Apocalipse 20:6:

6 Bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre estes não tem poder a segunda morte; mas serão sacerdotes de Deus e de Cristo, e reinarão com ele mil anos.

 

INTRODUÇÃO

Depois de relatar a destruição dos agentes de Satanás (a besta e o anticristo Ap.19), João passa a contar os acontecimentos que culminarão na derrota do diabo. Abordando o texto de uma forma literal, notamos que isso se dá em três etapas.

Primeiramente, Satanás é amarrado e preso no abismo, ocorre a primeira ressurreição, e os santos ressurretos encontram-se com Cristo no seu reino messiânico de mil anos. A segunda etapa dá-se após os mil anos, quando Satanás é solto da prisão e verifica que o coração dos homens ainda está aberto à sua sedução. Ele, então, engana-os de novo e reúne-os para uma segunda batalha contra Cristo. Depois da sua derrota, é jogado no lago de fogo, no qual já se encontram a besta e o falso profeta. Por fim, presumivelmente, segue a segunda ressurreição, porque encontramos os mortos diante do trono de Deus para o julgamento final. Os perversos são lançados no lago de fogo, e os justos entram na bem-aventurança final, no novo céu e na nova Terra. 

Narrar os fatos do capítulo 20 de Apocalipse não é muito difícil. A tarefa árdua é compreendê-los. Mesmo assim, neste intento, procuraremos explanar um pouco os caminhos propostos pelo texto, apresentando as três formas de interpretação possíveis. 

 

INTERPRETAÇÃO PRÉ-MILENISTA

Na visão pré-milenista, Cristo voltará antes do milênio. Adimite-se, então, que o capítulo 20 é totalmente escatológico. Assim sendo, quando Cristo voltar, Satanás será amarrado, os santos ressurgirão e, juntos de Cristo, reinarão na Terra, num reino temporal. Esse reino milenar terminará com uma rebelião, vindo depois o julgamento final. Uma variante do pré-milenismo é o dispensacionalismo, que encara o reino milenar principalmente do ponto de vista das promessas teocráticas de Deus a Israel.  A figura abaixo descreve, de forma interativa, tal visão.

 

 

Alguns pré-milenistas creem que o arrebatamento não será antes, mas no meio ou no fim da “Grande Tribulação” (meso-tribulacionistas, pós-tribulacionistas). Mas todos acreditam que Cristo voltará antes do milênio.

Essa linha de interpretação acredita no cumprimento futurista literal de todas as profecias apocalípticas. Ou seja, nenhuma refere-se à Igreja ou ao nosso tempo. Tudo se cumprirá após o arrebatamento. Existirá, no futuro, um reino literal de mil anos de Cristo, na Terra (Apocalipse 20:6). Ele reinará, pessoalmente, aqui, com seus santos. Jerusalém será a capital (Apocalipse 21:2). A “Era da Igreja” é uma espécie de “parêntese” nos planos de Deus com Israel, que continua sendo o povo escolhido do Senhor. Com a rejeição do Messias, Deus interrompeu momentaneamente seu tratamento com Israel e irá retomá-lo após o arrebatamento da Igreja, restaurando o templo e reavivando sua aliança com o povo. Depois do Milênio, Satanás será solto por um curto período de tempo. Iniciará uma apostasia e uma rebelião contra Jerusalém e o governo divino. Cristo, então, irá vencê-lo definitivamente. Destruirá para sempre a trindade satânica e julgará os perdidos (Apocalipse 20:13:15). Sendo assim, os pré-milenistas acreditam em duas ressurreições, uma no início do milênio (para os salvos) e outra após esse período (para os condenados).

Sobre essa interpretação, apresentam-se algumas críticas:

a)O ensino de que Deus tem um propósito separado para Israel e outro para a Igreja é duvidoso. O Novo Testamento, frequentemente, interpreta expressões relacionadas com Israel de um modo a aplicá-las à Igreja do Novo Testamento, que inclui tanto judeus como gentios, e mostra que a Igreja (sem separação) é o Israel de Deus. (Gálatas 3:26-29; Efésios 2:11-13; Apocalipse 5:9). 

b)A Bíblia não fala de duas ressurreições em tempos distintos. Paulo, escrevendo aos Tessalonicenses, nas duas epístolas, trata a questão da ressurreição. Preambularmente, afirma que os salvos em Cristo ressuscitarão primeiro e subirão junto dos que serão arrebatados vivos (1 Tessalonicenses 4:16-17). Jesus, naquele mesmo dia, retribuirá a justa medida aos incrédulos. (2 Tessalonicenses 1:6-10). A parábola dos talentos, contada pelo próprio Cristo, coloca o acerto de contas, tanto para os bons servos quanto para os maus, em um mesmo dia. (Mateus 25:19

c)O estabelecimento de uma Nova Jerusalém aqui, nesta Terra, é incoerente. Ao despedir-se de seus discípulos, Jesus disse: “Na casa de meu Pai há muitas moradas... vou preparar-vos lugar... voltarei e vos recebereis para mim mesmo, para que onde eu estou estejais vós também” (João 14:2-3). Pedro afirmou que “os céus que agora existem e a Terra têm sido entesourados para o fogo” (2 Pedro 3:7). E João relata que viu “novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe.” (Apocalipse 21:1)

   

INTERPRETAÇÃO PÓS-MILENISTA

Esta linha de interpretação crê que a maioria das profecias apocalípticas já se cumpriram, principalmente durante o Império Romano (interpretação historicista), e que outras são apenas simbólicas e não escatológicas. Para os pós-milenistas, o Reino de Deus é espiritual; e, não, geográfico, ou seja, ele já está sendo estabelecido em nosso coração. Assim, defende que a Igreja deve introduzir o reino milenar, uma era de paz e justiça sobre a Terra. A meta é reformar o sistema político deste mundo, pois a Bíblia, e tão somente ela, deve ser a regra de fé e prática para todos os governos (Salmos 2:10-11,119:160). Sendo assim, um governo teocrático, e não democrático, é o alvo desse pensamento. O pós-milenistas entendem que o milênio será um período real na Terra, mas não necessariamente com a duração de mil anos. O número mil é simbólico (2 Pedro 3:8). Será um reinado mais espiritual do que político. Cristo reinará, mas estará no céu, no Trono de Davi. De uma forma geral, os pós-milenistas são otimistas e acreditam que a Terra caminha para uma restauração pacífica. Veja, a seguir, uma ilustração da visão pós-milenistas.

 

Quanto a essa interpretação, apresentam-se algumas críticas:

a)O mundo não está ficando melhor. Na verdade, o mundo está piorando. Nenhum estudioso de História ou de sociedade moderna afirmará que a humanidade progrediu muito, ao longo deste século, na luta contra a perversidade e imoralidade que permanece no coração das pessoas.  Logo, não parece que caminhamos para uma era de paz neste mundo.

b)Os cristãos nunca serão a maioria. Jesus disse que são poucos que acertam a porta estreita, enquanto a maioria simpatiza com o caminho largo. (Mateus 7:13-14). E também afirma: “...quando vier o filho do homem, achará, porventura, fé na terra?” (Lucas 18:8). 

c)Por que precisamos de um Reino Messiânico, estabelecido literalmente, se podemos gozar de paz na Terra? Não há necessidade de Cristo levar-nos a Nova Jerusalém, se pudermos gozar de paz neste mundo, sem a presença real de Jesus em nosso meio.

 

 

INTERPRETAÇÃO AMILENISTA

Segundo esta posição, a passagem de Apocalipse 20:1-10 descreve a presente era da igreja. A prisão de Satanás significa um período em que sua influência sobre as nações sofre grande redução, de modo que o Evangelho pode ser pregado por todo o mundo. Tal visão defende que Satanás fora preso na primeira vinda de Cristo (Mateus 12:28-29). A presente era, entre a primeira e a segunda vinda de Jesus, portanto, é o cumprimento simbólico do milênio. Alguns amilenistas divergem dessa posição, entendendo que o milênio simbólico consiste no reinado de todos os crentes que já morreram e estão com Cristo, no céu. 

Para os amilenistas, os judeus, depois que rejeitaram Cristo como Messias, deixaram de ser o povo de Deus. A partir de então, a Igreja tomou o lugar do Israel político, tornando-se o único povo que Deus tem na face da Terra (Efésios 2:11-22; Gálatas 3:14 Romanos 10:12). Acreditam também que a segunda vinda de Cristo será um evento único (Mateus 24:27) e, quando ele voltar, o fim do mundo acontecerá com a ressurreição geral e o julgamento de todas as pessoas (Apocalipse 20). O pensamento amilenista concorda que tanto o bem quanto o mal aumentarão na Terra, com o Reino de Deus coexistindo, paralelamente, ao de Satanás. Por isso, não é possível obter uma sociedade perfeita enquanto o mundo estiver sem a consumação da redenção. A figura ilustra a visão amilenista.

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Analisando essa interpretação, apresentam-se algumas críticas:

a)A prisão de Satanás, descrita em Mateus 12:28-29 e em Lucas 10:18 não parece ser a mesma de Apocalipse 20 O texto de Apocalipse diz que o anjo que desceu do céu “lançou-o no abismo, fechou-o e pôs selo sobre ele, para que não enganasse mais as nações, até se complementarem os mil anos”. Se Satanás foi “amarrado” durante o ministério de Cristo, por que Paulo disse “a nossa luta não é contra a carne e o sangue; e, sim, contra os principados e potestades... contra forças espirituais do mal, nas regiões celstias”? (Efésios 6:12)

b)Como afirmar que há apenas uma ressurreição se o texto de Apocalipse cita “primeira ressureição”? Se não houvesse uma ressurreição posterior, João não teria dito: “Esta é a primeira ressurreição” (Apocalipse 20:6). E o texto coloca o milênio entre a primeira ressurreição e o julgamento final, quando os mortos serão julgados.

 

CONSIDERAÇÕES SOBRE O TEXTO

Sem dúvida alguma, o capítulo 20 de Apocalipse é o mais polêmico de todo o livro. Não há consenso algum entre os estudiosos. Como vimos anteriormente, há pelo menos três maneiras de se interpretar esse trecho. Embora tenhamos apresentado críticas a cada linha de pensamento, cada qual tem critérios bíblicos favoráveis à sua concordância, o que as coloca em posição de aceitação. Todavia, algumas considerações importantes precisam ser feitas em relação ao texto.

A prisão de Satanás (vs 1-3): Não há como interpretar o trecho em estudo senão de forma simbólica. Um espírito não pode ser amarrado com corrente. “Prendeu”, “fechou” e “selou” são termos que denotam a limitação do seu poder. Satanás só pode ir até onde Deus permite (Jó 1:12; 2:6). Isso significa que a sua autoridade e seu poder foram restringidos. Ele não pode mais enganar as nações. A evangelização dos povos foi ordenada, e Deus vai chamar o seu povo! A prisão de Satanás não significa que esteja inativo, mas limitado.  Se Deus não tivesse limitado seu poder, toda a raça humana já haveria perecido. Não podemos esquecer que o Diabo é um ser angelical, e esses seres são revestidos de poder, o suficiente para destruir a humanidade. (Gênesis 19:12-13; 1 Crônicas 21:15).

Mil anos (v2-7): Ocorre seis vezes no capítulo e em nenhum outro lugar, em toda a doutrina escatológica do Novo Testamento. Em seu discurso escatológico (Mateus 24), Jesus nada diz acerca de um reino de mil anos com os santos sobre a Terra. Em suas respectivas epístolas, Paulo e Pedro não fazem nenhuma menção de um reino interino milenial de Cristo na Terra!  Em 1Tessalonicenses 4:17b, Paulo afirma: “estaremos para sempre com o senhor”. Por isso, um reinado literal de apenas mil anos com Jesus não combina com a visão escatológica da Bíblia.

A primeira ressurreição (vs.4-6): A primeira ressurreição refere-se ao fato de que os salvos em Cristo ressuscitarão primeiramente. Isso endossa o que Paulo disse aos tessalonicenses: “Porquanto o Senhor mesmo, dada a sua palavra, ouvida a voz do arcanjo, e ressoada a trombeta de Deus, descerá dos céus, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro; depois nós, os vivos que ficarmos, seremos arrebatados juntamente a eles, entre nuvens para o encontro do Senhor nos ares” (1 Tessalonicenses 4:16-17, grifo nosso). Portanto, não há duas ressurreições, mas uma única, tanto para salvos como aos que serão condenados. A diferença é que “os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro”, e os salvos que estiverem vivos serão arrebatados juntamente dos salvos ressuscitados.

Satanás é solto e derrotado (vs 7-10): Após ser solto, Satanás procura unir forças com as nações. Gogue e Magogue são nomes bíblicos para as nações que se rebelam contra Deus, sendo hostis a seu povo. Em Ezequiel 38:1 Gogue é o príncipe da terra de Magogue, vindo do norte, nos últimos dias, para lutar com o povo de Deus. No Apocalipse, as duas palavras representam as nações hostis.  Notemos que o texto diz que Satanás “sairá a seduzir as nações que há nos quatro cantos da Terra”. Ele já não conta mais com a besta e o falso profeta para oprimir os moradores da Terra; então, passa a seduzir as nações a fim de encontrar aliados para opor-se a Deus. Isso combina muito bem com os dias em que vivemos, pois o Diabo já não usa mais a opressão como arma, mas a sedução. Mesmo que ele consiga muitos aliados (“como a areia do mar”), sua derrota será certa e instantânea (v.9).

O juízo de Deus (vs 11-15): Esse trecho do capítulo endossa o julgamento descrito por Jesus, em Mateus 25:31-46. Vejamos os paralelos usando uma tabela.

 

Mateus 25APOCALIPSE 20

Jesus assenta-se no trono para julgar (v.31)João vê um trono branco e Jesus assentado nele (v.11)

Todas as nações são reunidas na presença de Jesus para o julgamento. (v.32)João vê todos os mortos, grandes e pequenos, diante do trono para serem julgados. (v.12)

Jesus julga os homens por todas as suas obras (v.35-40)Cada um foi julgado segundo as suas obras. (v.13)

Os ímpios são lançados para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos (v.41)Os condenados foram lançados dentro do lago de fogo (v.15)

 

CONCLUSÃO

Definir, com exatidão, as visões de Apocalipse 20 é algo impossível. Enquanto o tempo, e somente ele, não revela aos homens a conclusão dos fatos narrados, tudo o que fazemos é especular as revelações descritas por João. Certamente, nem tudo no texto é obscuro. Nele percebemos: a certeza da volta de Jesus; ele é a única e verdadeira paz, seja no presente mundo e ainda mais na redenção; Satanás sempre estará sob a autoridade de Deus; e, por fim, sabemos que todos compareceremos diante do tribunal de Deus para recebermos a nossa recompensa.

 

 

 

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