suas capacidades mais espetaculares: a de amar, a de se relacionar! Como bem disse Elben César, ao abordar o amor como uma razão para o casamento: “Ainda nos casamos por causa do amor, que é o sentimento que predispõe duas pessoas do sexo oposto a se aproximarem e a permanecerem juntas. Segundo o dicionário técnico de Psicologia, amor é aquele sentimento ‘cuja característica dominante é a afeição e cuja finalidade é a associação...” . Essas outras razões ou necessidades podem ser encontradas em outras passagens bíblicas. Porém, não é nosso objetivo explorá-las. 

 

 

QUE ESTRUTURA O SENHOR DEU À FAMÍLIA?

Segundo a visão bíblica o casamento criado por Deus é heterossexual (entre um homem e uma mulher), monogâmico (somente com uma mulher) e estável (até que a morte separe). Tal estrutura vem sendo questionada, de forma cada vez mais intensa, nos últimos anos. A discussão se dá tanto no aspecto individual (opiniões privadas) quanto no coletivo. Este se destaca por levar o debate à esfera pública, exigindo inclusive que o Estado faça valer ou crie leis que concedam o direito de liberdade e igualdade àqueles que têm pensamento sobre ‘opção sexual’ e casamento divergente da sociedade em geral.

O pecado infectou a moral e a razão humana. A própria Bíblia traz casos desse desvio do que Deus havia planejado. O livro de Gênesis, que conta a origem da raça humana e de seus primeiros passos no mundo, não esconde os casos de poligamia (Gênesis 4:19), libertinagem nos relacionamentos (Gênesis 6:2), relações com pessoas do mesmo sexo (19:5), relação sexual entre filha e pai (19:30-38), estupro (34:2) e relação sexual entre enteado e madrasta (35:22). 

Observe como os textos voltados à área sexual são fartos. Isso revela o quanto o desejo sexual humano é importante. Assim, o diabo e os desejos da carne têm ali uma área promissora para desvios. Esses dados mostram, de forma realista, como o ser humano vem reescrevendo sua história. O apóstolo Paulo deixou isso bem claro em Romanos 1:18-32. De fato, a Bíblia defende, em seus princípios, uma estrutura de família ou casamento, que vai contra o parecer e a atitude de muitos, hoje em dia. Todavia, tal posicionamento não deve impor sobre a Palavra de Deus um rótulo de impositora e ferramenta de controle da opinião dominante. Ou seja, muitos alegam que a Bíblia deve ser banida da discussão por ter servido aos ideais dos machistas e dos radicais religiosos, maioria na sociedade. 

Entretanto, se sairmos da zona de confusão e dos discursos inflamados, poderemos nos perguntar: mas o que há de errado com o padrão estabelecido por Deus? Nada. Não há erro no padrão inventado por Deus. O problema não está na estrutura homem  mulher, pai mãe filhos. O equívoco está no ser humano em si, independentemente de sua classe social, cor ou raça. Nós, humanos, somos muito complicados, e relacionar-se com outra pessoa - cônjuge, filhos, amigos, parentes - não é tão fácil como escrever nossos nomes depois de alfabetizados. Relacionar-se exige conhecer mais sobre si mesmo, conhecer a outra pessoa e conhecer a Deus. Esse conhecimento vem de um aprendizado constante e exige investimento de tempo e interesse. Nunca há uma medida satisfatória; o que é satisfatório é aprender sempre. Assim, erraremos menos e amadurecemos mais. 

Se as famílias buscarem viver sob os padrões de Deus, não teremos uma sociedade doente. Obviamente que não resolveremos todas as mazelas domésticas e sociais; afinal, isso depende das escolhas de cada um. Contudo, sabemos que, se estivermos mais comprometidos com valores como compaixão, compreensão, empatia e paciência, nossos lares e a sociedade terão sempre motivo de ter esperança e de glorificar a Deus por meio de nossa boa conduta. 

 

 

 

A POSTURA DAS FAMÍLIAS CRISTÃS FRENTE AOS DESAFIOS DE HOJE

O principal comportamento que as famílias devem tomar é de não pedir desculpa por viverem o padrão de Deus. Assim como as minorias que discordam do padrão divino cobram tolerância, respeito, cidadania, as famílias cristãs podem e devem fazer o mesmo. As regras valem para todos. Se, por um lado, é verdade que algumas famílias da sociedade brasileira (que, em outras décadas, dizia-se conservadora e preocupava-se em se identificar como cristãs) falharam em seguir os padrões divinos, também é pertinente que muitas acertaram. Não podemos ser injustos, pois o passado é pintado, inúmeras vezes, com cores feias. É moda dizer que os pais de hoje ouvem mais os filhos, ou que os filhos têm mais voz. Logo, acredita-se que isso não acontecia outrora. Óbvio que havia diferenças contrastantes entre o nosso tempo e os passados quando o assunto é relacionamento familiar. Por exemplo, o simples fato de a maioria da população brasileira morar na zona rural até 1960  já se mostra um fator fortíssimo que contribui para as diferenças. O pouco acesso à educação e a forma unilateral de ver a masculinidade, a feminilidade e seu papel em casa e na sociedade adiou bastante os assuntos familiares que, hoje, discutimos. Isso não quer dizer que a população, ao se tornar mais urbana, é melhor que a anterior. Não precisamos ver tudo como uma questão de qualidade; mas, sim, de oportunidade. Tudo isso revela apenas as dificuldades naturais surgidas diante de mudanças rápidas e de grandes proporções. 

Outro posicionamento que as famílias cristãs devem tomar é buscar se atualizar sem ter de colocar de lado a fé. Ou seja, devemos conhecer mais profundamente a Bíblia e os dilemas familiares que ela apresenta. Precisamos conhecer mais a realidade à volta. Significa que devemos abrir uma porta de conversa com o mundo, por mais desafiador que nos pareça. Além de falar, também devemos adquirir a desejável qualidade de saber ouvir; só assim aplicaremos a Palavra de Deus de forma mais precisa. Contudo, muitos vêm entendendo errado essa ‘fala’ e essa ‘escuta’. Alguns cristãos acham que o simples fato de ouvir mais de perto os desabafos ou argumentos dos divorciados, homossexuais, poligâmicos e amasiados é sinônimo de ser liberal ou de cometer uma fraqueza na fé. 

Não há dúvida de que a luta por direito de adoção pelos casais homossexuais e a iniciativa de pais/mães solteiros optarem por fertilização em laboratório como saída para constituir uma família  vêm trazendo grandes mudanças e, por conseguinte, inúmeras discussões. Isso mexe com o pensamento e o valor das pessoas. Por isso, é inevitável que discordâncias aconteçam. Um dos efeitos colaterais de se articular mudanças é o de se apressar em taxar como ruim tudo aquilo que se quer deixar para trás. E é aqui que está o “x” da questão. Muitos querem abandonar os princípios divinos em nome de um suposto progresso! Ou seja, acham que a Bíblia é ultrapassada. Que progressos as famílias contemporâneas vem experimentando pelo simples fato de deixarem os princípios bíblicos de lado? Se a visão cristã é fator que atrapalha, por que as sociedades que não a adotam têm problemas familiares tanto quanto as famílias cristãs? 

 É válido darmos mais atenção ao texto de Atos dos Apóstolos 13:36 no qual encontramos: “Por que, na verdade, tendo Davi servido à sua própria geração,...”. Você percebeu? Davi foi um homem de seu tempo. Assim como Abraão, Moisés e Daniel. Todos viveram em tempos diferentes; o mundo à volta de cada um não foi o mesmo e teve suas particularidades. Mesmo assim, os três viveram pela fé que um dia lhes foi revelada! Nós somos os cristãos de nosso tempo, uma época desafiadora à família. Eis um tempo em que ainda podemos adotar o padrão de Deus como modelo a ser seguido. 

 

CONCLUSÃO

Muito se tem falado sobre o perfil da nossa atual sociedade, e algo mencionado com frequência é o relativismo. Ou seja, não há um padrão absoluto a reger a vida das pessoas, ainda mais com o passar dos anos. Cada sociedade e cada pessoa dentro de si têm de buscar o próprio caminho. 

Já conhecemos o suficiente da História da humanidade para saber aonde isso leva: frustração, desorientação, culpa, desgastes emocionais, perda de identidade, preconceitos, guerras etc. Como viveremos em tempos assim? Primeiramente devemos nos apresentar como opção viável para, depois, identificarmo-nos como padrão inalterável. Talvez você não goste disso, não é? Soa tão fraco... Quer dizer, nós, os cristãos, devemos fazer “barulho”, devemos fazer com que o mundo nos ouça. Sem dúvida, a voz do Evangelho deve soar aos quatro cantos. Mas pense: se a sociedade brasileira está se aculturando a um mercado religioso variado, com muitas opções, poderemos fazer desse limão uma limonada; ou não? Claro que sim! Se, em vez de forçarmos a entrada nos lares alheios, atrairmos as outras famílias para o nosso lar, os resultados possivelmente serão outros. 

No entanto, há problema nisso tudo... Não são apenas as outras famílias que devem mudar, mas nós também. Por isso, é necessário vivermos em Deus e para Deus. Vamos ser fiéis ao nosso chamado, nossa vocação: sermos sal e luz! 

A vida da família cristã, quando está saudável, funciona como um poderoso ímã; não somente atrai pelo exercício da compaixão e do amor, mas se torna contagiante. Não somos as únicas famílias no acostamento de uma pequena estrada; na verdade, somos mais uma às margens de uma rodovia movimentadíssima. Por um lado, isso nos traz o sentimento de impotência; mas, por outro, pode nos levar ao aperfeiçoamento e ao crescimento da vida na fé. Uma vez que estejamos mais preparados, ganharemos a chance de ficar por mais tempo na luta pelas famílias. Da mesma forma, com as famílias lutando pela Igreja de Cristo.  

 

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