Como de costume em toda época de pré-Páscoa e pré-Natal, a revista Superinteressante lança uma edição questionando a veracidade histórica da Bíblia. Já vimos ataques a Abraão, Moisés, Paulo, Judas, Jesus... Na última vez havia sido a virgem Maria (minha análise da revista: 'A Verdadeira Maria'? Comentários à Revista Superinteressante), e agora, foi a vez de Maria Madalena. Depois de ler as 10 páginas dedicadas ao tema na edição 381 da revista, trago minhas considerações.

O que podemos saber sobre Maria Madalena?

A matéria está certa ao dizer que relativamente pouco é atribuído à Maria Madalena nos Evangelhos. O que sabemos é que ela era uma mulher próspera, da cidade de Magdala, foi liberta da opressão demoníaca e se tornou uma das primeiras testemunhas oculares da crucificação e ressurreição de Cristo.

De onde vem então a ideia comum de que Madalena teria sido uma prostituta ou adúltera? Além da história de Maria Madalena, os Evangelhos contam outras duas histórias: a de uma mulher conhecida como "Maria de Betânia" (João 11) e de outra anônima chamada simplesmente de "mulher pecadora da cidade" (Lucas 7). Enquanto desde os tempos antigos alguns tenham entendido que se trata de três mulheres distintas (como Orígenes), muitos acreditam que as três personagens sejam a mesma (de Tertuliano no século II a teólogos modernos como John Wenham[1]), o que revelaria um quadro mais completo da vida de uma mulher que se afastou de sua família, viveu uma vida de prostituição, mas foi transformada por Cristo. Embora haja algumas diferenças entre esses relatos, eles não são de forma alguma contraditórios (ao contrário do que o texto da Super tenta mostrar). Mas mesmo que nos atêssemos apenas aos textos específicos sobre Maria Madalena, ainda assim temos três pistas que podem ajudar na compreensão de sua identidade:

  1. ela foi liberta da opressão de sete demônios (Lucas 8:2), o que na concepção judaica envolvia imoralidade sexual;
  2. ela era de Magdala, cidade conhecida pela prostituição;
  3. ao contrário de outras mulheres no Novo Testamento, Maria Madalena jamais é identificada com o nome de seu esposo.

Por isso, o passado de sua história não foi uma invenção tardia de uma igreja patriarcal que queria difamar as mulheres.

Quando o Novo Testamento foi escrito?

Para tentar refutar a autoridade do texto bíblico, a revista afirma que os 4 Evangelhos foram escritos em épocas diferentes, com João tendo sido escrito entre 90 e 110 d.C. Contudo, John A. T. Robinson, que aceitava uma data tardia para a escrita do Novo Testamento, concluiu após investigação histórica que ele é obra dos apóstolos ou seus contemporâneos, e que todos os seus livros, incluindo os Evangelhos, as cartas e o Apocalipse foram, com toda certeza, escritos antes de 64 d.C. (seu livro "Redating the New Testament"[2] de 1976 apresenta suas conclusões).

Quando os livros do Novo Testamento foram aceitos pela Igreja?

A matéria afirma que do século I ao século IV não haviam livros ou doutrinas oficiais no Cristianismo. Temos abundante testemunho histórico dos primeiros pais da Igreja[3] (Inácio, Irineu, Pápias, Policarpo, Clemente, Justino etc.) de que os Evangelhos e as cartas de Paulo foram aceitos como regra de fé pela Igreja desde o princípio. O documento conhecido como cânone Muratoriano, de 170 d.C., referência 22 dos 27 livros do Novo Testamento como aceitos pela Igreja. Embora tenham havido alguns debates doutrinários nos primeiros séculos, algumas doutrinas foram amplamente aceitas por todos os cristãos, como por exemplo a divindade de Jesus (conforme apresentei no artigo "Homem deificado ou Deus que se fez homem? A antiguidade da crença na divindade de Jesus").

Vários ‘Cristianismos’?

Não havia vários "Cristianismos" primitivos, pois o movimento Gnóstico não era Cristianismo, e sim, uma seita mística diversificada que buscava conciliar princípios platônicos, judaicos e cristãos. Os chamados Evangelhos Gnósticos, tidos pela revista como fontes de autoridade, são tardios (de 150 a 250 d.C.), apresentado falsas autorias (Tomé, Filipe, Madalena etc.), e sendo portanto, indignos de credibilidade histórica.

Esposa de Jesus?

A matéria acerta ao afirmar que "esposa" é uma tradução incomum para o termo "koinonôs" no Evangelho de Filipe (200 d.C.), e que o trecho que diz que Jesus ‘"beijava Maria Madalena" está rasgado ("na boca" é um acréscimo inventivo de "O Código da Vinci"). Mas eu acrescento que há uma evidência ainda mais forte nesse próprio texto apócrifo de que Maria Madalena não era esposa de Jesus: os discípulos questionam Jesus sobre o porquê de Ele dar tanta atenção para ela, mais do que a eles próprios. Seria cômico um seguidor questionar seu mestre: "mas por que você dá mais atenção para sua esposa do que para mim?" A queixa dos apóstolos coloca Maria Madalena em pé de igualdade com eles como aprendizes do Senhor.

A matéria também acerta ao destacar como fraudulenta a base do livro "O Santo Graal e a Linhagem Sagrada", a fonte moderna que inventou a tese de Maria Madalena como esposa de Jesus e de onde Dan Brown plagiou suas ficções.

E quanto aos apócrifos?

Os livros apócrifos não foram rejeitados porque favoreciam uma visão elevada da mulher (como Maria Madalena), enquanto os livros "escolhidos" a rebaixavam. Pelo contrário, os livros do Novo Testamento apresentam um grupo de mulheres como as únicas que permaneceram com Cristo até o fim (enquanto os homens fugiram) e as primeiras testemunhas da ressurreição de Jesus. As mulheres aparecem ocupando posições de destaque nas comunidades cristãs primitivas. Das 26 saudações que Paulo envia à igreja de Roma (Romanos 16), um terço são para mulheres. Por outro lado, o Evangelho Gnóstico de Tomé apresenta Jesus dizendo que transformaria Maria Madalena em um homem, a fim de que ela pudesse entrar no céu!

As demais discussões sobre os desenvolvimentos lendários medievais em torno da personagem fogem ao meu propósito nessas breves considerações.

Que de Maria Madalena sigamos o exemplo de encontrarmos cura para nossos pecados em Cristo (Lucas 8:2), tê-lo como nosso Mestre (João 20:16) e contar aos demais os Seus feitos (João 20:18). Esse retrato é a verdadeira face de Maria Madalena, e o único que poderia ser chamado de Superinteressante.


[1] WENHAM, John. Easter Enigma, 162 p., 2005.

[2] ROBINSON, John A. T. Redating the New Testament, 369 p., 1976.

[3] Maiores informações podem ser obtidas na obra The Ante-Nicene Fathers, coleção de livros em 10 volumes organizada por A. Cleveland Coxe, Alexander Roberts, James Donaldson, Philip Schaff e Henry Wace, contendo traduções para o inglês dos textos cristãos da época apostólica até o Concílio de Nicéia, em 325 d.C.

 

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Graça Maior - Fabricio Luís Lovato, . Disponível em: https://mail.gracamaior.com.br/estudos/apologeticos/1247-qual-e-a-face-de-maria-madalena.html. Acesso em 19 Maio 2018.