Texto de Estudo

Apocalipse 15:1:

1 E VI outro grande e admirável sinal no céu: sete anjos, que tinham as sete últimas pragas; porque nelas é consumada a ira de Deus.

 

 

INTRODUÇÃO

Agora estamos nos deparando com a última série de juízos no livro de Apocalipse. Em comparação com as duas primeiras séries, os sete selos e as sete trombetas, é bem certo que há uma identificação direta da visão das sete taças com a das trombetas.

 A semelhança das taças com as trombetas é impressionante! Mas também as diferenças são marcantes; e, provavelmente, são elas que mantêm o pensamento do visionário João em desenvolvimento. É isso que nos interessa aqui; perceber como se dá o progresso do pensamento de João numa espécie de recapitulação da visão das trombetas.

Não é simples tarefa compreender como João escreveu e estruturou a mensagem de Apocalipse. Há muitas propostas de estrutura para este livro, e nosso texto constitui um elemento que desequilibra sua compreensão estrutural. Quando se fala em uma estrutura a respeito de um livro, pensa-se nas unidades principais, como capítulos de um livro qualquer, ou atos de uma peça teatral. Os capítulos geralmente têm o argumento fundamentado nele mesmo. Não parece ser o que ocorre com a divisão de capítulos apresentada no Apocalipse. 

 

A MEDITAÇÃO DOS JUÍZOS – 15:1-4

Em geral, Apocalipse é estruturado em sete grandes visões. O problema é que, dentro de cada, é comum haver sete pequenas visões indicadas pela expressão “vi”, que indica uma mudança de perspectiva. No caso especifico do nosso texto, o problema encontra-se em 15:1-4, que mostra duas vezes o “vi” (15:1 e 15:2). Essas duas ocorrências seriam, respectivamente, a sexta e sétima pequena visão dentro do bloco da quarta grande visão, que começa em 12:1 e deve chegar até 15:4. Mas, por que finalizar uma das grandes visões com elementos que só atuarão na próxima grande visão? 

No verso 1, João diz que viu sete anjos com os sete últimos flagelos, com os quais se completa a ira de Deus. Sua avaliação sobre a visão dos anjos e as taças é de que isso é um grande e maravilhoso sinal. À medida que os eventos vão se desenrolando diante do apóstolo, parece haver uma intensificação tanto quantitativa como qualitativa. A essa visão, João qualifica-a de “grande e maravilhosa’, e essa peculiaridade tornar-se-á cada vez mais evidente no derramar das taças. 

As taças são identificadas como os sete últimos juízos de Deus. Para McDowell, não se deve interpretá-las como eventos escatológicos que, no caso, por serem os últimos, culminariam com a Vinda de Cristo e o juízo final. Para ele, os eventos não devem ser tomados como sobrenaturais. Isso também significa que o completar da ira de Deus é a consumação do juízo ministrado por Deus contra o Império Romano e seu posicionamento anti-Deus.  Uma opinião diferente sobre o estado escatológico das taças tem Albert Pohl. Para este, as taças são os últimos eventos que marcam o fim. 

Na verdade, o evento das taças estão reservados somente para os tempos do fim, enquanto os selos e as trombetas perpassam todo o período escatológico.  Contudo, as taças não trazem elementos únicos e exclusivos aos tempos do fim; antes intensificam e ampliam aqueles presentes nos selos. E, por sua relação direta, em especial as trombetas. 

No verso 2, o elemento “mar de vidro” reaparece. Já foi visto por João, no capítulo 4:6. Alude à visão do trono de Deus. O mar de vidro pode referir-se ao “correspondente celeste” ou “futuro-simbólico” do Mar Vermelho. Isso é possível uma vez que a cena completa-se no verso 3, com a informação de que os fiéis que receberam harpas cantam o Cântico de Moisés e do Cordeiro. Há uma referência direta às tradições do Êxodo: Mar Vermelho = mar de vidro misturado com fogo; povo de Israel = os fiéis; Cântico de Moisés = Cântico de Moisés e do Cordeiro. Como no Êxodo, o Mar Vermelho não pode tragar o povo de Israel, aqui o mar de vidro, por sua superfície sólida, não pode tragar os fiéis. Ao que parece, João quer dar a entender que o Êxodo foi uma representação histórica do que Cristo realizou e que está além da História, após a Vinda de Cristo. 

Em Apocalipse, o uso do Antigo Testamento não é tão simples e direto. Aqui, nos versos 3-4, o conteúdo do cântico não parece remeter ao Cântico de Moisés, em Êxodo 15. Talvez o cântico de Deuteronômio 32, e seu tema da ira de Deus, sirva melhor para justificar os juízos de Deus ministrados com o derramar das taças. Então, a função desse cântico é antecipar a justificativa dos juízos procedentes. Isso dá à visão mais dramaticidade e acentua a necessidade e o anseio de que os atos da justiça de Deus sejam manifestos. 

 

A ABERTURA DOS JUÍZOS – 15:5-8

Depois do cântico, João retoma a visão como se analisasse do lado de fora da habitação celeste de Deus. No texto, ele vê o santuário do tabernáculo do Testemunho abrindo-se. A expressão “tabernáculo do Testemunho”, na Septuaginta, traduz a expressão “tenda da Aliança”, ou seja, a habitação de Deus durante a peregrinação pelo deserto, após o Êxodo. 

No tempo de Moisés, o tabernáculo do Testemunho indicava a santidade de Deus. Agora, nestes versos de Apocalipse, representa a ira divina. Os anjos saem do santuário vestidos à semelhança de Cristo, na visão de 1:13. No mesmo sentido cúltico das cenas iniciadas no capítulo 4, num ato litúrgico, são preparados os juízos de Deus. Um dos quatro seres viventes, que representam a criação, deu aos anjos as taças, instrumentos do derramamento da ira de Deus. Isso significa que o Senhor usará a natureza como espada de juízo.

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A origem e a fonte dos juízos estão no próprio templo. A glória que enche o templo é a ira que enche as taças. Ninguém pode entrar no templo enquanto não se cumpria os sete juízos. Agora, já não há mais nada a fazer; não existe mais tempo para orações, sacrifícios ou intercessão. Deus está inacessível enquanto seus juízos não se completam. 

 

O DERRAMAMENTO DAS TAÇAS – 16:1-21

Na abertura dos selos, as consequências destruidoras têm o poder de atingir a quarta parte da Terra (Apocalipse 6:8). Na continuidade, um terço da Terra é atingido pelos juízos destruidores das trombetas (Apocalipse 8). A ampliação é clara nos efeitos. Primeiramente, um quarto foi atingido pelos cavaleiros que saem dos quatro primeiros selos e, depois, das três partes que sobraram, uma delas, um terço, foi atingido pelas trombetas. E toda a Terra é atingida pelos flagelos das taças. É justamente nesse sentido que se insere a expressão “completar a ira de Deus”. Aquilo que não foi atingido pelos flagelos anteriores, então, sucumbiria diante dos flagelos derradeiros. 

A essa altura, já não é de se espantar a percepção de que, em sentido genérico, os conteúdos das taças, no que se refere a juízos, aludem quase que diretamente às pragas do Egito. A primeira taça, 16:2, traz úlceras sobre os adoradores da besta e lembra a praga das úlceras que sobrevieram aos egípcios (Êx 9:8-12). A segunda e a terceira, 16:3-7, fazem com que mares e rios transformem-se em sangue, tal qual a primeira praga em Êxodo 7:20-25. A quarta taça, 16:8-9, traz efeito sobre o sol. Poderia ser uma referência a nona praga do Egito: o escurecimento do sol. Porém, agora o sol não perde a sua força; ao contrário, ela é aumentada a ponto de queimar as pessoas. Há uma ligação mais contextual com Apocalipse 7:16 no qual o calor do sol castiga e abrasa as pessoas. Já em relação ao Êxodo, é interessante que, no Egito, as pragas não fizeram com que Faraó reconhecesse que Deus era poderoso e chegasse a temê-lo. Aqui em Apocalipse, isso também ocorre. As pessoas blasfemam diante de Deus e recusam-se a glorificá-lo. Chama a atenção o fato que os castigos não fazem as pessoas terem reverência a Deus. Isso justifica ainda mais os juízos, pois elas não querem reconhecer a glória de Deus.

O derramar da quinta taça, em 16:10-11, traz as trevas; elas seriam um efeito da anulação da luz do sol, tal qual ocorrera na nona praga do Egito. No entanto, não há indicação alguma de que, aqui, o sol perdeu sua luz. Mas, nos efeitos causados pelas trevas, percebe-se que houve uma acentuação do poder do sol como juízo. Antes, eram queimados; agora, em trevas, pessoas sofrem de dores e feridas. E, mesmo não suportando a dor, preferiam morder a língua na recusa de pedir misericórdia. Logo, blasfemavam contra Deus, preferindo o sofrimento agudo a se arrependerem de suas más obras. 

A sexta taça faz com que sejam secas as águas do Eufrates, 16:12-16, apresentando uma referência histórica à representação de barreira de segurança que o rio fazia ao entorno da Babilônia. Sabe-se que, quando Ciro, o medo-persa, invadiu Babilônia, ele previamente desviou as águas do Eufrates e pôde entrar na fortificada Babilônia pelo leito seco.  Desta forma, de acordo com o texto seguinte, parece que a sexta taça retira a proteção dos reinos da Terra e, assim, os demônios que saem da tríade satânica - o dragão, a besta e o falso profeta - podem assediar livremente os reinos e levá-los à batalha do Armagedom contra Deus. 

No verso 15, há uma citação sobre a vinda repentina de Deus, e que abençoados serão aqueles que vigiarem e permanecerem fiéis. A orientação de preservar as vestes é uma ilustração que orienta o não dormir, permanecendo vestido com roupas dignas, caso fossem surpreendidos.

A sétima taça traz a consumação dos juízos. Com a proclamação no verso 17, que diz “Está feito!”, ocorrem trovões, relâmpagos e abalos sísmicos, como nunca ocorreram. A grande cidade é dividida em três, e as cidades das nações desmoronam. No final da abertura dos selos, o clímax ocorre com a proclamação de que a salvação pertence a Deus e ao Cordeiro (7:10). E, no clímax das trombetas, em 11:15, declara-se que “o reino do mundo é de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinara para todo o sempre”. Agora, na última taça, no clímax dos juízos, os abalos atingem somente a grande Babilônia e os reinos que a apóiam contra Deus. Enquanto os poderes do mal são destituídos e reduzidos sob a ira divina, o reino de Deus e de Cristo permanece intocável e inabalável. 

 

PARA REFLETIR

O derramamento das taças da ira divina apresenta algumas lições. A primeira é que haverá um dia em que o juízo de Deus será completo, ou seja, não será parcial ou limitado; estabelecerá, de uma vez por todas, a justiça. Esse juízo é do caráter de Deus, assim como falamos que ele é santo. Por isso, os juízos são liberados desde a presença de Deus no tabernáculo celeste. 

A segunda é que não importa o quanto de sofrimento as pessoas passarão. Isso não fará com que se arrependam de suas obras. Os inimigos de Deus preferem a destruição a pedirem misericórdia. 

A terceira, Deus deixará os incrédulos e impenitentes à mercê dos demônios para serem levados, iludidos se necessário, para a batalha contra Deus, devido à sua incredulidade. 

A quarta ressalta de Deus é o justo juiz. E seu juízo não poderá ser contestado por ninguém. Há muitos argumentos que justificam os juízos divinos.

 

CONCLUSÃO

Os capítulos 15 e 16 de Apocalipse, como ocorre em todo o livro, são enigmáticos. A ira de Deus já vem se consumando sobre a Terra, sobre um mundo mau e imergido no pecado. O homem, dominado por seu orgulho, afasta-se cada vez mais da presença de Deus e, mesmo em meio aos sinais que estão se cumprindo, não se dobra diante da soberania do Senhor. Todavia, em breve, haverá a consumação da justiça divina sobre a Terra. Os ímpios serão punidos e exterminados; porém, o povo de Deus cantará o cântico de vitória, dos remidos no Cordeiro. Por mais que o quadro pintado nos capítulos 15 e 16 seja assustador, não precisamos temer. Jamais Deus punirá o inocente.

 

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