Uma ideia predominante nos círculos céticos é que o Deus do Antigo Testamento é cruel e tolera práticas que são imorais. Cada exemplo que os céticos forneceram para provar essa tese, no entanto, mostrou-se falso. O Deus do Antigo Testamento é o mesmo Deus de amor que observamos na vida e personalidade de Jesus Cristo. Uma passagem que é incorretamente usada para impugnar o caráter de Deus é Deuteronômio 22:28-29. Moisés escreveu:

Quando um homem achar uma moça virgem, que não for desposada, e pegar nela, e se deitar com ela, e forem apanhados, então o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinquenta siclos de prata; e porquanto a humilhou, lhe será por mulher; não a poderá despedir em todos os seus dias

Deuteronômio 22:28-29

De acordo com o cético, esses versos ensinam que um homem que estupra uma mulher pode tê-la como sua esposa. O cético então exige que qualquer Deus que recompense um estuprador com a mulher que ele estupra seja perverso e imoral. Assim, o Deus da Bíblia não pode ser o Deus amoroso que os cristãos dizem que Ele é.

A razão pela qual o cético à primeira vista parece ter um bom argumento é simplesmente porque a maioria das traduções inglesas desses versos não traduz com precisão a intenção original do hebraico. Para ser justo, esse problema faz com que até mesmo aqueles que não são céticos tenham alguma dificuldade. Quando a maioria dos falantes de inglês ouve que uma pessoa “apoderou-se” [ou “pegou”, como na tradução ACF citada] de outra pessoa, nós necessariamente saltamos para a conclusão de que é uma ação violenta contra a vontade da outra pessoa. Este problema foi agravado pelo fato de que algumas traduções incorretamente e erroneamente traduzem a palavra como “estupro”. A verdade é, no entanto, que a palavra hebraica, neste caso traduzida como “apoderar” (tapas) pode significar muitas coisas. Aqui estão alguns exemplos do modo como é traduzido em Deuteronômio 22:28 em várias traduções inglesas diferentes:

“Segurá-la” (ASV)
“Levando-a” (DRA)
“E a leva” (NLV / NAB)
“E pegou ela” (YLT).

Ao olhar para outras passagens que usam a palavra, podemos ver que a palavra tapas às vezes não tem nada a ver com força e, portanto, nada a ver com estupro. Como Greg Bahnsen escreveu:

A palavra hebraica tapas (“agarrar-se a ela”, enfatizada acima) significa simplesmente segurar algo, segurá-lo na mão e (por aplicação) capturar ou apreender algo. É o verbo usado para “manejar” a harpa  e a flauta (Gênesis 4:21), a espada (Ezequiel 21:11; 30:21), a foice (Jeremias 50:16), o escudo (Jeremias 46 9), os remos (Ezequiel 27:29), e o arco (Amós 2:15). É igualmente usado para “tomar” o nome de Deus (Provérbios 30:9) ou “lidar” com a lei de Deus (Jeremias 2:8). As vestes de José foram “apreendidas” (Gênesis 39:12; cf. 1 Reis 11:30), assim como Moisés “tomou” as duas tábuas da lei (Deuteronômio 9:17) ... [O] verbo hebraico “manusear, agarrar, capturar” em si não indica nada sobre o uso da força (itálico no original).

Na verdade, usamos palavras em inglês dessa maneira regularmente. Por exemplo, uma breve olhada na palavra inglesa “take” (pegar ou tomar) ilustra o ponto. Você pode pegar o biscoito de alguém, ou pegar a esposa de uma pessoa, ou tomar uma noiva para ser sua esposa. A ideia de força não é inerente à palavra. Se você pegar uma pessoa em seus braços, o que você fez? Ou se um jovem toma uma jovem mulher para ser sua esposa, há força envolvida? Não. Além disso, pense na palavra em inglês “hold” (segurar, agarrar). Você pode se apoderar de algo de várias maneiras. Costumamos dizer que uma mulher segura a criança em seus braços, ou um noivo leva uma noiva para “segurá-la”. A palavra hebraica tapas está agindo exatamente da mesma maneira que as palavras inglesas “segurar” e “pegar”.

Além disso, fica evidente no contexto imediato de Deuteronômio 22 que o estupro não está sendo discutido nos versículos 28-29. Sabemos disso por dois motivos principais. Primeiro, os versículos 25-27 dão um exemplo claro no qual o estupro está sendo discutido. Nesse caso, um homem estuprou uma mulher, ela “gritou” (v. 27), mas ela estava no campo e ninguém estava lá para ajudá-la. O texto diz que o homem que cometeu o crime “morrerá” (v. 25), mas os israelitas não deveriam “fazer nada à jovem”, já que “não há na jovem pecado digno de morte” (v. 26). É de grande interesse que neste caso claro de violação, o texto use uma palavra completamente diferente. A palavra traduzida “forçá-la” no verso 25 é a palavra hebraica chazaq, e ainda no versículo 28, o verbo foi intencionalmente alterado para tapas (ver Shamoun, 2015). Em segundo lugar, a leitura natural dos versos 28-29 torna evidente que ambas as partes têm pelo menos parte da culpa. Observe que no final do versículo 28 o texto diz: “e eles forem apanhados”. Quando a passagem discute o caso óbvio de estupro, o texto especificamente menciona apenas o homem no verso 25 quando diz “então somente o homem que se deita com ela”, e conspicuamente deixa de fora qualquer indicação de “eles” sendo envolvidos no pecado. O Dr. Bahsen compara Deuteronômio 22:28-29 a Êxodo 22:16, que diz: “Se alguém enganar alguma virgem, que não for desposada, e se deitar com ela, certamente a dotará e tomará por sua mulher.” (1992). Note que neste verso em Êxodo, não há força e ambas as partes possuem parte da culpa.

O valor prático da instrução de Deus em Deuteronômio 22:28-29 é fácil de ver. Um homem tem relações sexuais com uma jovem que não está prometida a ninguém. Não há força envolvida e não é estupro. Mas a ação deles foi descoberta. Agora, quem na terra de Israel se casaria com uma jovem que não se manteve pura? O homem não pode se afastar de seu pecado. Ele colocou a jovem em uma situação de vida muito difícil, na qual haveria poucos (ou nenhum) outro homem que desejaria se casar com ela. Como era frequente o caso de as mulheres terem um tempo extremamente difícil financeiramente sem a ajuda de um marido, isso seria ainda mais devastador para a jovem. Deus responsabiliza ambas as partes, instruindo-as a se casar e ficarem juntas, ambas sofrem a vergonha e trabalham com as dificuldades que eles trouxeram sobre si mesmos. Nada poderia ser mais moral, amoroso e sábio do que essas instruções. Mais uma vez, a acusação cética contra o amor de Deus é sem fundamento.

Referências

Bahnsen, Greg (1992), “Premarital Sexual Relations: What is the Moral Obligation When Repeated Incidents are Confessed,” Covenant Media Foundation, http://www.cmfnow.com/articles/pe152.htm.

Shamoun, Sam (2015), “The Old Testament and Rape,” http://www.answering-islam.org/Shamoun/ot_and_rape.htm.


Traduzido por Fabricio Luís Lovato a partir de “Deuteronomy 22:28-29 and Rape” <http://apologeticspress.org/APPubPage.aspx?pub=1&issue=1200&section=0&article=2534&cat=75>

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