Texto de Estudo

Pois quê? Somos nós mais excelentes? De maneira nenhuma, pois já dantes demonstramos que, tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado;

INTRODUÇÃO

O apóstolo Paulo escreveu esta carta com objetivo de apresentar o Evangelho à Igreja romana. O alvo era ganhar apoio dos cristãos, em Roma, para levar adiante os planos missionários nas regiões da Espanha. Naquela área, a pregação de Cristo não havia sido anunciada. Paulo, com esta epístola, procura persuadir os romanos a apoiá-lo nessa missão.

Ao mesmo tempo, o apóstolo enfrentava a oposição de judeus que o acusavam de desvirtuar a sã doutrina e a prática do Judaísmo. A epístola aos romanos contém a exposição do Evangelho, apresentando pontos relacionados às acusações dos judeus.

Até o capítulo três, verso oito, Paulo procura mostrar que toda a humanidade está, espiritualmente, morta; portanto, sob o julgamento divino. Ao ter contato com Deus, o ser humano é repelido, pois deu preferência aos atos perversos. Embora judeus e gentios tenham padrões morais, não vivem de acordo com eles. A partir verso nove, ele passa do argumento à prova de sua afirmação sobre a justiça de Deus.

Nesta lição, estudaremos a culpabilidade da raça humana diante de Deus e as consequências do pecado na vida dos homens. Ao mesmo tempo, Paulo apresenta a solução para a humanidade caída.

 

A INFIDELIDADE DO HOMEM X A FIDELIDADE DE DEUS

No início do capítulo três, o apóstolo levanta a seguinte questão, diante da exposição do capítulo dois de Romanos: se não há diferença entre judeu e gentil, no dia do Juízo, qual era a vantagem de serem os judeus o “povo de Deus”?

Os judeus tinham muitas vantagens espirituais. Era um privilégio ser judeu, pois Deus confiou os seus oráculos a esse povo. Porém, a sua incredulidade não comprometerá a justiça de Deus, pois Ele julgará todos os pecadores. Nesse ponto, Paulo diferencia os atributos divinos e os humanos - Deus é sempre fiel, verdadeiro e justo; já o homem, mentiroso, pecador, infiel e incoerente. Assim, este fica abaixo da condenação. O Senhor confiou-os a Sua Palavra, mas o povo de Israel não a cumpriu.

O apóstolo atacou a falsa confiança dos judeus que se julgavam melhores que os demais, refugiando-se na lei e na circuncisão, acreditando que Deus trataria esse povo com favoritismo. Paulo põe o machado da verdade na raiz dessa tola pretensão, lançando os judeus a mesma vala comum dos demais, provando que eles eram tão culpados diante de Deus quanto os gentios pagãos, e tão inescusáveis quanto os críticos moralistas.

Para fortalecer sua argumentação, Paulo cita, no verso 4, um trecho do Salmos 51 composto por Davi, no qual o rei de Israel declara-se pecador e arrepende-se do seu erro. O salmista afirma que tudo que acontecia na sua vida era para que Deus seja justificado em Suas palavras e venha a vencer quando os juízos divinos forem questionados.

Deus sempre será vencedor, pois Ele é santo; e o homem, pecador. Ou seja, Ele sempre será verdadeiro; e o homem, mentiroso. John Stott disse que a ideia seria mais ou menos esta: “Se alguém a quem as promessas de Deus foram confiadas não lhe corresponder com confiança, será que a sua falta de confiança destruirá a confiabilidade divina? Se o povo de Deus é infiel, isso significa, necessariamente, que o Senhor também o é? Toda a vez que o testemunho divino é contradito pelo testemunho humano, que seja o homem considerado mentiroso. Quando o homem discute com Deus, ele consegue somente cobrir-se de opróbrio e vergonha”.

No verdadeiro arrependimento, não há racionalização. Não existe nenhuma tentativa para minimizar a culpa, nem tentativa de autojustificação, que é a tendência humana. Mesmo quando confessarmos os pecados, tentamos amenizá-lo pecado, mas não ocorre assim com Davi. Ele entende que, se Deus responde às ações de acordo com a Lei e com o próprio caráter de justiça, Ele tem todo o direito de fazer e de punir Davi da maneira que quiser. Por isso, o salmista atira-se sobre a misericórdia no tribunal, pedindo a Deus para lidar com ele, não segundo a Sua justiça, mas de acordo com a Sua misericórdia. Isso era a única esperança de Davi, e essa é a nossa única esperança na presença de um Deus santo.

 

TODOS OS HOMENS SÃO CULPADOS

Diante da exposição até o verso oito, Paulo prepara-se para o ponto mais alto de sua tese: todos os homens, sem distinção de raça, cultura ou religião, são culpados diante de Deus. O pecado atingiu a todos, sem exceção. No julgamento divino, eles estarão silenciados pela culpa.

Paulo chama atenção dos leitores para o fato de que tantos judeus como gregos são culpados diante do Senhor. Tanto os que estão sob a Lei como aqueles que a desconhecem, são indesculpáveis. Não há dúvida de que os judeus não são justificados por Deus, com o pretexto da obediência à Lei. Assim, o efeito da Lei é revelar a pecaminosidade do homem e, não, salvá-lo. Portanto, a primeira grande conclusão da tese do apóstolo, resumida no verso nove, é que o judeu, por ter a lei, não terá vantagem sobre o gentil, no dia do Juízo Final, poiso pecado atingiu a todos, e a culpa está sobre nós.

A sua argumentação é sustentada por citações do Antigo Testamento, provada por textos utilizados pelos próprios judeus sobre a pecaminosidade da raça humana e a inexistência de algum homem justo:

Salmos 14:1-3: Como está escrito: "Não há nenhum justo, nem um sequer;não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus.Todos se desviaram, tornaram-se juntamente inúteis; não há ninguém que faça o bem, não há um sequer".

Salmos 5:9 e Salmos 140:3: “Suas gargantas são um túmulo aberto; com suas línguas enganam." "Veneno de serpentes está em seus lábios”.

Salmos 10:7: “Suas bocas estão cheias de maldição e amargura”.

Isaías 59:7-8: “Seus pés são ágeis para derramar sangue; ruína e desgraça marcam os seus caminhos, e não conhecem o caminho da paz”.

Salmos 36:1: “Aos seus olhos, é inútil temer a Deus”.

As citações do Antigo Testamento são provas cabais de que todososhomens estão destituídos da graça divina. (Romanos 3:23) Paulo usa o sistema rabínico de argumentação: inicia com uma citação das Escrituras, desenvolve o texto citado e conclui com outras citações do Antigo Testamento, que comprovam o que diz.

Em linhas gerais, usa dois argumentos para provar a culpabilidade humana, especialmente em sua rebelião contra Deus:

1)    A rebelião contra Deus é provada pelas Escrituras: O apóstolo atesta a autoridade e a suficiência das Escrituras. Paulo força o judeu e o grego a penetrarem no próprio eu e a reconhecer, diante de Deus, que estão em pecado.

2)    A rebelião contra Deus é provada pela experiência: Paulodiz, ao mesmo tempo, que não há um justo, ninguém que entenda, que busque a Deus ou faça o bem; e, também, que todos se extraviaram e à uma se fizeram inúteis. Todo o interior do ser humano está sob o controle do pecado: mente (“não há quem entenda”); coração (“Não há quem busque”) e vontade (“não há quem faça o bem”). Em suma, todo o nosso ser está rendido ao pecado e a serviço dele. Isso afeta todas as partes da constituição humana, as faculdades e as funções, inclusive mente, emoções, sexualidade, consciência e vontade.

 

OS EFEITOS DO PECADO

A relação do homem caído com ele próprio

Paulo usa uma lista de atitudes pecaminosas ligadas à comunicação para comprovar a gravidade da situação em que a humanidade achava-se. John Stott defendeu que membros e órgãos do nosso corpo foram criados e dados a nós para que, por meio deles, pudéssemos servir às pessoas e dar glória a Deus. Em vez disso, porém, são usados para ferir e oferecer rebeldia contra Deus. Tiago, em sua epístola, afirma: com a língua, bendizemos ao Senhor e Pai e, com ela, também amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus. Da mesma boca procedem bênção e maldição. Meus irmãos, não pode ser assim! (Tiago 3:9-10)

A boca é uma radiografia do coração. Ela fala aquilo que transborda do coração. Assim, vomita aquilo que o pecado produz em nós.

 

A relação do homem caído com o próximo

Paulo demonstra que o pecado atingiu as relações humanas, sobretudo em três aspectos:

a)    Falta de respeito pela vida humana - banalização da vida humana, com mortes cruéis e fúteis; opressão dos mais ricos aos pobres para viverem as avarezas.

b)    Falta de respeito pelos valores humanos - William Greathouse explicou que o homem age sem consideração para com o próximo, sem medo de comprometer seu bem-estar, ou até mesmo a vida. Ele oprime o irmão e enche sua vida de infelicidade, de modo que o caminho marcado por tal procedimento é regado pelas lágrimas dos outros.

c)    A falta de respeito pelos relacionamentos humanos - rebeldia dos homens contra Deus, destruindo pontes da fraternidade, promovendo a inimizade para com o próximo. Lembremos que a primeira atitude pecaminosa descrita em Gênesis é o assassinato de Abel, cometido por Caim.

 

Alguém fez um cálculo da violência na guerra, durante os últimos 2.000 anos de civilização ocidental, que mede o número de conflitos e a magnitude da violência em cada um. O século mais pacífico, na História da civilização ocidental, foi o primeiro, que testemunhou a vinda do Príncipe da Paz. O segundo mais pacífico foi o século XIX, razão pela qual as pessoas tornaram-se tão otimistas no final do mesmo. Elas pensavam que, por meio da ciência e da educação, a guerra tinha acabado; não previram que haveria mais violência e embates no primeiro quarto do século XX do que em qualquer antes dele! Isso foi antes da Segunda Guerra Mundial, antes do abate de milhões na União Soviética ou a China Vermelha, antes do Vietnã, antes da Coreia, e antes das guerras mundiais que quebraram, em todos os aspectos, o mundo nos últimos 25 anos. De longe, o período mais violento da História foi o século XX.

 

A relação do homem caído com a Lei

A partir do verso 20, Paulo retorna à Lei. Qualquer coisa que ela declare diz respeito aos que estão sob ela, ou seja, o povo judeu. O verso 19 demonstra que, pressionados por exigências que ninguém é capaz de cumprir perfeitamente, todo o ser humano sob Lei é silenciado e culpado perante Deus. A função da Lei é condenar o pecador e evidenciar a culpa. Portanto, ninguém será declarado justo diante do Senhor baseando-se na obediência, pois, mediante a Lei, tornamo-nos plenamente conscientes do pecado (v. 20).

Os judeus não entenderam a função da Lei. Acreditam que o ser humano pode ser justificado pelas obras da Lei. Assim, aquilo que tinha a função de quebrantar o coração e nos humilharmos diante de Deus, transformou-se em motivo de orgulho para o povo, tornando-os legalistas.

Concluímos a seção lembrando Lutero. O principal motivo da Lei é fazer com que os homens sejam, não melhores, mas piores. Quer dizer, ela mostra o pecado para que, a partir desse conhecimento, possam ser humilhados, aterrorizados, esmagados e quebrantados. Dessa forma, sejam levados a sair em busca da graça, chegando àquela Semente abençoada [Cristo].

Resumindo, todos - judeus ou não-judeus - são culpados e estão sob a influência do pecado. Pelas obras da Lei, não somos justificados. Cabe a grande questão: como podemos ser salvos? Como é possível Deus conceder-nos Sua justiça, à parte da Lei? E quais são as boas-novas que Paulo anuncia no início da carta?

 

JUSTIÇA DE DEUS MEDIANTE A FÉ

O verso 21 começa com o advérbio “mas”. Finalmente, depois da acusação de que todos estamos destituídos da graça de Deus, Paulo finalmente diz: "Mas agora a justiça de Deus, para além da Lei, manifestou-se” (v. 21). É tempo de Evangelho. Ouvimos as notícias ruins para que possamos ouvir a bondade da boa notícia, que começaremos a examinar em seguida.

O apóstolo afirma que a justiça de Deus vem mediante a fé em Cristo Jesus, porque não há diferença entre gentios e judeus; todos pecaram. Nossa salvação baseia-se na obra de Deus em Cristo, sem contribuição humana. A graça de Deus, Sua livre escolha de dar o que não temos. Também não podemos herdar. Eis a base da salvação. TUDO QUE DEUS EXIGE DE NÓS É A FÉ!

Paulo também ressalta que a cruz demonstra graça, mas igualmente a justiça de Deus. A cruz mostra que Deus cobra Seus padrões. O castigo requerido pela justiça – a morte do pecador – foi pago pelo próprio Deus; e o perdão não foi conquistado com facilidade, pois Deus pagou o preço com o sangue de Seu Filho. Diante dessa noção exposta, podemos definir o Evangelho: a mensagem de que o Senhor perdoa aos pecadores, aos culpados, e faz de forma justa pela morte sacrificial de Cristo.

O apóstolo coloca a Lei em perspectiva clara, estabelecendo o papel que Deus deu a ela: o lugar da Lei, como indicador da perdição, é estabelecido. A Lei convida-nos a olhar para Cristo com o objetivo de obtermos justiça mediante a fé.

 

CONCLUSÃO

Todos somos pecadores - eis a cruel conclusão que temos do apóstolo Paulo. Ao mesmo tempo, ele declara que somos culpados de nossos pecados. Não há nada que possamos fazer, nem obra que possa justificar os erros. Estamos perdidos; porém, Deus misericordioso e gracioso deu Seu Filho Unigênito para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna (J03:16).

De indignos, somos declarados dignos em Cristo Jesus. Todos os nossos pecados foram perdoados. E o mais impressionante: somos declarados justos, ou seja, além de termos os pecados perdoados, eles são esquecidos, como se nunca os tivéssemos cometido. Não há maior bênção e milagre de Deus! Louvemos ao Senhor por imensa dádiva.

 

 

 

Graça Maior - Pr. André Garcia Ferreira, . Disponível em: http://gracamaior.com.br/estudos/estudo-da-semana/1154-nao-ha-um-justo-sequer.html. Acesso em 29 Maio 2017.