Texto de Estudo

PAULO, servo de Jesus Cristo, chamado para apóstolo, separado para o evangelho de Deus.

 

INTRODUÇÃO

Hoje iniciamos o nosso estudo do livro em Romanos. Nesta primeira lição, estudaremos, de forma introdutória: o contexto histórico da Igreja Cristã estabelecida em Roma, nos primórdios do Cristianismo. Veremos como Paulo apresenta-se a ela e o seu amor pela mesma. Por fim, analisaremos a eficácia e o poder do Evangelho de Deus manifestado ao homem.

 

A IGREJA DE CRISTO EM ROMA

  Os termos com que Paulo dirige-se aos cristãos de Roma esclarecem que a Igreja daquela cidade não era de organização tão recente. Mas, ao determinar algo sobre a origem e a história dos primeiros períodos do Cristianismo romano, encontramos bem poucos dados evidentes em que nos apoiarmos.

Conforme Atos dos Apóstolos 2:10 a multidão de peregrinos presente em Jerusalém para a festa de Pentecoste do ano 30 A. D., e que ouviu Pedro pregar o Evangelho, incluía visitantes procedentes de Roma, tanto judeus como prosélitos. Essa é uma das possibilidades do surgimento da Igreja Cristã em Roma. Uma segunda hipótese afirma que ela tenha sido estabelecida por cristãos desconhecidos, convertidos pelo ministério de Paulo, emissários de algum dos centros gentílicos que haviam compreendido plenamente o caráter universal do Evangelho. Vale ressaltar que as três grandes cidades onde Paulo estivera por mais tempo - Antioquia, Corinto e Éfeso - eram justamente aquelas com as quais o intercâmbio com Roma mostrava-se mais intenso.Isso pode ser provado pelo exemplo de Priscila e Aquila que, tendo estado com Paulo em Corinto (Atos dos Apóstolos 18:2), passaram a abrigar uma igreja em casa, em Roma. (Romanos 16:3-5)

A Igreja em Roma era composta por judeus e também por gentios. A carta é dirigida a ambos. A capital do império era uma metrópole com mais de um milhão de habitantes. Havia grande concentração de judeus em Roma, tanto na época de sua expulsão, em 49 d.C., pelo Imperador Cláudio, como no tempo em que Nero incendiou Roma, em 64 d.C.

 

PREFÁCIO E SAUDAÇÃO

            Logo na introdução de sua carta, o apóstolo faz questão de apresentar-se à Igreja de Roma. Muitos acreditam que isso ocorreu pelo fato de que os romanos não conheciam pessoalmente Paulo. Mas o que nos chama a atenção não é o fato de ele ter se apresentado logo nas primeiras linhas e, sim, a forma como isso ocorre. Três afirmações que o apóstolo faz a respeito de si mesmo despertam-nos a atenção; vejamos:

            “Servo de Jesus Cristo”. A palavra grega doulos, traduzida por “servo”, significa escravo, aquele que foi comprado por um preço, pertence a seu senhor e está completamente à sua disposição. Um escravo não tem vontade própria, nem liberdade para fazer o que lhe agrada; vive para agradar ao senhor e obedecer-lhe as ordens.Paulo, porém, não é escravo de um senhor carrasco. Seu senhor dera a vida por ele, comprou-o com o próprio sangue e conquistou-o com imensurável amor. Assim, a expressão “servo de Jesus Cristo” descreve, ao mesmo tempo, a obrigação de um grande amor e a honra de um grande ofício.

            “Chamado para ser apóstolo”. A convocação para ser apóstolo, para ser especialmente comissionado por Cristo, foi feita diretamente “por Jesus Cristo, e por Deus Pai” (Gálatas 1:1), o que lançou sobre ele a responsabilidade de proclamar o Evangelho no mundo gentílico. (Gálatas 1:16) Pelo fato de ter perseguido a Igreja de Deus, Paulo não se considerava digno de ser apóstolo (1 Coríntios 15:9); contudo, ao ser chamado pelo Cristo glorificado (Atos dos Apóstolos 26:15-18), sendo testemunha de sua ressurreição (1 Coríntios 9:1; 15.8), recebeu a mesma autoridade que os demais apóstolos (G1 1.15-17), tendo sua missão divinamente confirmada pelos sinais que acompanhavam suas obras. (2 Coríntios 12:12) Há um contraste entre os dois títulos que Paulo assume: Servo x Apóstolo. Enquanto o primeiro indica submissão, o segundo denota autoridade. A solução para esse paradoxo é compreender que Paulo foi um servo de Deus revestido da autoridade do Senhor.

            “Separado para o Evangelho”. Paulo sabia que Deus o havia chamado para ser um vaso usado na proclamação do Evangelho. Assim, tinha certeza de que fora escolhido para a missão, muito antes de ter seu encontro com Jesus (Atos dos Apóstolos 9); ainda no ventre de sua mãe, o Senhor já o havia separado. (Gálatas 1:15) A expressão “separado para o Evangelho” exprime a missão e o motivo do seu apostolado.

            E, como o Evangelho era o cerne de sua missão, ele fez questão de esclarecer:

1) A origem do Evangelho é Deus. O apóstolo afirma que o “Evangelho é de Deus”. (v.1)Romanos é um livro acerca de Deus, e nenhum assunto é tratado com tanta frequência quanto o de Deus. Todas as questões abordadas na carta relacionam-se a Ele. Em nenhum outro lugar se vê algo assim. Portanto, a boa-nova dos cristãos é o Evangelho de Deus.

2) A autenticidade do Evangelho é atestada nas Escrituras. (v.2) Embora Deus tenha revelado o Evangelho aos apóstolos, este não se constituiu em completa novidade para eles, pois Deus já o havia prometido por meio dos profetas nas Escrituras do Antigo Testamento. Existe, com efeito, uma continuidade essencial entre o Antigo e o Novo Testamentos. O próprio Jesus deixou muito claro que as Escrituras testificavam dele.

3) A essência do Evangelho é Jesus Cristo. (v.3) Conquanto o Evangelho é de Deus, a essência é Jesus, o Filho de Deus. Jesus é a manifestação do Evangelho; é o centro.

4)O Evangelho destina-se a todas as nações. (v. 5) Inclusive tinha alcançado os próprios destinatários da Carta aos Romanos, visto que, como vimos anteriormente, a Igreja romana era um misto de judeus e gentios.

 

Paulo finaliza sua introdução à carta identificando e saudando seus destinatários: “A todos os amados de Deus, que estais em Roma, chamados para serdes santos, graça a vós outros e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo”. Notemos que o apóstolo não faz distinção entre seu público, mas coloca todos na mesma condição: “Amados de Deus”. Também esclarece o propósito para o qual a Igreja foi predestinada: para ser santa.

A respeito do que estudamos até agora, podemos apreender as seguintes lições:

1) Precisamos reconhecer o senhorio de Deus sobre as nossas vidas. Fomos comprados por um alto preço; então, não pertencemos a nós mesmos. Somos, como Paulo, “servos de Jesus Cristo”. Tudo que fizermos deve partir da vontade de Deus e, não, da nossa.

2) A verdadeira autoridade é a concedida por Deus. Infelizmente vemos, em nossos dias, homens que se declaram apóstolos e profetas, mas suas obras testificam que tal autoridade não passa de mera intitulação humana. A autoridade que Deus concede a seus “servos” deve ser usada para glorificar o Seu nome e proclamar o Evangelho de salvação; e, não, para ser usada com fins de interesse próprios.

3) A Igreja precisa voltar ao seu foco. Dentre todos os objetivos que busca hoje, parece que o principal foi deixado de lado: proclamar o Evangelho, o verdadeiro Evangelho, no qual Jesus é o centro. Infelizmente, a Igreja tirou Cristo do centro e colocou curas, prosperidade e milagres.

 

 

O AMOR PELA IGREJA

Depois de ter se apresentado e também seu tema, Paulo passa a explicar o porquê de lhes estar escrevendo. As notícias que recebera acerca da elevada e renomada qualidade da fé que possuíam os cristãos romanos provocaram profunda ação de graças da parte do apóstolo.

O amor de Paulo pela Igreja é característico de alguém que tem espírito missionário. O apóstolo, que fora o maior plantador de igrejas daquela época, não havia sido o originador do grupo cristão em Roma; porém, sua alma alegrava-se por saber que, na capital do Império, a obra redentora de Cristo havia alcançado muitas almas.

A demonstração do profundo amor fraternal que Paulo sentia pelos cristãos romanos é expressa de duas formas. Primeiramente, ele agradece e glorifica a Deus por causa da Igreja de Cristo estabelecida em Roma e pela fé que esta exercia, a ponto de ser proclamada e conhecida afora das fronteiras locais. A fé dos romanos era a mesma de Paulo, conforme o apóstolo testifica, posteriormente: “...por intermédio da fé mutua, vossa e minha” (v.12). Era a fé no Evangelho (1:16), na ressureição (6:4), na regeneração (6:11), na volta de Jesus (13:11-12). Paulo dá graças a Deus por aquela Igreja, pois sabia que a obra era de Deus e, não, de homens. O Senhor era o seu autor, assim como as ações de graça eram destinadas a Ele.

Em segundo lugar, o amor de Paulo é manifesto pelas intensas orações que fazia a favor da Igreja romana: “Porque Deus, a quem sirvo em meu espírito, no Evangelho de Seu Filho, é minha testemunha de como incessantemente faço menção de vós em minhas orações”. (v.9,10) Em  seu ministério apostólico, pregação e oração andavam de mãos dadas. Ele assegurou aos crentes de Roma que, embora não conhecesse a maioria pessoalmente, orava por eles sempre e em todo o tempo. Não se trata de mera expressão! Ele estava falando a verdade e apelou para Deus como testemunha de sua afirmação. Um dos objetivos das orações de Paulo era que Deus, por Sua vontade, provesse ocasião para o apóstolo visitar os romanos. (v.10) Paulo tinha um ardente desejo de estar com os irmãos de Roma a fim de compartilhar algumas virtudes espirituais. O apóstolo já havia planejado muitas vezes ir a Roma, mas Deus não havia providenciado o momento oportuno, mesmo que visitá-los já estivesse em seus planos. (15:22-24)

A respeito do tópico que estudamos neste momento, podemos concluir destacando os seguintes aspectos:

- Deus é o autor da Igreja. Ela pertence a Ele e, por isso, honra, glória e ações de graça pertencem somente a Ele. O Senhor é o personagem principal da Igreja. E tal posição não deve ser ocupada por homem algum.

- O principal fruto da Igreja é sua fé, pois ela manifesta-se em ações, e essas ações transpõem fronteiras. Como bem disse Paulo, posteriormente: “Logo a fé vem pelo ouvir, e o ouvir vem pela palavra de Cristo”. (10:17) Uma Igreja de fé é aquela que se rende ao Evangelho e está fundamentada sobre a Palavra.

- Precisamos ter um coração missionário como Paulo. É dever de todo o cristão interceder pela Igreja de Cristo espalhada pelo mundo; fazer orações em todo o tempo e em todo o momento oportuno, contribuir de forma pessoal com o Corpo de Cristo.

 

O PODER DO EVANGELHO

            Paulo não desejava visitar Roma apenas para conhecer a Igreja cristã lá existente e poder compartilhar as virtudes espirituais; seu objetivo era proclamar o Evangelho às criaturas que ainda não haviam sido alcançadas: “para conseguir igualmente entre vós algum fruto, como também entre os outros gentios”. (v.13)

            A partir do verso 14, o apóstolo menciona três disposições inabaláveis de seu coração em relação ao Evangelho: “Eu sou devedor” (v.14); “estou pronto” (v.15) e “não me envergonho” (v.16). Temos aqui verdades: a obrigação do Evangelho: “sou devedor”; a dedicação a ele: “estou pronto”; e a inspiração do Evangelho: “não me envergonho”. Paulo é devedor como servo, está pronto como apóstolo e não se envergonha como alguém que foi destinado ao Evangelho de Deus.

            Não havia motivos para se envergonhar, por mais que existissem alguns motivos, pois o Evangelho era identificado com um carpinteiro judeu que fora crucificado. Os romanos não cultivavam uma apreciação especial pelos judeus, e a crucificação era a forma de execução mais desprezível, reservada aos criminosos. Além do mais, Roma era uma cidade altiva, e os cristãos não faziam parte da elite da sociedade. Eram pessoas comuns e, até mesmo, escravas. O Evangelho, centralizado na cruz de Cristo, era visto com desdém tanto pelos judeus como pelos gentios. Para os gregos, a cruz era loucura; e, para os judeus, escândalo. (1 Coríntios 1:23)

            Para Paulo, nada disso o impediria de pregar as boas-novas aos romanos não convertidos, pois sabia que o Evangelho era “poder de Deus”, e este poder era manifesto pela pregação da Palavra para “salvação de todo aquele que crê”. O Evangelho era poderoso para alcançar toda a humanidade, “primeiro o judeu e também o grego”. É onipotente como Deus. Não há coração tão duro que ele não possa alcançar.

            O apóstolo afirma também que a justiça divina revela-se no Evangelho por meio da fé. Essa afirmação confere ao livro de Romanos seu tema principal: a justificação pela fé. Ou seja, o resultado final do poder do Evangelho no homem é a salvação pela fé - fé em Cristo Jesus. O Evangelho produz não apenas a fé salvadora, mas também a santificadora. “O justo viverá pela fé”; ele é salvo pela fé, vive pela fé, vence pela fé e caminha de fé em fé.

            Pregar o Evangelho continua sendo a principal obra da Igreja; aliás, Igreja poderosa é a que prega as boas-novas. Como vimos, o poder de Deus manifesta-se pelo Evangelho. Tanto na época de Paulo como nos dias de hoje, muitos desprezam a mensagem de salvação e agem como os romanos, achando que possuíam tudo e não precisavam de nada. O mundo está assim, zombando da cruz e desprezando a salvação. Entretanto, não podemos nos intimidar, tampouco nos envergonharmos, pois a missão da Igreja ainda não terminou.

 

CONCLUSÃO

            Embora a Carta aos Romanos tenha sido escrita há muitos anos, sua mensagem é atual, verdadeira a todas as épocas. Hoje aprendemos que somos chamados para servir aquele que nos resgatou por bom preço: Jesus. Somos devedores a Ele, e é somente Ele quem nos reveste de autoridade para Sua missão - evangelizar em todo o tempo, lugar e todas as pessoas.

 

 

Graça Maior - Pr. Renato Sidnei Negri Junior, . Disponível em: https://gracamaior.com.br/estudos/estudo-da-semana/1138-prefacio-aos-romanos.html. Acesso em 28 Julho 2017.