Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o seu senhor constituiu sobre a sua casa, para dar o sustento a seu tempo?    

Estudar as parábolas é sempre uma alegria, penso no privilégio que os seguidores de Jesus tiveram em ouvir ensinamentos tão preciosos vindo diretamente dEle. Louvado seja nosso Deus que inspirou seus servos a escrever e registrar sua poderosa palavra, assim temos o privilégio de ler e sermos ministrados através do Espírito Santo. Hoje meditaremos em mais uma parábola de Jesus, o texto para nosso estudo está registrado dentro de um contexto que fala sobre a necessidade de vigilância e fidelidade, que nosso coração esteja aberto para tudo o que Deus deseja ministrar para nós através de mais esta lição.

 

CONTEXTO

O contexto da nossa Parábola de estudo é Mateus capítulo 24.1 Após uma visita ao templo, os discípulos de Jesus quiseram Lhe mostrar a estrutura e suntuosidade da construção, Jesus então faz uma predição no mínimo espantosa, “Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derrubada”. (V.2). Imagino quão admirados com essa profecia seus discípulos ficaram, isso os levou a fazerem novos questionamentos: “Dize-nos: quando serão essas coisas, e que sinal haverá da tua vinda e do fim do mundo?” (V.3). Jesus responde a esses questionamentos fazendo novas profecias e contando algumas parábolas que enfatizam a necessidade de vigiar (V.42) e estar apercebido (V.44). No final do capítulo, Jesus então conta a parábola do servo Fiel e do Servo Infiel, a história está registrada do verso 45 a 51, a mesma história está registrada também em Lucas, Capítulo 12, dos versos 41 a 46. O Relato é praticamente idêntico, exceto na escolha das palavras da narrativa.

Por exemplo, o servo fiel e prudente no evangelho de Mateus é um mordomo fiel e prudente; embora Lucas se refira a ele como servo no restante da parábola. Mateus escreve que o servo mau passa a espancar os seus companheiros, mas Lucas diz que ele passa a espancar os criados e as criadas. Este servo terá seu lugar com os hipócritas, de acordo com Mateus, e um lugar com os infiéis, segundo Lucas.2 Algumas outras pequenas diferenças podem ainda ser apontadas, mas que importância tem? Naturalmente, o apóstolo Mateus, guiado pelo Espírito Santo se recordou de tudo que Jesus havia dito (João 14:26), Lucas confiou nas informações que lhe foram dadas pelas testemunhas oculares e pelos ministros da Palavra (Lucas 1:2). Os dois escritores foram inspirados pelo Espírito Santo quando escreveram seus Evangelhos, embora cada um reflita seu próprio estilo e propósito.Tanto o contexto de Mateus quanto o contexto de Lucas destacam a necessidade dos servos de Deus estarem preparados para o retorno de seu senhor, é nesse contexto escatológico que se encontra nossa porção de estudo.

 

VISÃO GERAL DA PARÁBOLA

Essa parábola destaca a atitude de dois servos, um fiel e outro infiel. Jesus começa destacando a atitude do servo fiel. O senhor de um determinado número de servos tinha que deixar sua casa por algum tempo. Fez planos necessários para sua viagem e chamou um dos seus servos que, em sua opinião, seria capaz de administrar o dia a dia da casa. Confiou-lhe a responsabilidade de cuidar dos outros conservos, de alimentá-los no devido tempo, e de provar sua fidelidade e prudência, durante a ausência de seu senhor. Se encontrar tudo em ordem quando voltar, tem a intenção de promover o servo a administrador de todos os seus bens. Em seguida Jesus destaca a atitude de um servo mau e infiel e as consequências dessas atitudes. Diferente do servo fiel que se manteve ocupado cumprindo fielmente suas tarefas, o servo mau se pôs a pensar que o seu senhor demoraria a voltar, então começou a se divertir e maltratar os seus companheiros, seu mestre então retorna em uma hora que o servo não esperava. O resultado dessa atitude de infidelidade é punição e castigo.

Referindo-se ao servo mau, algumas versões bíblicas dizem que o seu senhor “o cortará em pedaços”. Este texto é de difícil interpretação, pois se a frase for tomada literalmente, como poderá ser lançado com os hipócritas? É possível que o texto apresente uma expressão idiomática, que deva ser entendida metaforicamente. Uma tradução mais literal seja “cortá-lo fora”, tirá-lo do meio de seu povo. Desse modo, está em harmonia com o ensinamento do Salmos 37 que afirma que o justo herdará a terra, mas o ímpio será exterminado. O servo que falhou recebe o oposto da recompensa recebida pelo servo fiel e responsável. Ele é separado, lançado fora e extirpado do meio de seu povo.3

 

APLICAÇÃO PRÁTICA

Creio que ao lermos essa passagem cada um de nós toma para si as palavras de Jesus e assim entendemos que o senhor da parábola é Jesus e a figura do servo está em cada um de nós. A nossa reflexão sobre essa parábola deve começar respondendo o questionamento feito por Jesus no início da parábola: “Quem é, pois, o servo fiel e prudente?” (V. 45). Em um tempo em que muito se fala sobre liderança, devemos repensar o ser servo no reino de Deus, assim como o senhor da parábola tinha expectativas com relação ao servo que ele confiou, Deus tem expectativas a nosso respeito e devemos pensar se nós temos sido servos fiéis e prudentes. Lembremo-nos do ensino de Jesus: “quem quiser tornar-se importante entre vocês deverá ser servo” (Mateus 20:26). Na parábola em estudo, Jesus destaca que Ele espera que além de servos sejamos fiéis.

“Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor. Mas considerai isto: se o pai de família soubesse a que vigília da noite havia de vir o ladrão, vigiaria e não deixaria minar a sua casa. Por isso, estai vós apercebidos também; porque o Filho do homem há de vir à hora em que não penseis” (Mateus 24:42-44). Tanto no evangelho de Mateus quanto no de Lucas, essas são as palavras proferidas por Jesus antes da parábola do servo fiel, e assim como a parábola e elas trazem uma mensagem central, Vigiem! Ao sair de viagem o senhor da parábola confiou sua casa e seus servos a um servo de confiança, esperando que ele tomasse conta de tudo até seu retorno, ao não informar sua data de retorno queria testar a fidelidade de seu servo, esse deveria manter todas as coisas organizadas e funcionando, pois seu Senhor poderia voltar a qualquer momento. Da mesma forma nós servos de Deus devemos estar atentos e com nossa vida em ordem, pois não sabemos qual o dia do retorno de nosso Senhor, mas temos plena certeza que um dia Ele retorna. Mas além da vigilância, a parábola contada por Jesus destaca mais algumas qualidades que o senhor espera encontrar em seus servos quando Ele voltar, essas qualidades são obediência e serviço.

O servo recebeu ordens específicas de seu senhor e ele seria considerado prudente se as executasse, assim como Jesus chamou de prudente o homem que pôs a palavra de Deus em prática em Mateus 7:24 não bastava ele saber o que deveria fazer, tampouco saber que um dia o seu senhor retornaria. Tão somente conhecer as ordens não faria dele alguém prudente e fiel, sua fidelidade seria comprovada mediante execução das ordens dadas pelo seu senhor. Muitos são os que conhecem as ordens dadas por Deus, são capazes de recitá-las, mas falham na hora de praticá-las, esses são chamados por Jesus de insensatos, pois ouvem a palavra, mas não a praticam.

Os servos são identificados pela prática das ordens do seu senhor e não somente pelo que sabem que deve ser feito. Em outras palavras, o atendimento da vontade do senhor é o que conta no serviço e não apenas o conhecimento dela (Mateus 23:3). Com essa história, o Senhor Jesus reafirma o ensino dado no Sermão do Monte quando contou a parábola da construção de duas casas. A diferença entre elas não estava no que as pessoas viam, mas no que as pessoas não viam, isto é, no alicerce. Nessa história Jesus colocou em pontos opostos e inconciliáveis os que ouvem e praticam e aqueles que ouvem e não praticam. Duas declarações de Jesus sintetizam o pensamento exposto na parábola dos dois servos. “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus”. (Mateus 7:21. NVI). O evangelista Lucas registrou o pensamento acima com essas palavras: “Por que vocês me chamam ‘Senhor, Senhor’ e não fazem o que eu digo?”. (Lucas 6:46). Servo que não obedece às ordens do seu senhor não é servo. O interesse em saber a vontade de Deus é uma virtude, mas não atende plenamente ao querer do Senhor. A alegria do Senhor se manifesta quando fazemos o que sabemos. Essa atitude do bom e fiel servo revela humildade, obediência e compromisso.

Além de vigiar, o servo deveria obedecer, obediência resulta em trabalho, o senhor da parábola deixou uma tarefa específica ao servo de confiança, dar o sustento para os conservos (V. 45). Nesta parábola, a ênfase está em servir ao Senhor servindo aos nossos irmãos. Esse servir deve produzir um ciclo de crescimento. Na medida em que crescemos, espontaneamente desejamos servir aos irmãos, e quanto mais os servimos mais vemos que precisamos crescer e buscar mais maturidade. Para sermos salvos necessitamos apenas de fé, mas devemos lembrar que a fé sem obras é morta (Tiago 2:17). Os conservos mencionados na parábola podem ser considerados nossos irmãos na igreja. Somos colocados como despenseiros na Casa de Deus, o trabalho que o Senhor nos designou que fizéssemos, ou seja, a obra que ordenou que realizássemos é a edificação dos irmãos. O Evangelismo não é a obra final da igreja, sua edificação sim, devemos buscar o perdido, evangelizar o que não conhece o evangelho, mas não podemos esquecer-nos de consolidar essa obra zelando pela alimentação espiritual dessas pessoas. Essa tarefa não é apenas dos pastores e líderes, cada um de nós é responsável por alguém, temos filhos, esposas, amigos, e irmãos que precisam ser alimentados diariamente com a porção da palavra de Deus. “Bem-aventurado aquele servo que o seu senhor, quando vier, achar servindo assim” (Mateus 24:46).

As características acima descritas são as que o Senhor espera de seus servos, mas infelizmente assim como na parábola, na vida cristã existem aqueles servos que ao invés de cumprir as ordens deixadas pelo Senhor estão mais preocupados com seus próprios interesses. O servo mau começou a usar o poder dado pelo seu senhor para oprimir seus conservos, além de se tornar displicente quanto ao retorno do dono de tudo, sua vida dissoluta custou caro, sua busca pelos prazeres e satisfação resultou a um fiel horrível.

Essa parábola me fez lembrar uma ilustração que ouvi certa vez: Certo dia um fazendeiro chamou seu servo e lhe disse: Sairei para uma longa viagem, tome conta de tudo enquanto eu estiver fora, tudo o que você precisar pode comprar na cidade, já deixei dito que eu pago quando eu voltar. E assim que aquele fazendeiro partiu depois de muitos anos ele retornou para sua fazenda, quando foi chegando ficou horrorizado com o que encontrou, sua fazenda antes limpa e bem cuidada estava tomada de mato, as cercas estavam caídas, não havia frutas no pomar, não havia gado, sua casa estava destruída, ele então pensou, meu servo foi embora! Mas quando ele se aproximou da casa do servo ele percebeu que por ali as coisas estavam diferentes, ao redor da casa do servo estava tudo limpo e bem cuidado, a casa estava bem pintada e inclusive maior do que era antes. Ao entrar na casa percebeu móveis novos, eletrodomésticos e aparelhos eletrônicos de última geração e tudo do bom e do melhor. Então o senhor perguntou ao servo o que significava tudo aquilo, o servo respondeu: Como assim? O fazendeiro disse, em sua casa tudo novo, bem cuidada...o Servo interrompeu seu senhor e disse: O senhor não disse que eu poderia pegar tudo que precisasse na cidade, então eu precisei de uma TV nova, precisei aumentar minha casa... O fazendeiro então percebeu que seu servo se preocupou apenas com os interesses próprios e não com a fazenda.

Infelizmente essa é a realidade de muitos, Deus lhes concede dons e talentos para serem usados em sua obra, mas essas pessoas estão ocupadas demais em busca de seus interesses pessoais, nunca podem assumir um cargo ou um ministério na igreja, hoje estão ocupadas com a faculdade, amanhã com a carreira, hoje estão namorando e amanhã não podem assumir nada porque a família toma o tempo que têm, enquanto isso o reino de Deus vai ficando em segundo plano, mas devemos lembrar: “Vigiai, pois, porque não sabeis a que hora há de vir o vosso Senhor” (Mateus 24:42).

 

CONCLUSÃO

No início do Capítulo 24 de Mateus, contexto de nossa passagem bíblica de hoje, Jesus fez uma profecia acerca do templo de Jerusalém, ele disse que o templo seria destruído e que não ficariam pedra sobre pedra, muitos seguidores de Cristo talvez duvidassem de que isso seria possível olhando para a estrutura e suntuosidade do templo. O cumprimento literal desta predição em 70 d.C. é confirmado por Josefo, que foi testemunha ocular do acontecimento. A área do templo estava ao lado da muralha leste de Jerusalém, e ele diz que tudo, exceto a muralha oeste da cidade “foi completamente derrubado ao nível do solo por aqueles que a golpearam até os seus alicerces, que não sobrou nada para que alguém que viesse a essa área pudesse acreditar que ela já tivesse sido habitada”.4 Assim como essa profecia de Cristo se cumpriu a profecia sobre seu retorno com certeza se cumprirá e nós servos do Senhor devemos aguardar e vigiar, e enquanto aguardamos, devemos obedecer às ordens por Ele deixada.

Que sejamos encontrados Fiéis e obedientes!

 

QUESTÕES PARA DISCUSSÃO EM CLASSE

1 - Em que outra passagem podemos encontrar a Parábola do Servo Fiel e Prudente? Quais as diferenças para o texto de Mateus 24:45-51?

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

2 - Essa parábola se destina à igreja em nossos dias ou ela vale apenas para os discípulos dos tempos de Jesus? Justifique sua resposta.

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

3 - Qual a recompensa para o servo fiel e obediente? (V. 47)

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

4 - Qual a punição para o servo mau? (V. 51)

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

5 - Além de aguardar seu retorno o que mais o senhor esperava de seu servo?

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

6 - Cada um de nós é responsável por alguém no reino de Deus, você tem alimentado alguém espiritualmente?

R._________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________

 

1 Tem havido muita discussão e desacordo sobre a interpretação deste vigésimo quarto capítulo. Alguns pensam que o capítulo todo se refere à destruição de Jerusalém, em 70 d.C. Outros pensam que o capítulo todo se refere ao fim dos tempos. Com certeza podemos identificar no texto predições que podem ser aplicadas a ambos os períodos, mas analisar os argumentos referentes a cada pensamento foge ao escopo desta lição.

2 KISTMAKER Simon J. – As parábolas de Jesus – 1º Edição, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, Pag. 148

3 KISTMAKER, Simon J. As parábolas de Jesus.1º Edição, São Paulo, Casa Editora Presbiteriana, p. 149.

4 BEACON, Comentário Bíblico, Mateus a Lucas, Rio de Janeiro, CPAD 2006, Pg. 161.

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