Então Moisés naquele dia jurou, dizendo: Certamente a terra que pisou o teu pé será tua, e de teus filhos, em herança perpetuamente; pois perseveraste em seguir ao SENHOR meu Deus. Josué 14:9

          INTRODUÇÃO

Repartir uma herança, nos dias atuais, não é tarefa fácil. Há que se verificar se existe um testamento ou outro documento que indique para quem deva ficar a herança. Não raras vezes, quem decide tais disputas são advogados, juízes, tribunais, ou seja, personagens que não correspondem ao núcleo familiar. Eles verificaram toda a documentação e se os possíveis herdeiros cumpriram com os requerimentos testamentários. Em tais situações, podem ser convocadas testemunhas externas ao testamento. 

Em um processo semelhante, participaram grandes homens como Josué, Eleazar, Calebe e os líderes de cada tribo. Eis as pessoas das quais tiramos grandes lições para nossa vida.

 

OS PERSONAGENS

No papel da distribuição da terra, participaram como juízes, por ordem divina: “o sacerdote Eleazar, Josué, filho de Num, e os cabeças dos pais das tribos dos filhos de Israel”. (Josué 14:1)

É interessante notar que já haviam se passado 45 anos, desde que Josué e Calebe, juntamente de mais 10 espias, tinham sido enviados à Terra Prometida. (Números 13:30-33) Aquela geração morrera no deserto, e somente Josué e Calebe permaneceram fiéis ao Senhor; por isso, foram agraciados por Deus com a promessa de que entrariam e possuiriam uma terra da qual emanava leite e mel.

Se a primeira grande obra de Josué fora a conquista de Canaã, a segunda foi a repartição da terra entre as tribos. Ele já contava com 90 anos e não mais poderia lutar. Como advertira que ficava "ainda muita terra por possuir", incentivou as tribos a completarem a conquista de suas regiões respectivas. Josué também era parte dos herdeiros de uma das tribos, a de Efraim, dos que receberiam a herança. (Josué 14:1-5)

As guerras não limparam Canaã de todos os habitantes, nem tomaram todas as cidades. O território que os pagãos ainda ocupavam localizava-se, em sua maior parte, ao sul e ao norte. Ainda faltava dominar os filisteus. A cidade dos jebuseus, Jerusalém, não fora tomada permanentemente, até a época de Davi. (2 Samuel 5:6-10) Josué tampouco conquistou certas cidades fortes, como Gezer e Megido, provavelmente por não ter concordado em colocá-las em prolongado cerco. Não obstante, ficaram isoladas pelas guerras.

A Terra descansou das guerras (11:23), no sentido de que não era necessário fazer pelejas maiores. Então, cada tribo ficava com a tarefa de subjugar, gradativamente, o restante dos cananeus no território que lhes havia correspondido na partilha.

Existe aqui um paralelo com a experiência cristã. Da mesma forma que Josué, Jesus ganhou a vitória sobre o inimigo principal, Satanás, na cruz, e tirou os obstáculos maiores do caminho. Ele pôde dizer: "Eu venci o mundo" (João 16:33), porém ficam nos cristãos algumas tendências pecaminosas. Da mesma forma que as tribos tinham que desalojar os cananeus, assim o cristão precisa dominar seus desejos carnais com a ajuda do Espírito Santo. (Romanos 8:13) E igualmente restou ainda "muita terra por possuir", no sentido de receber as bênçãos e o poder divino, de evangelizar nossos vizinhos e até nações inteiras, assim como exercer influência em favor da justiça no mundo.

O outro personagem importante desta passagem é o sumo sacerdote, Eleazar. Era encarregado de levar a Palavra de Deus mediante Urim e Tumin.  Além do mais, era o mediador entre Deus e o povo. Como sumo sacerdote, fora designado por Deus para ajudar Josué na tarefa de repartir Terra Prometida, depois da conquista de Canaã. Seu nome significa “Deus tem ajudado”; foi o terceiro filho de Arão, e era sobrinho de Moisés. De acordo a Palavra de Deus, foi nomeado pelo Senhor para ser o sumo sacerdote (Números 20:25-28, Hebreus 5:4), o qual assumiu depois da morte do pai, e contou com a aprovação do povo. Uma das funções de seu ministério era a de assistir a Josué. (Números 27:19) Além do mais, encarregava-se dos serviços do templo, dos sacrifícios de animais à expiação, que serviam para a mediação entre Deus e o pecador. Porém, diferentemente do verdadeiro Sumo Sacerdote que está nos céus (Hebreus 5:1-4), este apresentava o sangue de animais como touros e cordeiros. Jesus, nosso Grande Sumo sacerdote, apresentou o próprio sangue como expiação e purificação do pecado. (Hebreus 4:14-16)

A outra diferença que aparece nas Escrituras é que Eleazar tinha linhagem, diz a Escritura: filho de Arão, da tribo de Levi (Números 20:28). E Jesus não. (Hebreus 5:5-10) Era o sumo sacerdote quem carregava no peitoral as pedras do “Urim” e do “Tumin”, usadas para se buscar a resposta divina. (Números 27:21) Devia apoiar a Josué como cabeça, transmitindo-lhe as decisões de Deus acerca de perguntas importantes, conforme o juízo do Urim e Tumin.

Uma das inquietudes ao estudar esta parte é responder por que Eleazar fora nomeado antes que Josué, na repartição da terra. Antes de entrar na Terra Prometida, cabia a Moisés dar a interpretação da Palavra de Deus, pois ele comandava e era profeta. (Deuteronômio 34:10) Deus comunicava-se por meio de Moisés, e ele ainda cumpria o papel de mediador. No tempo de Josué, tais atribuições, com exceção do comando, correspondiam ao sumo sacerdote, Eleazar; é por isso que ele foi mencionado por primeiro.

Outra característica marcante em Eleazar foi o zelo pela adoração verdadeira. Ele cumpriu o sacerdócio com honra, até o dia da sua morte, passando a ser um exemplo a quem ministra a Palavra de Deus, atualmente. Hoje, necessitamos de homens consagrados ao serviço, fiéis à verdade, como este! Eleazar tinha compreensão límpida de seu papel; não era apenas quem portava a Palavra de Deus, senão quem, de algum modo, representava Deus ante as decisões importantes. Portanto, devia ter o zelo do bom ministro do Senhor, um exemplo em conduta e paciência. Assim, seu papel foi importantíssimo na repartição da terra. Leal, não apenas com Deus, mas também com quem devia compartilhar na tomada de decisões, atento a Josué, cumpriu cabalmente sua tarefa, estando presente nas batalhas, em toda a conquista da Terra Prometida e na distribuição da mesma.

 

A DISTRIBUÇÃO DA TERRA

Neste capítulo, realça-se o labor de Eleazar e de Josué na distribuição da Terra Prometida. O tempo de guerra havia terminado; vivia-se uma época de paz. Além do mais, conforme informa o relato bíblico, “era Josué já idoso, entrado em dias; e disse-lhe o SENHOR: Já estás velho, entrado em dias, e ainda muitíssima terra ficou para se possuir.” (Josué 13:1) Assim a leitura bíblica segue, dizendo: foram estas as terras que os israelitas receberam por herança em Canaã, e que o sacerdote Eleazar, Josué, filho de Num, e os chefes dos clãs das tribos dos israelitas repartiram entre eles.” (Josué 14:1)

Esta seção é a fonte mais importante para aprendermos sobre a geografia das tribos de Israel. De acordo com analistas, existem alguns elementos que podem ser distinguidos facilmente. Há uma forma original que consistia na enumeração de pontos fronteiriços os quais resultam nas linhas de fronteiras daquele tempo. Com elas, nos territórios de cada tribo, toda a Palestina é definida, ou seja, a Cisjordânia, ou lado oeste do Jordão, e uma área adjacente da Transjordânia, ou o leste do Jordão, para a esquerda delineados.Veja o mapa abaixo:

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A herança a ser repartida havia tido um alto custo, pois é verdade que se lutou muito para obtê-la. Ademais, devemos lembrar a perda de muitas vidas, parentes e amigos que morreram nas batalhas. Não se deve olvidar também que inúmeros, por conta da rebelião no deserto de Cades Barnea, não conseguiram atravessar para tomar posse da Terra Prometida, nem lograram chegar a Canaã pela desobediência e rebeldia ante Deus. (Números 14) Outros haviam fraquejado, devido à falta de confiança e de fé.

Deu-se, então, o sorteio das terras conquistadas na Palestina Ocidental. Judá, Efraim e a outra metade da tribo de Manassés foram as primeiras a terem seus territórios. Judá recebeu toda a região sul, entre o Mar Morto e o Mediterrâneo (Josué 15:1-12,20-63); Efraim e os restantes de Manassés herdaram um território extenso na região central. (Josué 16) As outras sete tribos, ou não receberam suas heranças na mesma ocasião, ou não se apossaram delas, talvez por acomodação.

Até então, Gilgal, junto ao rio Jordão, tinha sido a base militar e o centro religioso de Israel. Josué buscou um lugar mais central e acessível a todas as tribos e, assim, destacou Siló, no território de Efraim. O tabernáculo foi desmontado e levado para lá. (Josué 18:1)

As sete tribos que ainda estavam acampadas em Gilgal acompanharam Josué e o tabernáculo; mudaram-se para Siló. Foi ali que Josué reuniu os cabeças dessas tribos e desafiou-os a tomarem posse do restante da terra conquistada. Os territórios dados a essas tribos estão relacionados e delimitados em Josué 18:11-19.48. Veja o quadro abaixo:

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A HERANÇA DE CALEBE

Calebe, à época com a idade de 40 anos, tinha sido um dos 12 homens enviados a espiar a terra, junto a Josué. A missão fora a de investigar e trazer um relatório para Moisés e o povo.

Calebe e Josué foram os únicos dispostos a conquistar a terra imediatamente. (Números 13:30) Sabemos que o informe dado pelos outros 10 espias não foi nada motivador e era destituído de fé. Tal relatório fez desfalecer ao povo, apagando a voz de Josué e Calebe. Prevaleceu o informe da maioria, e o povo começou a chorar, desconfiando de Deus, rebelando-se contra o Senhor. Deus enfadou-se e disse que aquela geração não entraria na terra que emanava leite e mel. Assim, apenas Calebe e Josué desfrutariam da promessa. (Números 14:29)

Como prêmio pela fidelidade, Calebe pediu a região de Hebron, apesar de ser uma das partes mais difíceis de ser conquistada. (ver Números 14:24-30; Deuteronômio 1:36) Por ocasião da repartição das terras, o corajoso soldado já estava com mais de 85 anos e expulsou dali os três filhos de Enaque (gigantes), oferecendo a filha Acsa a quem tomasse Debir. Otniel, seu sobrinho, recebeu a recompensa. Mais adiante, Hebron foi entregue aos levitas e tornou-se um lugar de muita importância na história de Israel. Calebe ilustra os bons resultados que se produz por obedecer a Deus com constância.

Calebe é um dos heróis favoritos por sua força, confiança, fé e estado de ânimo. Fica a pergunta: de onde ele tirava tanto entusiasmo, tanta fé, tanta confiança em Deus? É interessante que, quando buscamos a definição de entusiasmo, a maioria das respostas aponta à exaltação do ânimo que se produz por algo que cativa. Sua origem mais remota vem do idioma grego; no qual “entusiasmo” significava ter um deus dentro de si”. Sem dúvida, no caso de Calebe, tinha um entusiasmo que vinha do coração, sempre “cheio de Deus”.

Sem dúvida, era um homem que havia colocado seus olhos, seu coração e sua vontade diante de Deus. O Senhor era a sua fortaleza; as promessas divinas davam-lhe confiança e força. Disse ele: “eu, porém, fui inteiramente fiel ao Senhor, ao meu Deus.” (Josué 14:8 NVI) Além do mais, disse: “Pois bem, o Senhor manteve-me vivo, como prometeu. E foi há 45 anos que ele disse isso a Moisés, quando Israel caminhava pelo deserto. Por isso, aqui estou hoje, com 85 anos de idade! Ainda estou tão forte como no dia em que Moisés me enviou; tenho agora tanto vigor para ir à guerra como naquela época.” (vv.10 e 11) Tendo dito isso, fez seu pedido: “dá-me este monte de que o SENHOR falou naquele dia.” (v. 12)

Ele não pediu uma terra conquistada, mas ainda por conquistar; tampouco uma parte desértica, fácil, senão uma difícil, onde outros haviam considerado impossível de se subjugar. Um lugar com fortalezas, gigantes, no qual haviam homens treinados para a guerra, que fizeram o povo de Israel cambalear em sua fé. Calebe sabia que, com a ajuda de Deus, derrotaria aquelas fortalezas, derribaria seus gigantes e possuiria a terra.

Ele queria dar ao povo um exemplo do que acontece com alguém que honra a Deus e, assim, trazer alento às tribos. Não buscava honras para si ou engrandecimento pessoal. Queria que os mais jovens aprendessem sempre a fazer a vontade de Deus. Desejava mostrar que, com Deus, tudo era possível. Em nossa vida pessoal e na espiritual, existem muitas montanhas que nos causam temor e desconfiança; e, muitas vezes, é custoso enfrentá-las. Que Deus nos de força e coragem para dizer, como Calebe: “Dá-me essa montanha”.

Da mesma forma que Calebe, nós vencemos o inimigo e tomamos posse da herança:

1) Devemos entregar-nos totalmente ao Senhor;

2) Devemos conhecer as suas promessas e crer nelas;

3) Devemos manter o coração e a mente fixos na nossa herança;

4) Devemos depender de Deus para conseguir a vitória. "Graças a Deus, que nos dá a vitória por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo". (1 Coríntios 15:57)

 

CONCLUSÃO

O propósito do livro de Josué radica na obediência, sublimando a fé posta na promessa divina. Incentiva-nos a crer que, colocando nossa vista na obediência, alcançaremos grandes logros. E o melhor de tudo: alcançaremos a herança perpétua que Deus quer entregar a seus filhos.

Somos ensinados que, quando deixamos que o Espírito Santo entre em nossa vida, existe um ânimo distinto. Vemos as coisas diferentes. Estamos sujeitos à obediência e, assim, poderemos receber a verdadeira bênção. Concluímos, como está registrado, Josué o abençoou (v.13), “visto que perseverara em seguir o SENHOR, Deus de Israel”. (v.14)

Falta pouco, e o Senhor virá buscar seus filhos. Já visualizamos a cidade celestial; não percamos de vista nosso alvo!

 

Graça Maior - Pr. Julio E. Bravo Castro, . Disponível em: https://gracamaior.com.br/estudos/estudo-da-semana/1107-uma-heranca-conquistada-pela-fe.html. Acesso em 27 Junho 2017.