Texto de Estudo

Isaías 6:8:

8 Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim.

INTRODUÇÃO

Nossa série de estudos deste trimestre ergue-se com uma proposta ousada: rastrear, num livro bem mais antigo que os próprios “evangelhos”, a essência e a proposta do próprio Evangelho! Parece algo contraditório, não é? No mínimo, retrógrado. Contudo, quando você estuda o livro de Isaías, encontra assuntos, como pecado (1:4), convite ao arrependimento (1:18-20), proclamação das boas-novas (40:9), chamado para servir como luz às nações (Isaías 49:6), mediador que sofre e substitui (53), graça (55:5-13), julgamento das nações (10, 13, 14 – 24) e a restauração de todas as coisas (60 – 66). 

Sendo assim, pode-se perceber que a unidade entre o livro de Isaías e a proclamação do Evangelho, como consta nos registros do Novo Testamento, não se dá cronológica; e, sim, tematicamente. Na primeira lição, iremos analisar, pois, quem foi Isaías e como aconteceu o dramático chamado de Deus em sua vida. 

A PESSOA DE ISAÍAS

Isaías foi o profeta levantado por Deus para denunciar os pecados do povo de Judá. Como consta no capítulo 1, verso 1, de seu livro, teve um exercício profético longo, abarcando o reinado de quatro reis (Cf. 1.1). Porém, vale lembrar que ele não era o único em exercício. Miquéias também desenvolveu atividade profética na mesma época. Várias vozes proféticas vinham ecoando contra as tribos de Israel. Amós e Oséias, que profetizaram antes de Isaías, dirigiram-se as tribos do norte da nação de Israel, enquanto Miquéias e Isaías concentraram-se no sul do país. O foco mais restrito de Isaías foi a capital do reino do sul, Jerusalém.  

Seu nome, em hebraico, é Yesha’yahü, ou seja, ‘Iahweh é salvação’  (“O Senhor é salvação”). Trata-se de um nome bem sugestivo diante da mensagem que levaria ao povo! Seu pai chamava-se Amoz (Isaías 1:1; mas não confundir com aquele que também fora profeta) e residia em Jerusalém (7:1-3). Foi casado, e a informação mais objetiva que se tem sobre sua esposa é o codinome de ‘profetisa’ (8:3). A união resultou em dois filhos com nomes simbólicos: Shearjashub (um resto voltará; 7:3) e Maher-shalal-hash-baz (rápido-despojo-presa-segura; 8:1-4). O Senhor Deus usaria tais designações para repreender o povo, sendo uma verdadeira pregação ilustrada e ‘ao vivo’. 

A tradição dos rabinos aponta para o fato de que Isaías seria descendente de um rei . E também fora serrado ao meio. Alguns deduziram isso com base no texto de Hebreus 11:37; entretanto, tudo não passa de especulação . 

O CHAMADO DE ISAÍAS

Examinemos o capítulo 6 mais de perto e entendamos como a visão da majestade e da santidade do Senhor impactou a vida pessoal de Isaías. 

O que viu? Ele viu um alto e sublime trono, o qual lhe diria muita mais coisa que o trono terrestre do falecido rei Uzias, já acostumado a ver. A biografia de Uzias praticamente esteve sob tutela de Isaías (Cf. 2 Crônicas 26:22). Durante seu exercício profético, Isaías acostumara-s ao salão real. Assim, presenciou reis subirem e descerem do trono de Judá, na capital Jerusalém. Porém, nenhuma cerimônia de coroação comparava-se ao que viu no trono de Deus. 

Todavia, antes de entramos nos detalhes da visão do trono de Deus é muito importante comparar a pequena informação contida no início da primeira linha de Isaías 6:1: “No ano da morte do rei Uzias”, com 2 Crônicas 26:1-23

O texto de Crônicas registra com detalhes como foi a reinado de Uzias, também chamado de Azarias, 2 Reis 15 Enquanto esteve fiel ao Senhor, ele obteve êxito como estrategista em guerras (fabricou armas), atuou como construtor (urbanista) e deu ao exército de Judá um aparato sem igual. Sob seu reinado, Judá prosperou, progrediu. Infelizmente, foi em meio a tanta prosperidade que Judá deixou de ser fiel ao Senhor. A proporção da riqueza do país e dos cidadãos não era a mesma no que dizia respeito à condição espiritual e à moral. Como bem coloca Warren Wiersbe, “O crescimento econômico e a paz temporária eram como um verniz, efêmero, que cobria o coração perverso da nação. O que aconteceria a Judá?” . É exatamente nessa situação espiritual que Deus deu a visão a Isaías, e o que ele viu?

Ele viu um Deus que ainda governava seu povo. Uzias não estava mais no trono, e o povo amargava mais um triste capítulo da História dos reis de Judá. Apesar de ter começado muito bem, terminou mal, morrendo leproso e distante dos caminhos do Senhor. Mas, na visão de Isaías, a história era outra. O Senhor reina insubstituível, inabalável. O coro da adoração na sala do trono era conduzido por seres celestiais, os serafins. Para Isaías, estes formavam uma mistura de seres humanos e animais, voando sobre o trono. Tinham o aspecto típico de seres que habitam o mundo sobrenatural. Tão vigoroso era o clamor dessas criaturas que as bases do limiar do templo moveram-se. A santidade do Senhor foi o atributo destacado por excelência pelos serafins.

Não há outro igual ao Senhor! Sem sombra de dúvida, Isaías fez algumas visitas ao templo edificado na Terra. Lá também havia fumaça nos serviços de adoração. Porém, nada se comparava ao que seus olhos viram ali. Tamanho foi o impacto da visão no ‘porão’ de sua alma que ele não resistiu e temeu pela própria vida. Vejamos mais sobre isso.

O que ele sentiu? Isaías sentiu temor e disse: “Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos” (v.5). Desnecessário é explicar o teor de tais palavras. Trêmulo, Isaías entendeu que nem ele, tampouco o povo poderiam resistir diante de tamanha glória e santidade. 

Interessante entendermos que, ao mesmo tempo em que a visão do Deus tremendo em seu trono pode transmitir seguranças e esperança, também transmite temor! Exposto àquela junção de soberania, glória e santidade, Isaías reconheceu sua impureza o trauma do Éden havia deixado marcas profundas. Diante de um Deus tão Santo, o pecador não pode ficar de pé! Depois de sua confissão, um dos serafins veio ao encontro de Isaías e tocou em sua boca com uma brasa que retirara do altar. Interessante notar que Deus conduz seu governo do templo; e, não, de um palácio real. Com resultado, afirmou o serafim: “a tua iniquidade foi tirada, e perdoado o teu pecado” (v.7). 

Que decisão ele tomou? Sua decisão foi a de ser profeta de Deus a um povo rebelde. Antes disso, porém, ele saiu do centro da cena. O foco foi para a voz do Senhor dos Exércitos, aquele que é Santo, Santo e Santo: “A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” (v.8). O Senhor poderia simplesmente escolher alguém, ou um ser celestial e pronto! Poderia ter usado um dos serafins. Porém, não só aqui, como em outras passagens bíblicas, ele esperou o comprometimento do ser humano, que criou à sua imagem e semelhança. O “comum acordo” faz parte da estrutura de aliança que Deus fez com o povo.

Esses tipos de questões levantadas por Deus, dando um ar de ignorância , reforça mais ainda as fortes características literárias contidas na Bíblia. Neste caso, a pergunta que o Senhor levantou acrescenta uma dose de drama . Quem duvidaria que a situação, naquele momento, não fosse tensa?! O povo de Judá e Jerusalém havia se desviado. O primeiro capítulo de Isaías descreve o povo como um corpo doente, cheio de feridas, mas também como animal teimoso e rebelde que não quer ouvir o dono. Deus precisava trazer o povo de volta às veredas antigas (Cf. Jeremias 6:16). Então, Isaías prontificou-se: “Eis me aqui, envia-me a mim” (v.8). O que aconteceu no espaço de tempo entre o Isaías incapacitado e o corajoso foram perdão, graça derramada e capacitação vinda de Deus! Uma vez que fora purificado, Isaías estava pronto para a missão.

Se parássemos por aqui, seria perfeito; não é mesmo? Entretanto, havia algo que o profeta precisava saber de antemão: sua pregação não seria aceita! Pelo menos não pela maioria. Sabemos que sempre houve um remanescente que acatava as palavras do Senhor. E por que a maioria não aceitaria? Isaías traria uma mensagem de juízo; ele recebeu a “...comissão de pronunciar os juízos de Deus sobre um povo que se tornou como os ídolos que adora: um povo que não consegue ver nem ouvir” . A pregação de Isaías, portanto, seria um contra fluxo à prosperidade material e à expectativa do povo (3:16-26). Deus disse-lhe que a principal razão para a recusa do povo em ouvir e ver seria o coração insensível (v.10). 

Os versos 9 e 10 deixam o leitor atual da Bíblia com uma dúvida. Se a intenção de Deus era que o povo se arrependesse, então por que a mensagem que colocou na boca de Isaías não atendeu a esse objetivo? Por que, em vez de quebrantar, endureceu o coração do povo? Como entender isso? Há certa expressão que, neste caso, faz muito sentido: ‘O mesmo sol que derrete o gelo endurece o barro’. Assim como no caso do Faraó, diante das nove pragas , a mensagem de Deus sempre cumprirá seu duplo desígnio: quebrantar ou endurecer dependerá do estado do coração de quem ouve. Isso parece colocar Deus numa situação de impotência, mas não tem de haver com isso. Deus é soberano, e tal soberania harmoniza-se com a capacidade de resposta do ser humano de uma forma que jamais poderemos compreender profundamente. É um mistério para nós. Deus, então, deixa claro para Isaías que o povo resistiria à sua mensagem. 

Com uma previsão negativa de êxito como essa, Isaías reagiu com um pergunta: “Até quando, Senhor?” (v.11). A resposta dada, nos versos 11 a 12, apontou para os dois cativeiros a que, futuramente, estariam sujeitos Israel e Judá. Ou seja, o povo estaria endurecido, até que assírios e babilônios levassem o povo de sua terra. Ficariam apenas alguns poucos (v.13) pobres agricultores, sem posses, sem sonhos, e que representassem alguma ameaça à Babilônia. A trágica profecia não se encerrou sem um lampejo de esperança. A promessa de restauração veio vestida de uma simbologia; o que sobraria da cidade seria como um tronco cortado quase rente ao chão que, depois de um tempo, voltou a brotar. 

Ou também poderia significar o que Russel Champlim explicou: 

“... o terebinto (ou carvalho) deixava cair suas folhas no outono e, assim, parecia morto. Na primavera, porém, haveria vida nova na árvore, aparentemente, morta. Em outras palavras, Judá, quase destruída, teria essa condição revertida pelo retorno do remanescente, que faria a obra de reconstrução. E a santa semente (o remanescente purificado) tornar-se-ia de novo uma nação. Alguns estudiosos cristianizam o versículo, vendo o Messias como a Santa Semente”  .

CONCLUSÃO

O chamado e a missão de Isaías ligam-se ao nosso chamado e à nossa missão. O contexto mudou, mas a tônica parece a mesma. O cenário da vida em nossa sociedade revela que, ao mesmo tempo em que ainda há índices de crescimento por parte de pessoas que sentem necessidade de Deus, também existe crescimento das que não sentem tanta necessidade de nutrir um relacionamento com Deus. Parte disso deriva da inversão de prioridades. Não é que crer em Deus não seja importante, mas alcançar um patamar de comodidade, aqui e agora, é mais ainda. 

Outra parte deriva do fato de que a mensagem divina é incômoda. A qualidade do estilo de vida que muitos adotaram não comportava uma mensagem de denúncia aos pecados. Aliás, “pecado” é uma palavra que não está mais em voga, caindo em desuso, mostrando-se obsoleto. O maior pecado de nossa geração é ter perdido, totalmente, o senso de pecado. Removidos os fundamentos, o que poderá fazer o justo? (Salmos 11)

Diante de tal cenário, quem não se sente impotente? É por isso que Deus capacita os que chama. A misericórdia, a bondade e a graça divina sempre acompanham o comissionado. Talvez você esteja se perguntando se não seria mais fácil que todos tivessem sido expostos a uma visão sobrenatural, como a de Isaías. No Novo Testamento, Paulo relatou uma visão. Mas, de forma geral, parece que a Igreja crescia conforme o mover do Espírito e não teve como regra êxtases e visões. 

Se os servos de Deus querem ver a santidade hoje, então devem se santificar. A Igreja é santificada pela Palavra e pela obediência; logo, a Santidade divina é visível também na Terra. Assim, onde estiver o seu fiel povo ali o Senhor estará! 

 

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