Texto de Estudo

Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Mas eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás.

 

INTRODUÇÃO

Boa parte dos estudiosos concordam que não foi um apóstolo a fundar a Igreja Cristã em Roma. Uma forte tendência é que tenham sido visitantes de Roma, que estiveram presentes em Jerusalém durante as festas da Páscoa, na ocasião do Pentecoste, quem levaram o evangelho até aquela região. Ou seja, ao regressarem para casa, convertidos e cheios do Espirito Santo, podem ter levado a semente do Evangelho.

Na igreja de Roma havia novos convertidos, cheios de entusiasmo e emoção, mas ainda vazios de conhecimento e da vontade de Deus. Um dos propósito da Carta de Paulo aos Romanos foi apresentar a doutrina cristã, explicar o plano traçado por Deus e o relacionamento entre judeus e gentios. Por isso, a Carta de Romanos é considerada ‘’A Carta Magna do Cristianismo’’.

O maior questionamento, em Romanos, talvez seja como poderia o homem ser justo para com Deus. Dentre tantos assuntos de extrema importância na epístola, o que decorre por todo o livro são a Lei, a Carne e o Espirito. A partir de agora, esclareceremos um pouco acerca desses itens.

 

PARA QUE A LEI?

Neste momento da Carta aos Romanos, Paulo estende suas palavras para mostrar o relacionamento do cristão com a Lei, palavras estas que, a princípio, passa a ideia de que o apóstolo está anulando a Lei de Deus, a qual tanto defendeu como fariseu. É preciso compreender que a questão relacionada à obediência da Lei não está em suas ordenanças, imposições ou limites, às vezes relatados pelo homem como injustas e cruéis. A questão está em nossa natureza pecaminosa e corrupta. Não estamos mais sob a Lei; por que, então, ela foi atribuída? Não foi para ser um meio para o ser humano ser salvo, mas com a intenção de preparar a raça humana à percepção da necessidade de um salvador. Paulo declara: “Por conseguinte, a Lei é Santa; e o Mandamento, Santo, Justo e Bom”. (Romanos 7:12 NVI)

Na verdade, a Lei liberta e traz-nos à consciência de que existe diferença, sim, entre o certo e o errado. Outro aspecto que a Lei consegue é fazer com que o homem nascido de uma natureza pecaminosa possa entender que não é capaz de observar a Lei em sua plenitude, ou seja, o homem é incapaz de obedecer à Lei plenamente. Com isso, quando o ser humano entende, dá conta de sua situação, de sua imperfeição, de sua total incapacidade, nasce em seu coração o desejo, o anseio por um salvador. Assim, ele passa a dar grande valor a isso.

O capítulo 7 da carta relata um grande e profundo dilema, a luta travada entre as nossas duas naturezas: a pecaminosa (a que quer seguir nossas próprias vontades – a carne) e a espiritual (a que quer obedecer à vontade de Deus – o Espírito). Essa guerra acontece dentro de cada ser humano, pelo fato de que a raça humana, sabendo o que é certo, acaba ainda assim permitindo que sua natureza pecaminosa convença-a a fazer o errado, por considerar mais agradável.

O que é tremendo no apóstolo Paulo é que ele expressa, de maneira muito clara, sua gratidão a Cristo, por se sentir liberto da natureza pecaminosa, contra a qual ele mesmo dizia não ter forças para lutar. A magnitude da carta é nos revelar que Cristo pode fazer, de uma só vez, por nós, o que passaríamos a vida lutando em vão para fazer em nosso favor.

 

A LIBERDADE VENCE O DOMÍNIO DA LEI

“Meus irmãos, falo a vocês como a pessoas que conhecem a Lei. Acaso vocês não sabem que ela tem autoridade sobre alguém apenas enquanto ele vive?(Romanos 7:1)

Paulo era judeu, da tribo de Benjamim; recebeu instrução de maneira cuidadosa de toda a Lei judaica e tornou-se um fariseu. Em uma das partes da carta, faz referência a si: Circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível.”(Fl 3:5,6)

Quando Paulo, no versículo um do capítulo sete, diz que falava com pessoas conhecedoras da Lei, do original “Ginoskousi gar nomon lalo”, que se for traduzido literariamente quer dizer “Eu estou falando com aqueles que têm conhecimento da Lei.”, não estava fazendo diretamente referência à Lei mosaica, nem à romana, mas sob aspecto geral a todas elas. Em suma, declarava que a morte aniquila, ou seja, zera a lei. Um homem morto não está mais sujeito a um processo de legitimidade legal. Como a analogia que ele faz ao casamento, a comparação é simples: assim como a morte aniquila (dissolve) a ligação, o vínculo entre o marido e a mulher, a morte do cristão, por meio de Cristo, encerra o jugo da Lei. Então, passa a ser livre para se unir a Cristo, aquele que ressuscitou. Cristo é o novo marido, que vive para a eternidade; não morre mais. Sendo assim, a união jamais poderá ser desfeita.

 

ABANDONANDO A CARNE

“Pois, quando éramos controlados pela carne, as paixões pecaminosas despertadas pela Lei atuavam em nossos corpos, de forma que dávamos fruto para a morte.”(Romanos 7:5)

Quando Paulo cita “na carne”, ele não está se referindo à vida que o cristão, bem como todo homem, tem de viver neste mundo. O termo empregado é para esclarecer, ou seja, designar a situação passada do cristão. Ele já não tem sua vida direcionada e governada pela condição decaída de sua natureza pecaminosa e dominada pela força corrupta da “carne”.

Pode-se dizer que a função ou o efeito da Lei era estimular nossas paixões e, como diz o texto bíblico, produzíamos frutos para a morte. Quando fomos libertados da Lei que nos condenava à morte, fomos fortalecidos a abandonar a carne. Embora Paulo tenha plena consciência de que a pecaminosidade ainda existe de forma continuada na vida do cristão e da tamanha necessidade de ele ser constantemente exortado e despertado a viver mediante a sua fé, em outro lugar, o apóstolo afirma: “Pois o justo viverá pela fé”. (1:17)

Apesar de tudo isso, Paulo demostra a esperança na raça humana que pode andar em novidade de vida, livre do jugo do pecado, abandonando a força da carne.

 

ENTÃO, A LEI É PECADO?

Como diria o apóstolo, “Deus me livre!”. Não; a Lei não é pecado, claro que não! Mas foi ela que nos apresentou o pecado. Muitos argumentos apresentados por Paulo poderiam nos permitir ter a impressão de que a Lei era um mal, mas ele explica que foi um instrumento explorado pelo pecado para gerar a morte no homem. Por exemplo: no Éden, a serpente utilizou o mandamento que é bom, gracioso e dado por Deus, de maneira eficaz para explorar, valendo-se do pecado, a destruição da comunhão que o homem mantinha com Deus no paraíso. Mas é necessária a compreensão de que, apesar de a Lei ter a autonomia de revelar, provocar e até condenar o pecado, ela não é - e não deverá jamais ser - responsabilizada pelo pecado. A LEI É SANTA.

Paulo tira todo o peso sobre a Lei, porque ela foi dada por Deus para o homem reconhecer e identificar o pecado e, assim, fugir dele. A Lei deveria ajudar o homem e, não, destruí-lo.

A LEI É A CAUSADORA DA MORTE?

A resposta para essa pergunta é a mesma para a anterior: de maneira alguma. Diante disso, podemos levantar duas importantes questões. Em primeiro lugar, identificar as virtudes da Lei. Ela é santa, o Mandamento Santo, Justo e Bom. Em si mesma, é totalmente valiosa, podendo declará-la como a voz do nosso Deus.

A palavra grega que traduz santa é “Hagios”, indicando o que provém de uma esfera alheia a este mundo, algo que pertence a um campo mais além da vida e da existência humana. A Lei também é justa; por meio dela, é estabelecida a relação divina-humana. Ademais, é boa, por promover o bem.

E o que pode ser dito por essas declarações e exposição da Lei? Ela reflete o Caráter de Deus. Como cita John Murray, “a Lei, é a cópia da perfeição de Deus, a pureza de Deus, a equidade de Deus; sendo assim, exige de nós, humanos, consagração e pureza correspondentes”. A verdade explanada é que a culpa não é da Lei; é nossa. Usando a analogia de Paulo quanto ao casamento, no primeiro quem fracassou não foi o marido, mas a esposa (Não foi a Lei; foi o Homem).

Em segundo lugar é o quanto o pecado é maligno. A Lei não pode causar a morte e, sim, o pecado. Citando como exemplo um criminoso, o seu problema não é a Lei e, sim, a transgressão da mesma. Porque, como dito anteriormente, sua função é exigir do homem quando ele não faz. Assim, condena e leva à morte.

John Stott teve razão quando afirmou que a Lei é boa, mas, também é fraca. Em si, é santa; contudo, é incapaz de tornar-nos santos. Sua fraqueza não está em si mesma, mas em nossa carne.” 

 

CRISTO É O FIM DA LEI?

“Pois o pecado não os dominará, porque vocês não estão sob a Lei, mas sob a graça.”(Romanos 6:14)

Em outras palavras, essa declaração de Paulo mostra que “sob a Lei” significa estar sob sua condenação. A nova posição a que se refere, “não estar sob a Lei”, não isenta o homem da obrigação de cumpri-la. Afinal, até na lei dos homens, quando se transgride, há uma punição. Na Lei de Deus não é diferente; nunca foi. O fato de não estarmos mais sob o jugo da lei, não significa que temos liberdade para continuarmos pecando, pois o pecado é a transgressão da Lei de Deus. (1 João 3:4) Desobedecer a Deus, conscientemente, torna o homem novamente escravo do pecado. Na verdade, a graça alcançada com a morte e a ressurreição de Jesus Cristo não elimina ou erradica a Lei, nem dá ao homem permissão para pecar deliberadamente.

Em momento algum, Paulo faz menção de que a graça liberta da Lei. Na verdade, o que faz é dar uma oportunidade de o homem ser salvo do domínio do pecado. Como cristãos, essa transição de morrermos para o pecado acontece quando Cristo nos é revelado por meio da fé, e as Escrituras declaram que não vem de nós; é dom de Deus. (Efésios 2:8) É dessa forma que ocorre a libertação do domínio do pecado para o homem viver uma vida de obediência a Deus. Esse novo começo, essa nova chance que o homem recebe, é o que a Bíblia chama de Graça e precisa ser uma realidade constante em sua vida.

Apesar de o homem ter sido liberto do pecado, a verdade é que este ainda exerce influência e ganha força na fraqueza de nossa “carne” (corpo mortal). Daí vem a exortação de Paulo, quando ele diz que não deve reinar em nosso corpo mortal para que não aconteça de ceder às suas concupiscências.

Na Lei, o pecado dominava o homem, tanto que anualmente o sacerdote apresentava sacrifício para a remissão de tal. Ele entrava no Santo dos Santos, aspergia sangue e pedia perdão pelos pecados. O que a Graça fez? Jesus veio, tomou nossos pecados, as doenças e a maldição, o que nos prendia, escravizava e cravou tudo na cruz. Isso é graça; o véu rasgou-se. Cristo é o fim da Lei que nos condena, e o começo da que nos liberta.

 

A LUTA DO HOMEM COM ELE MESMO

A partir do versículo 15 do capítulo sete, o apóstolo Paulo revela sua luta interior: Não entendo o que faço. Pois não faço o que desejo, mas o que odeio”(Romanos 7:15). Esse é também o dilema, a luta travada por todo cristão. E ela, antes de tudo, uma batalha moral, só sendo possível vencê-la, vivendo na dependência do Espirito Santo, com muita abnegação, coragem, esforço, determinação e fé. Assim, será possível vencer a guerra.

O apóstolo fala do desejo de fazer o bem, mas por que não conseguia? Simples; a resposta é “por causa da carne”. É preciso muito mais do que desejo de praticar o bem para conseguir fazê-lo, porque apenas a intenção não vence a carne, nem resolve o problema, tampouco refreia os desejos pecaminosos. Muitos cristãos, inseridos nessa batalha diária, são vencidos por suas fraquezas; outros, nessa luta interior, desistiram e entregaram-se ao pecado, por lhes faltar forças para prosseguir, porque estão lutando sozinhos.

Só existe uma maneira de vencer, de resistir: ser por inteiro de Cristo. Com um “eu” divido, não se pode vencer o pecado. O velho homem, a velha natureza, a natureza baseada em Adão, pecaminosa, tem de morrer e ceder lugar à nova criatura, à nova natureza, a que Cristo proporciona a nós, por meio da redenção em Sua morte e ressurreição, a que Ele dá a cada um de nós por meio da graça. Só assim o novo homem, o novo ser, a nova criatura vencerá o poder do pecado, conseguindo praticar o bem, mantendo a fé em Cristo Jesus.

A declaração que o apóstolo faz leva-nos a questionar: Paulo ainda era escravo do pecado? Como pode alguém ser liberto por Cristo e ainda ser escravo de pecado? Apesar de estar fazendo referências na primeira pessoa, não era pessoalmente dele que Paulo dizia. Ele colocou-se nessa posição para chegar aos judeus, dos quais era um; e aos gentios, de quem era evangelista. Ele generaliza a raça humana, mesmo tendo vencido os grilhões do pecado, valendo-se da morte e da ressurreição de Cristo.

Existe, sim, uma luta diária e constante entre a carne e o Espírito. Nossos desejos carnais são contrários à vontade divina. A carne leva-nos a pecar contra Deus, enquanto o Espírito conduz-nos à obediência a Ele. Apesar de ter no homem regenerado a vontade de agradar a Deus, a inclinação da carne, às vezes, leva-o ao pecado.

Com relação às referências de Paulo e sua citação, no versículo 24 do capítulo sete,“miserável homem que sou....”. O apóstolo já havia sido livre, era um novo homem, vivia para Deus e para Sua obra; como poderia estar em busca de um salvador, visto que já O tinha? O que diz é para descrever uma situação miserável, vivida antes de Cristo, tanto que ele mesmo já tem a resposta no versículo seguinte, dando graças a Deus por Cristo Jesus. Em outra ocasião, Paulo declara já estar crucificado com Cristo (Gálatas 2:20); adiante, diz que sabia em quem cria e quem é Poderoso. (2 Timóteo 1:12)

 

CONCLUSÃO

Paulo faz-nos entender, com o capítulo sete de Romanos, que a Lei tem como propósito despertar, revelar e condenar o pecado. Onde ela não existe, também não existe pecado. O pecado, por sua vez, gera a morte. O homem que é nascido de novo, gerado na fé em Cristo Jesus, não anda segundo os desejos da carne, mas de acordo com as orientações do Espírito Santo. O ser humano só passa a ter essa condição, depois de ter morrido para o que estava detido na Lei. Acontece, então, o maior milagre da vida, a natureza do primeiro Adão perde lugar para o segundo, aquele que nos tirou das trevas para a maravilhosa luz.

Com uma nova identidade, é iniciada a descendência de Cristo. Isso não isenta o homem de pecar, mas o livra da servidão e da prática do pecado. Toda glória seja dada a Ele, que nos trouxe libertação.

 

 

Graça Maior - Pr. Claudiney Soares da Silva, . Disponível em: http://gracamaior.com.br/estudos/estudo-da-semana/1187-a-lei-a-carne-e-o-espirito.html. Acesso em 29 Maio 2017.