Texto de Estudo

E o SENHOR disse a Josué: Não os temas, porque os tenho dado na tua mão; nenhum deles te poderá resistir.

Josué 10:8

INTRODUÇÃO

No capítulo anterior, estudamos como os moradores de Gibeão utilizaram-se de uma estratégia para enganar Josué e o povo de Israel, após ouvirem o que estes haviam feito a Jericó e Ai. Sem consultar o Senhor, Josué concedeu a promessa de lhes preservar a vida, jurando pelo Deus de Israel.

As notícias das vitórias do exército israelita continuaram se espalhando entre as cidades de Canaã, gerando temor no coração dos moradores. Diferentemente de Raabe, que se rendeu ao Deus de Israel (Josué 2), e de Gibeão, que por sua astúcia realizou um acordo pacífico com Israel (Josué 9), um agrupamento de reis da região sul da Palestina decidiu unir-se para resistir aos avanços dos hebreus. O estudo desta semana tratará das ações miraculosas de Deus e da vitória concedida em favor de seu povo.

 

O CERCO A GIBEÃO

Gibeão era “cidade grande como uma das cidades reais e ainda maior do que Ai, e todos os seus homens eram valentes”. (Josué 10:2) Adoni-Zedeque, rei da cidade cananeia de Jerusalém, concluiu que, se Gibeão, com todo o seu poder político e militar, teve de se unir ao inimigo a fim de escapar da destruição, então a única chance de sobreviver seria por meio de um ataque realizado de forma conjunta a outros exércitos.

Para esse propósito, solicitou ajuda a outros quatro reis amorreus: Hoão, de Hebrom; Pirã, de Jarmute; Jafia, de Laquis; e a Debir, de Eglom. O termo “amorreus”, provavelmente, é uma referência aos habitantes da região montanhosa central da Palestina. O esforço foi a primeira tentativa séria de resistência em Canaã. O objetivo primário da campanha era derrotar Gibeão e eliminar a ameaça de seu acordo com Israel, restaurando a cidade ao poder dos cananeus. Gibeão também se tornaria um exemplo para que outras cidades-estado não apoiassem Israel.

 

O SOCORRO DE JOSUÉ

Temendo o resultado do conflito, o povo de Gibeão clamou por socorro aos israelitas, com quem haviam firmado pacto – uma aliança que lhes protegia não apenas de Israel, mas de todos os que viessem atacar a cidade. Os gibeonitas estavam em seu direito ao clamar pela ajuda de Israel, pois haviam se tornado seus escravos; e tal auxílio seria vantajoso para Israel, pois Gibeão e suas três cidades-satélites eram muito importantes para se obter o domínio da parte ocidental da Terra Prometida.

Gilgal, onde Israel estava acampado, localizava-se no profundo vale do Jordão. Josué, então, “subiu” (v. 7) até a área das colinas para ajudar os gibeonitas. O percurso, em terreno íngreme, era de 32 quilômetros, realizado durante a noite, com todos os instrumentos de guerra. Percebemos, com isso, o grande vigor que os homens de Josué possuíam.

Deus encorajava Josué, afirmando que não deveria temer, pois os exércitos haviam sido entregues em suas mãos. (v. 8) Nesse trecho, percebemos uma reafirmação da promessa divina anterior: “Ninguém te poderá resistir todos os dias da tua vida; como fui com Moisés, assim serei contigo; não te deixarei, nem te desampararei. Sê forte e corajoso, porque tu farás este povo herdar a terra que, sob juramente, prometi dar a seus pais.” (Josué 1:5-6) Vemos o próprio Deus engajado na batalha: pedras caem do céu sobre os exércitos inimigos, de forma que “mais foram os que morreram pela chuva de pedra do que os mortos à espada pelos filhos de Israel”. (Josué 10:11)

Bete-Horom localizava-se a, aproximadamente, oito quilômetros a noroeste de Gibeão; Azeca estava situada a 27 quilômetros a sudoeste de Bete-Horom, sobre as colinas, ao sudoeste de Gibeão. Presume-se que Maquedá ficava próxima de Azeca. A perseguição ampliou-se por um total de 48 quilômetros.

 

O MILAGRE DO DIA LONGO

Chegamos a um dos pontos altos da narrativa de Josué: o milagre do longo dia, quando os israelitas precisaram de tempo adicional de claridade para completarem a sua vitória militar. Esse relato já foi considerado como um dos “principais absurdos da Bíblia” por um website ateísta. O “absurdo” da passagem resulta do fato de que se afirma que “o Sol deteve-se, e a Lua parou” (v. 13), aparentemente ensinando o geocentrismo (a ideia de que a Terra está parada no centro do Sistema Solar, com o Sol e os demais astros girando à sua volta). Mas, desde os tempos de Copérnico e de Galileu, sabemos que o modelo heliocêntrico está correto: o Sol está estacionário, com a Terra e os demais planetas girando à volta. Como resolver esse aparente problema?

Primeiramente, devemos notar que a Bíblia:

 

(...) foi escrita para pessoas comuns de todas as gerações; portanto, emprega a linguagem comum, do dia-a-dia. [...] As Escrituras foram escritas em tempos antigos, com padrões antigos, e seria algo anacrônico impor sobre elas padrões científicos modernos. Contudo, não é menos científico falar que ‘o sol se deteve’ (Josué 10:13) do que se referir ao ‘nascer do sol’ (Josué 1:15). Ainda hoje os meteorologistas mencionam, todo o dia, a hora do ‘nascer’ e do ‘pôr-do-sol’.

 

Não precisamos, portanto, tomar literalmente a expressão “o Sol deteve-se”, assim como não entendemos, ao pé da letra, “o Sol nasceu”, mesmo quando dita por cientistas. Mas o que teria, então, acontecido naquele dia?

Alguns pensam que não houve qualquer alteração no movimento astronômico da Terra. Como tudo o que Josué precisava era de claridade por mais tempo, Deus teria apenas causado a continuação das luzes solar e lunar, em Canaã, por meio de algum processo de “refração cósmica”. Outros propõem uma diminuição na velocidade da rotação da Terra (o movimento em torno do próprio eixo), de modo que teria completado seu movimento em 48 horas, ao invés de 24. O Senhor também teria impedido as consequências catastróficas que ocorreram devido a essa alteração, como ondas violentas e extremos de temperatura. Não existe razão para duvidarmos de que o Deus, criador de todas as coisas por meio da sua palavra, pudesse ter realizado tais milagres.

Há alguma evidência histórica de que tal evento tenha realmente ocorrido? Existe uma suposta notícia que, eventualmente, aparece em blogs e páginas da internet. Os computadores da NASA teriam, por meio de cálculos, comprovado um ‘dia perdido’. Porém, é uma falsa história, fabricada há mais de um século (de forma mais rudimentar e que também evoluiu com o avanço da tecnologia). Tais cálculos, na verdade, seriam impossíveis. A Apologética (defesa de nossa fé) deve estar baseada em fatos e informações verificáveis, confiáveis, para que não tragamos descrédito sobre nossa mensagem.

Se ocorreu o evento de um dia mais longo na História, isso também deveria ter sido registrado por outros povos, assim como existe uma diversidade de relatos sobre o dilúvio universal e a Torre de Babel. E é exatamente o que encontramos! Há relatos sobre o longo dia nos antigos escritos chineses, do tempo do Imperador Yeo, assim como em textos dos incas (Peru), dos astecas (México), dos hindus e de tribos indígenas da América. Lendas babilônicas e persas referem-se a um dia que foi, miraculosamente, prolongado. O antigo filósofo grego Heródoto menciona registros que lhe foram apresentados por sacerdotes egípcios, abordando o caso de um dia que teve duas vezes o comprimento de um normal.

Temos também o mito grego em que Phaethon, filho de Apolo, interrompeu o curso do Sol por um dia; o mito do povo Maori, da Nova Zelândia, em que o herói Maui retardou a velocidade do Sol; e os Anais Mexicanos de Cuauhtitlan, nos quais se registra uma noite que continuou por período prolongado. O Livro dos Justos (ver próximo tópico) é uma segunda fonte hebraica sobre o evento.

Os antigos amorreus eram adoradores do Sol e da Lua. O fato de que tais “deuses” tiveram de permanecer “imóveis” perante as ordens de Josué foi uma demonstração de que Yahweh-Elohim, o Senhor Deus de Israel, era o único e verdadeiro soberano, assim como, algumas décadas antes, as 10 pragas foram uma vindicação e um juízo sobre os falsos deuses do Egito. (Êx 7-12; veja Êx 12:12) Ao contrário de nosso Deus, essas divindades eram impotentes para salvarem seus adoradores.

Um último ponto para este tópico: alguns estudiosos argumentam que, devido ao milagre do dia longo, o ciclo semanal teria se alterado; portanto, não saberíamos mais em que dia da semana é o sábado, estando desobrigados da sua observância, conforme o mandamento divino. (Êx 20:8-11) Contudo, aquele foi apenas um dia de duração maior e, não, dois dias. Não houve qualquer alteração na sequência dos dias da semana. Afirmar que não podemos saber quando é o sábado é dizer que nem mesmo Cristo o sabia! Mas ele nasceu “sob a Lei” (Gálatas 4:4) e observava-o. (Lucas 4:16) Se não o fizesse, Jesus teria cometido pecado e se desqualificado do papel de nosso Salvador.

 

O LIVRO DOS JUSTOS

Muitas opiniões foram construídas sobre a forma e o conteúdo do ‘Livro dos Justos’ (algumas bíblias transliteram o termo hebraico como Livro de Jasar ou Jaser). Trata-se de uma obra muito antiga, que alcançou forma final entre os anos 1000 e 800 a.C., sendo uma coleção de canções nacionais de Israel. Hoje, está perdida. Há uma segunda referência sobre esse livro na Bíblia, em 2 Samuel 1:17-27; ali se encontra o lamento de Davi sobre a morte de Saul. Seus cânticos devem ter sido utilizados como parte do treinamento militar dos israelitas.

Falsificações desse livro têm aparecido ao longo da História. No século XIII, surgiu uma versão escrita pelo rabino Tam. Outra edição rabínica foi publicada em italiano, em 1625. Em 1751, uma obra com o mesmo nome apareceu em Londres, na Inglaterra. Talvez algum dia a Arqueologia descubra o legítimo material.

 

A VITÓRIA DE JOSUÉ SOBRE A COALIZÃO DE REIS

Algo surpreendente deste texto de estudo é que a admiração do autor não está no milagre do Sol, ou na chuva de pedras; mas, sim, no fato de o Senhor ter “atendido à voz de um homem”. (v. 14) Josué estava em intercessão pela vitória de seu povo (v. 12) e, em resposta, Deus pelejou por Israel de forma grandiosa. (v. 14) A oração da fé ‘move montanhas’ e, neste caso, foi capaz de deter o próprio tempo. Nada é demasiadamente difícil para o Senhor.

Podemos ter certeza de que “se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouvirá”. (1 João 5:14) Deus reina soberano sobre todas as coisas e se satisfaz em ouvir as preces dos filhos.

A Bíblia deixa claro que os cristãos são filhos adotivos de Deus (Efésios 1:4-6; Romanos 8:14-17). Em nossa relação Pai e filho, existe grande intimidade, autoridade e responsabilidade, e precisamos entender isso se queremos nos relacionar com o Pai e viver neste mundo como ele quer que vivamos.

 

Josué reforçou a confiança na promessa de Deus quando afirmou a seus homens que “o Senhor, vosso Deus, já vo-los entregou nas vossas mãos”. (v.19) Alguns israelitas ficaram protegendo a caverna em que os cinco reis haviam se refugiado para impedir que fugissem (v. 16), enquanto os demais soldados perseguiram o restante dos inimigos, não deixando que entrassem nas cidades fortificadas (v. 19), embora alguns tenham conseguido. (v. 21)

Os capitães do exército colocaram os pés sobre os pescoços dos cinco reis. (v. 24) Esse ato era uma declaração simbólica de vitória sobre o inimigo, a ilustração de um poder maior, capaz de subjugar toda a oposição. Vemos esse mesmo simbolismo nas promessas de Deus de colocar os inimigos sob os pés do Messias (Salmos 110:1), de esmagar Satanás debaixo de nossos pés (Romanos 16:20) e do domínio final de Cristo, quando todas as coisas estiverem sujeitas sob seus pés (1Cor 15:27). As mesmas palavras de encorajamento recebidas de Deus, Josué transmite a seus companheiros: “Não temais, nem vos atemorizeis; sede fortes e corajosos”. (v. 25)

Após a execução dos reis, seus cadáveres foram expostos em árvores, assim como havia ocorrido com o monarca de Ai (Josué 8:29), e retirados antes do pôr do sol, em conformidade à Lei de Moisés. (Deuteronômio 21:22-23)

A Arqueologia confirma os relatos da destruição de Laquis e de Debir. Escavações encontraram evidências de destruição por incêndio em ambas as cidades, na época de Josué. A alvenaria abaixo da camada de cinzas era canaanita e, acima, israelita.

 

VITÓRIAS ADICIONAIS DE JOSUÉ

No restante do capítulo 10, é oferecido um resumo das vitórias de Josué, na região sul de Canaã. Com a derrota da coalizão, o caminho para novas conquistas fora aberto. São mencionadas as vitórias sobre sete reis e seus povos.

Os israelitas entraram em Canaã por sua parte central, Jericó, avançando em suas operações militares para o sul (Josué 10) e, posteriormente, para o norte. (Josué 11) O fato de citarem apenas sete cidades pode ser um indicativo de que o relato tratava apenas das cidades representativas da região.

Os versos 40 e 41 são um resumo da campanha militar de Israel, no sul da Palestina. A “região montanhosa” refere-se às terras altas da Judeia e às colinas de Efraim. O Neguebe era uma estepe semiárida, no território sul de Judá. As “campinas” ficavam entre as terras altas e a planície costeira. As “descidas das águas” são as vertentes orientais que levam ao Mar Morto. Os limites gerais da campanha estenderam-se de Cades-Barneia até Gaza, totalizando 113 quilômetros.[13] Joseph Parker fez a aplicação espiritual dessa passagem: “Assim, nós também devemos prosseguir - de um mal ao outro, até que a última coisa ruim seja eliminada. De um hábito ao outro, até que todo o caráter seja purificado. Prosseguir até que toda a vida seja limpa.”

Algumas pessoas estranham a participação de Deus no que chamam de “genocídio” das cidades cananeias (por exemplo, os versos oito, 10, 11, 14, 19, 30, 32, 40 e 42 do capítulo em estudo). Desde Marcião, um herege do segundo século, alguns têm apontado o que acreditam ser uma contradição entre o caráter de Deus, no Antigo Testamento, e sua revelação pessoal em Jesus Cristo, no Novo.

Deus ofereceu 400 anos de misericórdia antes de executar sua justiça contra os amorreus. (Gênesis 15:16) Isso sugere que, quando Josué e suas tropas destruíram tais povos, eles estavam além de qualquer possibilidade de remediação. Clay Jones, professor da Universidade Biola, na Califórnia, reportou, em um artigo, a profundidade da perversão moral existente em Canaã: idolatria, perversões sexuais (incesto, adultério, estupro, prostituição cultual e sexo com animais) e sacrifícios humanos. Tudo isso era normalidade entre os cananeus. Por causa dessas práticas, o Senhor estava expulsando tais nações de diante de Israel.

O teólogo Tremper Longman III afirmou:

 

(...) a medida extrema da guerra de Yawheh foi necessária por pelo menos quatro razões: (1) a dureza irremediável do coração das vítimas; (2) a necessidade de proteger Israel contra a corrupção espiritual; (3) a destruição da idolatria; (4) a educação de Israel e das nações sobre o caráter e as instruções do único Deus verdadeiro.

 

A demonstração da ira de Deus pelo pecado teve uma demonstração inicial em seus juízos sobre Canaã, chegou ao clímax na cruz de Cristo e alcançará a sua completude no Juízo Final, quando todos os ímpios serão lançados no lago de fogo.

 

CONCLUSÃO

Deus é aquele que abate todos os inimigos de seu povo e concede-lhe a vitória. Podemos estar certos de que as portas do inferno não prevalecerão contra a sua Igreja. (Mateus 16:18) Portanto, ele é digno de todo o nosso louvor, honra e adoração. Que nos momentos de angústia e dificuldade, quando estivermos passando por uma crise ou tribulação, lembremo-nos das poderosas obras daquele que prometeu estar conosco, todos os dias até à consumação do século”(Mateus 28:20). Ele pode, se for necessário, mover “céus e terra” em favor daqueles que o amam e servem.

 

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Graça Maior - Fabricio Luís Lovato, . Disponível em: https://gracamaior.com.br/estudos/estudo-da-semana/1103-deus-peleja-por-seu-povo.html. Acesso em 21 Novembro 2017.