Texto de Estudo

 

Porque não quero, irmãos, que ignoreis este segredo (para que não presumais de vós mesmos): que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado.

 

INTRODUÇÃO

Como israelita crente em Jesus, o apóstolo Paulo sentia grande tristeza no coração por seus compatriotas não compartilharem sua fé. Nos tempos do Antigo Testamento, Deus escolheu a nação de Israel como Seu povo especial. (Êxodo 19:5-6) Alianças foram seladas, leis e promessas, recebidas de Deus. Os patriarcas e o próprio Messias haviam sido israelitas. (Romanos 9:1-5)

Apesar de todas as vantagens desfrutadas pelos judeus segundo a carne, a nação tragicamente havia rejeitado a Cristo. Isso significava que as promessas divinas não se cumpririam? O Senhor havia falhado com Israel? Haveria ainda um futuro para a nação, ou sua rejeição da fé seria final? E como as respostas a essas perguntas afetam a nós, cristãos gentios? É a respeito desses questionamentos que o apóstolo desenvolve seus pensamentos, nos capítulos 10 e 11 da Carta aos Romanos.

 

ISRAEL REJEITA A JUSTIÇA DE DEUS (Romanos 10:1-21)

            A maioria de nós, se não todos, já sofreu por familiares ou amigos que não depositam sua fé em Jesus. Deus age de diversas maneiras na vida das pessoas, mas, mesmo assim, muitas continuam resistentes à Sua mensagem. O apóstolo também passou por essa experiência. Sua profunda oração era pela salvação dos seus compatriotas judeus. (v. 1)

Ao longo dos Evangelhos, percebemos que os israelitas possuíam uma profunda religiosidade externa; todavia, uma compreensão dos requisitos da justiça divina estava ausente (veja, por exemplo, as censuras de Jesus aos escribas e fariseus, em Mateus 23). Assim, Israel não se sujeitou à justiça de Deus – não obedeceu às Suas ordens para que cressem (Romanos 6:17), procurando agir do próprio jeito. (v. 2-4) Conforme Hernandes Dias Lopes, “a despeito da boa vontade de Paulo (10.1) e dos braços estendidos de Deus, Israel não creu. Deus, muitas vezes, e de muitas maneiras, falou a Israel. Deu-lhes sua Lei. Enviou-lhes Seus profetas. Manifestou Seu poder providente e Sua libertação compassiva. Israel, porém, respondeu ao Senhor com rebeldia e deliberada ingratidão.”

            As Escrituras haviam longamente testemunhado a respeito da vinda do Senhor Jesus. (João 5:39) Paulo declara que “o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê”. (v. 4) Esse texto não está afirmando que os princípios da Lei Moral de Deus chegaram a um término com a vinda de Cristo, conforme alguns comentaristas afirmam. Diz-se que Cristo era o alvo, o objetivo para o qual toda a Lei conduzia. John Stott explicou:

 

[a] declaração [de Paulo] de que Cristo é ‘o fim da lei’ (Romanos 10:4) não significa que agora estamos livres para lhe desobedecer, mas justamente o oposto. Significa, antes, que a aceitação de Deus não é pela obediência à lei, mas por meio da fé em Cristo, e a própria Lei dá testemunho dessas boas-novas (Romanos 3:21).

 

            Nos versos cinco a oito, Paulo contrasta dois tipos de justiça: uma é obtida por obras (e não pode nos salvar), e outra, por meio da fé. Citando Deuteronômio 30:11-14, o apóstolo argumenta que a justiça oriunda da fé não está distante de nós. Mas como o homem adquire tal justiça? Crendo, de todo o coração, que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos, confessando publicamente essa verdade (vs. 9-11).

            Não importa se você é judeu ou gentio; o modo de ser aceito por Deus é o mesmo. Ele é misericordioso para com todos aqueles que invocam com fé o nome do Senhor Jesus. (v. 12-13) Conforme o Dr. Bob Utley, ex-professor na Universidade Batista do Leste do Texas (EUA), disse:

 

“a natureza universal do Evangelho (‘todos’ é usado duas vezes no v. 12) abre duas veredas: (1) não há distinção entre judeus e gentios, pois todos estão perdidos (3.9,19,22-23; 11.32); (2) não há distinção entre judeus e gentios, pois todos podem ser salvos. O Evangelho remove todas as barreiras humanas (Joel 2:28-29; 1 Coríntios 12:13; Gálatas 3:28; Colossenses 3:11), pelo menos na área da Salvação.”

Assim sendo, torna-se uma responsabilidade da Igreja, como corpo de Cristo, compartilhar a Palavra com um mundo que perece em seus pecados. (v. 14-15) A sequência apresentada por Paulo é esta: 1) mensageiros são enviados; 2) eles anunciam a Palavra; 3) os pecadores ouvem a Palavra; 4) os pecadores creem na Palavra; 5) eles invocam a Cristo; 6) são salvos. Fato é que os pecadores não podem ser salvos separados da Palavra de Deus, pois a fé está ligada à pregação; e a pregação, à Palavra de Cristo. (v. 17)

Essa é a grande comissão que nos foi deixada pelo Senhor. (Mateus 28:18-20) A divulgação da mensagem não é um dever exclusivo dos que ocupam posições de liderança em nossas igrejas locais. Temos realizado nossa parte, contando aos outros sobre o Evangelho da graça que nos foi confiado? Como você e sua igreja cumprem o ‘Ide’ de Cristo?

Israel poderia justificar sua descrença no Messias por não ter tido a oportunidade de ouvir o Evangelho? De forma alguma! Citando o primeiro verso do capítulo 53 de Isaías – uma passagem referente ao Servo Sofredor de Deus -, Paulo mostra que a rejeição de Israel havia sido profetizada. (v. 16) No Salmos 19 Davi escreveu que, mesmo sem emitir um som, os céus e o ciclo dia-noite faziam as palavras de Deus serem ouvidas até os confins da Terra. (Salmos 19:4)

Da mesma forma, no livro de Atos dos Apóstolos, vemos a mensagem da salvação pregada tanto a judeus quanto a gentios. Citando outros trechos das Escrituras (Deuteronômio 32:21 e Isaías 65:1-2), Paulo demonstra que os israelitas realmente ouviram o Evangelho, mas foram um povo rebelde. (v. 17-21) Partindo da revelação natural à revelação especial, o apóstolo usa aquela como símbolo desta para afirmar que Israel ouviu a Palavra e, por isso, sua incredulidade é indesculpável.

 

DEUS PRESERVA UM REMANESCENTE PELA GRAÇA (Romanos 11:1-10)

Israel rejeitou o Evangelho; contudo, não foi totalmente rejeitado por Deus. Evidência disso era o próprio apostolado de Paulo, judeu da tribo de Benjamim. (v. 1) Você já se sentiu como se ninguém mais em sua escola, universidade ou trabalho amasse a Deus? Que você era a única pessoa a ainda acreditar nas promessas bíblicas? Mesmo que nos parece que estamos sozinhos no lado da verdade, Deus reserva para nós um “remanescente”, um grupo de pessoas que se conserva fiel. O exemplo dado por Paulo são os 27.000 que haviam permanecido ao lado do Deus verdadeiro, quando uma apostasia nacional havia levado quase todos a adorar à falsa divindade Baal. (v. 2-4)

Esse remanescente é preservado por Deus por obra de Sua graça. (v. 5-6) A salvação do remanescente também é a prova de que o Senhor não pode ser acusado de não cumprir Suas promessas a Israel. Conforme o pastor Timóteo Carriker, afirmou...

um remanescente crente e fiel de judeus está sendo salvo, e isto representa o cumprimento das promessas de Deus; por essa razão, Deus está vindicado de todas as acusações de infidelidade dentro da interpretação paulina do evangelho.

 

Tanto no Antigo como no Novo Testamento, o conceito de remanescente diz respeito a um grupo que “resta” ou “escapa”, especialmente de uma calamidade. Historicamente, sempre indicou um número pequeno de pessoas. Em Zacarias 13:8 é um terço do total; em Isaías 6:13, um décimo; e, em Ezequiel 5:3 seu número é comparado a uns poucos fios de cabelo nas dobras de uma veste.

Tudo na vida cristã é pela graça, do começo ao fim. Foi por tentarem alcançar a Deus por suas obras que os israelitas não foram alcançados pela eleição divina. (v. 7-10) Os conceitos de salvação pela graça, por meio da fé; e a salvação por obras são tão opostos entre si que John Wesley declarou:

 

Há algo tão completamente contrário entre ser justificado pela graça e ser justificado pelas obras que, se alguém defende um desses pronunciamentos, necessariamente exclui o outro. Porque o que se dá pelas obras é o pagamento de uma dívida, enquanto a graça pressupõe um favor imerecido. Portanto, o mesmo benefício não pode, pela própria natureza das coisas, resultar de ambos [graça e obras].

 

A REJEIÇÃO DE ISRAEL NÃO É FINAL (Romanos 11:11-24)

Israel continuaria, em sua maioria, descrente em Jesus, para sempre? De modo algum, diz Paulo; mas a descrença dos judeus possibilitou a pregação do Evangelho aos gentios (v. 11), e a salvação destes resultará, no fim, na salvação de Israel! (v. 26)

A nação de Israel será salva juntamente dos crentes gentios. Quando isso acontecer, a bênção divina terá alcançado todas as nações da Terra. (v. 12-16) Essa recepção do Evangelho, por parte dos judeus, será tão vívida e maravilhosa quanto a ressurreição que os cristãos experimentarão. Será como se Tivessem retornado da morte.

Por isso, os gentios não deveriam andar soberbos, desprezando os israelitas, nem utilizar a analogia agrícola do enxerto. Eles eram como ramos de uma oliveira brava que foram enxertados na oliveira de Israel, participando de sua raiz e seiva. (v. 17-18) Os ramos quebrados (judeus naturais) o foram devido à sua incredulidade; e os crentes gentios poderiam ter o mesmo destino caso não permanecessem firmes na fé. (v. 19-22) John Murray assinalou:

 

não há tal coisa como a continuação no favor de Deus, a despeito da apostasia; o recebimento salvador da parte de Deus e a nossa perseverança são correlatos. Em outra conexão, Paulo enuncia o mesmo tipo de condição. Somos reconciliados com Deus e assegurados de que seremos apresentados santos e imaculáveis, somente se permanecermos na ‘fé, alicerçados e firmes’, não nos afastando da esperança do evangelho (Colossenses 1:23; cf. Hebreus 3:6 14).

 

  1. da mesma forma que podemos ser quebrados se não permanecermos na fé, Deus é poderoso para enxertar novamente os ramos quebrados, se esses israelitas arrependerem-se da rebelião e voltarem-se para Ele, em fé na verdade. (v. 23-24)

Uma evidência de que a rejeição de Israel ao Evangelho não foi total é que, ao longo da História, muitos judeus têm acreditado em Cristo, como o prometido Messias. Assim, abraçaram a graça divina. Conceituados rabinos, após profundos estudos, manifestaram publicamente sua fé em Yeshua (Jesus), a despeito da perseguição das comunidades religiosas. Organizações missionárias atuais têm focado sua pregação nos judeus étnicos, como a King of Kings, a Jews for Jesus, a The Christian Jew Foundation, a Chosen People Ministries, entre outras. Estatísticas de 2013 apontam que o número de judeus messiânicos (judeus que creem em Jesus) já passa de 300 mil no mundo todo.

Os Batistas do Sétimo Dia também tiveram participação na pregação do Evangelho aos judeus, de 1838 até 1890. Em 1838, a denominação, nos Estados Unidos, criou a ‘Sociedade Americana Batista do Sétimo Dia para a Divulgação do Cristianismo entre os Judeus’. Após trabalhar entre os judeus americanos, a missão estendeu-se à Palestina. Um periódico mensal, intitulado The Peculiar People (O Povo Especial), foi iniciado por Theophylus Lucky, judeu que se tornou membro da igreja de Nova Iorque.

 

A MISERICÓRDIA DIVINA É PARA TODOS (Romanos 11:25-36)

Mais uma vez, Paulo reafirma que o endurecimento de Israel não é final e total. (v. 25) Ele ocorrerá até que “entre a plenitude dos gentios”, o que significa a época em que o Evangelho alcançar o sucesso que lhe foi planejado por Deus entre as nações gentias. Chegará o tempo no qual “todo o Israel será salvo” (v. 26-27); não todas as pessoas, individualmente, mas a nação como um todo. Quando se cumpririam essas fases? Há duas respostas possíveis.

  1. Alguns pensam que a profecia já se cumpriu, quando multidões de judeus juntaram-se à Igreja Cristã Primitiva, antes, durante e depois da destruição de Jerusalém, em 70 d.C.

 

  1. Outros acreditam que ainda se cumprirá. O Espírito Santo realizará grande obra entre os judeus espalhados por todas as nações, levando-os à fé no Messias. Isso não significa que o sacerdócio, o templo e as leis cerimonias da antiga aliança lhes serão restaurados. Indica, porém, que, juntamente dos gentios, tornar-se-ão um só rebanho sob o governo de Cristo, contribuindo muito para a força e a beleza da Igreja cristã.

 

No momento, os judeus são inimigos por causa de sua rejeição ao Evangelho. Mas Deus não deixou de amá-los; Ele não muda, e Suas promessas aos patriarcas serão cumpridas. (v. 28-29) A mesma misericórdia apresentada aos gentios, quando estes estavam em desobediência, Deus manifesta aos judeus ainda incrédulos. (v. 30-32)

A forma como Deus lida com os seres humanos demonstra a Sua sabedoria e a nossa limitação em compreender Seus caminhos. Nenhum de nós é capaz de assimilar a profundidade de Seu amor: o amor ágape, sacrificial, desinteressado. O Senhor não desiste de nós, sejamos judeus, sejamos gentios! Qual deve ser a nossa resposta diante de tal revelação? Darmos a devida glória a Deus, por toda a eternidade! (v. 33-36)

 

CONCLUSÃO

Como sabemos que somos salvos? A resposta é a nossa permanência na fé, pela graça de Deus. Não fosse por essa graça, jamais teríamos sido enxertados na oliveira de Deus, composta por judeus e gentios crentes.

Como ramos enxertados, crescemos e produzimos frutos por obra de Deus em nossas vidas. Não temos motivo algum para orgulharmo-nos, presumindo que somos melhores do que o povo judeu. Antissemitismo não tem espaço na Igreja cristã! Lembremos, mais uma vez, que o apóstolo Paulo e Jesus eram judeus. Permaneçamos firmes pela fé; caso contrário, seremos cortados da comunidade da aliança como os “ramos naturais” (os judeus incrédulos) foram.

            O pastor Gerrit Scott Dawson afirmou que “o conhecimento de Deus e o louvor a Deus; a teologia e a doxologia estão interligadas.”. Compreendendo que o último desígnio de Deus é o uso de misericórdia para com todos, nossas palavras como povo eleito só podem ser as mesmas de Paulo, ao final dessa seção da Carta aos Romanos: “Porque dele, e por meio dele, e para ele, são todas as coisas. A Ele, pois, a glória eternamente. Amém!” (Romanos 11:36)

 

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