E de todos se apoderou o temor, e glorificavam a Deus, dizendo: Um grande profeta se levantou entre nós, e Deus visitou o seu povo.    

No dia em que Jesus nasceu, os céus entraram em intensa comunicação com a Terra. Um anjo falou com um grupo de pastores de ovelhas; posteriormente, uma miríade de anjos louvou a Deus por causa da seguinte notícia: “hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor”. (Lucas 2:11) Os atônitos pastores de Belém, e até Maria, mãe de Jesus, jamais poderiam imaginar o que ainda estava por vir! O pequeno bebê da manjedoura escondia muitos mistérios; mistérios suficientes para ainda deixar não só aqueles pastores, mas multidões, maravilhados por causa de Seus ensinos e de Suas obras.

Algumas dessas obras foram além de um chamativo e simples gesto de caridade, além de um gesto político. A vida e a obra de Jesus na Terra foram o mais avançado e duradouro contato divino de primeiro grau que os seres humanos já tiveram. Mas Sua humildade e os ensinamentos desconcertantes configuravam uma espécie de capa, um invólucro. Por isso, muitos ficavam confusos. Não sabiam ao certo quem Ele era, e qual o alvo de Sua vida. Uns achavam que vinha da parte de Deus, outros pensavam que Jesus fazia tudo aquilo em nome do Diabo. As passagens bíblicas, aqui selecionadas do Evangelho de Lucas, apontam que Jesus veio da parte de Deus! Vejamos como estava investido de poder e de autoridade sobre dois dos maiores obstáculos da vida das pessoas – a doença e a morte!

 

A SOGRA DE PEDRO É CURADA

Lucas dá início à trajetória de Jesus, como enviado de Deus, na cidade de Nazaré. Ali, na tão familiar Nazaré, Ele teve Sua primeira experiência de debate teológico numa sinagoga. O assunto girou em torno do cumprimento de uma profecia que referia a Ele mesmo! Jesus fazia uma espécie de introdução e, ao mesmo tempo, fornecia um fundamento para tudo o que viria a fazer depois. No texto de Isaías, dizia: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres, enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restaurar a vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos”. (Isaías 61:1-2) Após a confusão generalizada que na sinagoga se instalou por causa dessa associação à profecia, Jesus retira-se de Nazaré, vai a Cafarnaum e, de acordo com Lucas, realiza Sua primeira obra messiânica: a cura de um endemoniado[1]. Derrotar os poderes demoníacos fez a fama de Jesus correr pelas cidades. Porém, curar uma febre alta permitiu Sua autoridade ecoar firmemente dentro de uma casa!

O texto de Lucas 4:38 dá a localização exata do milagre: era a casa de Simão que, futuramente, Jesus denominaria de Pedro, um dos primeiros discípulos. Cafarnaum era uma pequena cidade, situada na parte noroeste do mar da Galileia. A narrativa de Lucas retrata os movimentos de Jesus. A forma como Lucas apresenta os fatos dá a entender que Jesus, Pedro, André, Tiago e João só tomaram conhecimento da enfermidade da sogra de Pedro quando ali chegaram. Lucas, como médico que era, identifica o grau da febre. Disse que “era uma febre muito alta”. Se compararmos com outros tipos de doenças que Jesus curou, o registro da cura dessa febre parece algo tão simples! Porém, isso é puro engano. A febre corporal funciona como um mecanismo de aviso; sinaliza que algo não vai bem com o corpo. Se o próprio Lucas identificou que a febre era muito alta, então possivelmente algo mais sério estava acontecendo no organismo daquela mulher. Mas isso não quer dizer que Lucas deu um diagnóstico completo. Não sabemos exatamente com que instrumentos ou metodologia trabalhava a medicina da época. Entretanto, partindo da medicina atual, o sintoma poderia ser consequência de uma infecção causada por bactérias ou vírus. Nesse caso, poderia levá-la à morte.

Na sequência é dito: “rogaram-lhe por ela” (v.38). Quem eram essas pessoas que rogaram pela sogra de Simão Pedro? Possivelmente, a esposa de Pedro, o próprio Pedro (talvez seus filhos ou filhas) e André, seu irmão. A alta febre espalhou a preocupação naquele lar. Feito o pedido, Jesus direcionou-Se à mulher que, possivelmente, estava acamada, e repreendeu a doença. Alguns intérpretes dessa passagem alegam que a causa da enfermidade era um espírito imundo. Baseiam a hipótese no fato de a palavra grega traduzida por “repreendeu” ser a mesma usada em outras passagens, quando Jesus exorcizou demônios. No entanto, acredito que o texto não nos dá base tão segura para sustentar a afirmação.

Voltando à casa de Pedro, fato é que Jesus atende ao pedido que Lhe foi feito. O verso 39 informa que Ele inclinou-Se para ela. Porém, a narrativa de Mateus 8:15 diz que Jesus tocou na enferma; e a de Marcos, que a enferma foi tomada pela mão. Por que tanta disparidade? O que realmente aconteceu? Possivelmente  tenha acontecido todos esse movimentos. Ou seja, Jesus inclinou-Se, tocou nela quando a tomou pela mão! Isso são apenas detalhes. Cada evangelista destacou o aspecto que lhe chamou mais atenção. O significativo mesmo é que a febre deixou-a imediatamente! Estava feito. A fama de Jesus corria pelas cidades vizinhas. Pense no quanto isso deve ter sido impactante para a família de Pedro. Se levarmos em consideração que tivesse filhos, imagine como seria importante para eles assistirem um milagre “ao vivo”, em casa? Depois de curada, a vida da sogra de Pedro seguiu o fluxo normal e passou a servir todos os que estavam naquele lugar. Possivelmente, serviu uma refeição.

 

O FILHO DE UMA VIÚVA É RESSUSCITADO NA CIDADE DE NAIM

Depois da cura da sogra de Pedro, muito fez Jesus, até nos encontramos nesse episódio em Naim. Vale lembrar que a autoridade de Cristo sobre as mais variadas situações ampliava-se cada vez mais e tornava-se mais pública. A cura do servo de um centurião romano (7:1-10) à beira da morte serve de introdução ao que Jesus iria fazer a um jovem já morto! E tal milagre estupendo ocorre na entrada de Naim.

O nome da cidade significa ‘a encantadora’ ou, segundo o Talmude, ‘a agradável’”. Sem tanta pompa como outras cidades, o vilarejo seria influenciado fortemente pelo Filho de Deus.

A narrativa aponta que, além dos discípulos, numerosa multidão acompanhava Jesus. O que os motivava? “O povo queria ouvi-lO, pois Sua mensagem era “diferente”. (Mateus 7:28 29) Queriam vê-lO, pois Seus olhos estavam cheios de profunda dedicação e compaixão. Eles levavam seus enfermos, paralíticos e possessos de demônios, pois Ele curava a enfermidade e a opressão. Queriam estar com Jesus, pois os cativava com Seu amor”.

Esse grupo de seguidores deparou-se, depois, com outro grupo, o dos lamentadores. Estes se dirigiam para fora da cidade com o intuito de enterrar um jovem. A narrativa de Lucas ateve-se objetivamente ao cortejo fúnebre. Contudo, isso não nos impede de lançar luz sobre outras questões que contribuíam para que a situação daquela mãe fosse fortemente triste e trágica.

Primeiramente, ela já havia perdido o marido, mas o texto não revela há quanto tempo. A situação do gênero feminino, na época de Jesus, assim como no período do Antigo Testamento, não era fácil. As mulheres poderiam estar sujeitas as mais variadas situações de vulnerabilidade. Aqui, em nosso texto, havia um elemento agravante: a viuvez. Bem esclarece Hienecker: “Do Antigo Testamento, depreende-se que a condição de viúva era muito dura em Israel. Em numerosas passagens bíblicas, é dito que uma viúva depende da compaixão, porque está sem arrimo e ajuda. De acordo com a opinião judaica, um castigo de Deus era especialmente duro quando transformava mulheres em viúvas. Por isso, aqui o lamento é duas vezes maior. (Rute 1:20s; 1 Timóteo 5:5; Jó 24:3)”

Em segundo lugar, o filho daquela viúva era jovem. Jesus identifica sua faixa etária no verso 14. Não bastasse a viuvez, repousava também sobre aquela mulher a dor de perder quem providenciaria seu sustento, aquele que assumira o lugar do próprio pai. Isso nos traz a lembrança da história de Noemi (Cf. o livro de Rute)! Não nos espantaria se essa viúva de Naim também quisesse ser chamada de Mara, isto é, a amarga!

E, em terceiro lugar, ele era filho único. Naquele contexto cultural, o acúmulo dos três infortúnios só significava o juízo de Deus. De acordo com o pensamento predominante no Antigo Testamento, Hienecker diz que “A morte do único filho é um juízo particularmente duro de Deus e, por isso, é motivo de luto extraordinário. Em 1Reis 17:18, a viúva de Sarepta, na Fenícia, diz ao profeta Elias, quando seu único filho havia morrido: “Ó homem de Deus… Vieste a mim para trazeres à memória a minha iniquidade e matares o meu filho!”. A perda desse descendente não trazia apenas prejuízos emocionais; havia danos práticos de sobrevivência, como nos lembra Hendriksen: “Com a morte do filho único, a última fonte de sustento e proteção dessa mulher esvaía-se, e a esperança de perpetuar a linhagem da família desvanecia-se. Seria essa morte, depois da morte anterior do esposo, também uma severa provação para sua fé em um Deus que ama e cuida? Embora o texto não indique, devemos pelo menos considerar essa possibilidade. Sua condição era realmente trágica”.

Eis o quadro com que Jesus deparara-Se. Por isso, Lucas informa que “o Senhor compadeceu-Se dela” (v.13). Como era comum naquele contexto cultural, o parente (ou os parentes) vinha na frente do cortejo fúnebre, de maneira que foi facilmente visualizada por Jesus. Nesse momento, Lucas destaca as primeiras palavras do Salvador: “Não chores”. Parece um pedido totalmente sem sentido diante daquele caos emocional! A não ser que tal pedido partisse de alguém que pudesse reverter a situação. Mas quem poderia reverter a morte? Jesus! Somente Ele poderia mudar. Ainda que aquelas pessoas ali presentes já tivessem ouvido sobre a ressuscitação operada por Elias, em Sarepta (1 Reis 4:8-24), e a que foi operada por Eliseu, em 2 Reis 4 dificilmente imaginariam que algo do gênero acontecesse ali, diante de seus olhos! Mesmos sabendo quão a razão humana é reticente em crer, e que talvez acredite apenas na ressurreição do último dia (como fizera Marta, João 11:24), Jesus agiu e realizou o impossível!

Depois de falar à enlutada mãe, Ele aproxima-Se do esquife, uma espécie de maca em que o corpo não fica fechado. O defunto, possivelmente, estava envolvido em panos. É possível que os judeus usassem caixões como se usa na cultura ocidental, mas “a prática deles era o uso do esquife aberto (e.g. Josefo, Antiguidades xvii.197; Vita 323)”. A compaixão de Jesus avança mais um grau e leva-O a tocar no esquife. Leon Morris lembra que “o ato de Jesus tocá-lo importava em poluição de acordo com as leis cerimoniais, mas onde a necessidade humana estava em jogo nunca havia preocupação com detalhes cerimoniais”. Com o toque no esquife, Ele interrompe o cortejo, e temos a Sua segunda fala: “Jovem, eu te mando: levanta-te!”. O poder de Jesus é tão grande que apenas essas poucas palavras foram suficientes para o pior de todos os inimigos, a morte, ser derrotada! Estava feito mais uma vez! A ressuscitação do rapaz seria colocada nos registros evangélicos, assim como a ressuscitação da filha da Jairo e a de Lázaro.

Depois da ordem de Jesus, o jovem sentou-se e passou a falar. Evidências incontestes de que a morte fora tragada pela vida, naquele momento. O temor tomou conta das duas multidões de testemunhas. Em reação, disseram: “Grande profeta levantou-se entre nós”, e “Deus visitou seu povo”. Moisés havia se pronunciado sobre um poderoso profeta. (Deuteronômio 18:15) Não sabemos ao certo se alguém da multidão de impressionados passou a seguir a Jesus. Se não o fizeram, era o que deveriam ter feito. O fato de Cristo ser associado ao Grande profeta “deve ter sido suscitado pela reflexão de que Jesus acabara de fazer aquilo que dois grandes profetas fizeram em tempos antigos. (1 Reis 17:17ss.; 2 Reis 4:18ss.) O povo exclamou ainda que Deus visitou o Seu povo!.  A expressão não é incomum no Antigo Testamento, no qual frequentemente denota bênçãos, como aqui (e.g. Rute 1:6; 1 Samuel 2:21), embora às vezes denote julgamento”.

O impacto do milagre ultrapassa a cidade de Naim. Toda a região da Judeia toma conhecimento de que Jesus era o Messias. Quantas pessoas tornar-se-iam Seus discípulos? Quantas apenas desejariam os benefícios que Ele proporcionava? As respostas podem ser encontradas nos Evangelhos. Busque você mesmo, caro leitor, essas respostas! Ao arrematar esse episódio com a ampla divulgação dos milagres de Jesus, Lucas prepara uma coerente transição para o episódio subsequente, que porá em foco as dúvidas de João, o Batista. As notícias dos milagres haviam chegado a seus ouvidos. Mas isso é assunto para outro estudo.

 

CONCLUSÃO

Quando paramos para pensar sobre a existência de milagres, hoje em dia, especificamente no tipo de milagre que envolve uma ressurreição, geralmente somos tomados pela dúvida. Seria possível algo desse tipo? Aconteceria uma ressuscitação no hospital quando estivesse orando por um ente querido, em óbito? Em tese, os cristãos que conhecem e confiam em Deus creem que isso é possível. Porém, jamais saberemos quando um tipo de milagre como esse baterá à porta! Deveríamos adotar a ideia de não necessariamente o buscar...

Jesus não prometeu que, durante a sua trajetória de vida, os cristãos receberiam milagres. Algumas vidas são cruzadas pelos milagres; já outras, não. É fato que isso tem peso diferente para pessoas diferentes. Muitos abandonaram a fé uma vez que não alcançaram um milagre. E ainda tantos outros poderão fazer isso até a volta de Jesus.

A fé é um elemento importantíssimo para que milagres aconteçam. Do contrário, eles são elementos importantes para que a fé aconteça! Devemos limpar nossas mentes da fraca ideia de que a fé pessoal determina o curso de certas situações. A vida está sob o controle de Deus, e não em nossas mãos. Apenas siga crendo, tendo esperança. Esse tipo de persistência agrada a Deus. Talvez não compreendamos o que Ele faz agora, mas certamente compreenderemos um dia. Aliás, naquele grande dia!

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